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Hisham Matar: 'Conflitos humanos não passam do estado exagerado de uma rotina familiar' há 60 anos

Autor líbio, cujo pai despareceu em 1990 após ser levado pelas forças de Gaddafi, é convidado da Flip deste ano; ao 'Estadão', ele fala como as experiências pessoais e a Primavera Árabe influenciaram sua obra mais recente

27 jul 2026 - 20h26
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Um problema de saúde de sua mãe, Fawzia Tarbah, impediu que o escritor líbio-britânico Hisham Matar viajasse ao Brasil para participar da 24ª Festa Literária Internacional de Paraty, a Flip, que acontece até domingo, 26, na cidade fluminense. Mesmo assim, ele não cancelou sua participação, que será por vídeo na tarde deste sábado, 25: ele estará em Londres e Milton Hatoum, no palco principal do evento.

"Gostaria muito de sentir pessoalmente essa troca de experiências", lamentou o autor em conversa com o Estadão. Mais que uma preocupação filial, a decisão do autor vem carregada de um temor pela perda. Em 1990, quando ele tinha apenas 19 anos, seu pai, Jaballa, foi sequestrado no Cairo, Egito, por agentes do regime do ditador líbio Muammar al-Gaddafi, de quem era ferrenho opositor. Ele nunca mais apareceu. A partir daí, a família precisou viver discretamente em diversas cidades como Nova York, Nairóbi, Roma, Paris e Londres.

Filho de um opositor de Muamar Kadafi desaparecido em 1990, Hisham Matar transformou a história da família em literatura
Filho de um opositor de Muamar Kadafi desaparecido em 1990, Hisham Matar transformou a história da família em literatura
Foto: Diana Matar/Divulgação / Estadão

A perda paterna inspirou a escrita do livro Anatomia de um Desaparecimento (2011), em que utiliza a ficção para tratar do drama sob o ponto de vista de um garoto. Voltaria a tratar do assunto, agora de forma mais direta, em O Retorno (2017), sobre a violenta ruptura sofrida por sua família. O trauma, o legado e as dimensões pessoais da perseguição e do deslocamento permeiam tanto sua ficção quanto sua não ficção.

Em Paraty, Matar deve comentar ainda sobre seu mais recente livro lançado no Brasil, Meus Amigos (Âyiné), em que examina algo íntimo e privado: a amizade. Vencedor do Prêmio Orwell de Ficção Política e indicado ao Booker Prize, o romance acompanha a trajetória de Khaled, Mustafa e o escritor Hosam, amigos unidos desde os tempos de juventude e marcados por um protesto violento em frente à embaixada da Líbia em Londres, algo que os deixará unidos por uma história em comum.

O ponto de partida foi um evento real, acontecido em 17 de abril de 1984, quando um atirador abriu fogo contra manifestantes em Londres, a partir do interior da Embaixada da Líbia. O saldo foram 11 líbios feridos e uma policial britânica morta. A Grã-Bretanha rompeu relações diplomáticas com a Líbia por anos após o incidente.

A trama, porém, começou a ganhar uma estrutura mais rígida a partir da Primavera Árabe, série de revoltas e protestos populares que varreu o Oriente Médio e o Norte da África a partir de dezembro de 2010. "Eu estava profundamente envolvido com os acontecimentos, assim como meus amigos, foi um dos eventos mais extraordinários na história política moderna. Nós nos levantamos em frente a um grande perigo, mas foi como uma poderosa educação política."

O calor dos acontecimentos, porém, o convenceu a não escrever imediatamente. "Eu precisava de tempo", justifica ele que, ao publicar apenas em 2024, conseguiu que o romance amadurecesse e, mais que política ou revolução, explorasse questões de sensibilidade e a distância entre indivíduos que pensavam se conhecer - após o traumático acontecimento, por exemplo, os três amigos sentem um estranhamento crescente no relacionamento, explorado pelo autor com profundidade. "Passados alguns anos, questões envolvendo política ou ideologia perdem importância para questões de temperamento pessoal."

Matar reconhece ser Meus Amigos seu livro mais ousado estilisticamente, com uso mais frequentes de frases longas, quebradas por vírgulas e apostos. Logo na primeira página, uma sentença resume a essência da obra: "É impossível ter certeza do que se guarda no peito de alguém".

"Quando eu estava no meio do livro, comecei realmente a ver o que estava fazendo. Há uma questão de três temperamentos, três amigos, mas também três modalidades diferentes. Alguns de nós nos orientamos para o pragmatismo de uma vida argumentativa, e outros acham que a existência é uma distração. Sempre fui interessado em como o temperamento tem um grande papel em todos os aspectos da vida", afirma.

Capa do livro 'Meus Amigos', de Hisham Matar
Capa do livro 'Meus Amigos', de Hisham Matar
Foto: Divulgação / Estadão

A motivação também segue uma necessidade mais passional que profissional. "Acredito que um autor começa a escrever no exato momento em que percebe que a ideia é tão poderosa, mas que ainda não existem palavras para descrevê-la. É por isso que se escreve, para encontrar as expressões mais exatas."

É o que torna, em sua opinião, a literatura em um estado permanente de liberdade. "Não precisamos nos preocupar em dizer à literatura o que fazer ou quais são as suas responsabilidades. Ao longo dos anos, notei como vários escritores arruinaram seu trabalho ao tentar conduzir sua escrita para intenções diferentes", conta ele que, cético, observa os turbulentos acontecimentos em diversas regiões do planeta (Palestina, Ucrânia, Irã, Líbano, Israel) com uma certa naturalidade.

"Nos últimos 60 anos, os conflitos humanos não passaram do estado exagerado de uma rotina familiar, o que os torna até mais compreensíveis pelas pessoas. Percebo isso na reação mais assertiva dos leitores em relação aos meus livros."

Para Matar, é essencial que os escritores se mantenham informados sobre os assuntos sensíveis ao mundo. "É preciso ter uma pele muito porosa à realidade e não se preocupar com o que acontece depois. Isso estará em suas páginas."

Estadão
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