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Gisèle Pelicot reivindica sua voz e expõe 'balé macabro masculino' em 'Um Hino à Vida'

No relato autobiográfico, a francesa que recusou o anonimato narra sua trajetória — da infância ao julgamento do marido, cujos crimes chocaram o mundo e transformaram Gisèle Pelicot em um símbolo

24 mar 2026 - 18h11
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Gisèle Pelicot, a mulher que comoveu o mundo ao revelar um dos casos mais chocantes de violência e abuso conjugal da França, compartilha sua trajetória em Um Hino à Vida. A obra foi escrita em parceria com Judith Perrignon, romancista, jornalista e ensaísta premiada, responsável por dar forma literária ao testemunho.

Em 2024, Gisèle se tornou símbolo de coragem ao renunciar ao anonimato e enfrentar publicamente o ex-marido, Dominique Pelicot e mais 50 homens acusados de estupro coletivo.

Dominique era a cabeça de uma rede que tinha a própria esposa como principal vítima. "Lorazepam + Zolpidem. A fórmula da submissão química. 'O importante é não passar de oito gramas, senão ela pode morrer', um enfermeiro ativo na rede virtual dos perversos teria explicado a Dominique", relata Gisèle. Com seu corpo inerte, os crimes eram cometidos.

Em Um Hino à Vida, título que sintetiza a dimensão simbólica do livro, Gisèle conduz o leitor por sua história e mostra como, apesar do horror, permaneceu firme após a descoberta da violência sofrida. Enfrentou a ira dos filhos - que não compreenderam o seu jeito "pacato" de lidar com a situação -, a própria consciência, o julgamento alheio e o desafio de reconstruir a vida. "É a mim que protejo", escreve.

'Um Hino à Vida' foi lançado em 22 idiomas
'Um Hino à Vida' foi lançado em 22 idiomas
Foto: Pascal Ito/Divulgação / Estadão

O livro revisita sua trajetória desde a infância até o momento em que tudo desmoronou. Uma história que passa pelas fotos do pai em uma Alemanha destruída (Gisèle nasceu em Villingen), pela morte da mãe quando ela tinha nove anos, o sofrimento do pai, o novo casamento, a madrasta insensível, o irmão que definhou na tristeza e, apesar de tudo, sua resiliência. "Eu queria ser feliz, não apenas valente, não apenas corajosa, mas feliz", afirma.

Gisèle e Dominique, "seu primeiro homem", se casaram em 4 de abril de 1973. A vida simples foi marcada por dificuldades financeiras e pela instabilidade profissional do marido. Vieram os três filhos e 50 anos de casados, até Dominique ser pego, em 2020, em um supermercado filmando por baixo da saia de outras mulheres.

A denúncia levou a polícia a investigar Pelicot e apreender o seu computador. Nos arquivos, encontraram vídeos que mostravam uma mesma mulher sendo violada diversas vezes. Gisèle. Oferecida pelo próprio marido a 83 homens. Cinquenta deles foram identificados e julgados.

"Minha cabeça gritava que não, que não era eu, que não era ele", escreve a ex-executiva de logística. A partir daí, o livro acompanha sua tentativa de reconstruir a própria memória e compreender décadas de mentiras.

É como montar um quebra-cabeça, acompanhado de uma relutância interna em aceitar como algo tão terrível pode ter acontecido com uma pessoa. Gisèle começou a entender de onde vinham suas dores na pélvis e seus apagões cada vez mais frequentes, que a fizeram visitar diversos médicos e ouvir deles e do marido que sempre a acompanhava, "que estava tudo bem".

Entre a acusação por importunação sexual e a ida à delegacia — a última vez que veria Dominique antes do julgamento — passaram-se semanas. Tempo que ele usou para intensificar os estupros. "Percebi no gabinete da juíza que, ao longo daquele mês de outubro, ele diminuíra o intervalo entre os estupros. Ele sabia que seriam os últimos, que os policiais que estavam com seu telefone e seu computador encontrariam os vídeos. Ele sabia que quando entrasse na delegacia, no dia 2 de novembro, não sairia livre. Fui, pela última vez, o joguete de suas fantasias bárbaras".

Em um relato sensível, Gisèle descreve o momento em que decidiu tornar o julgamento público e dizer ao mundo seu verdadeiro nome, antes protegido pela justiça. A partir daí, veio também a suspeita social. Pessoas que achavam impossível que ela nunca tivesse suspeitado de nada. "Para muita gente, era insuportável aceitar a ideia de um macabro balé masculino em torno de uma cama e de uma mulher inerte. Eu não podia ser totalmente inocente".

No julgamento, foi obrigada a confrontar todos os 50 acusados que ainda tinham coragem de contestar seus atos. "Ouvia-os falando alto, unidos por uma camaradagem viril", escreve Pelicot. "Todos tinham uma coisa em comum: o ar de superioridade. Uma atitude indi­fe­rente a tudo o que se pudesse dizer ou pensar, porque, des­de sempre, a força esteve do lado deles."

A decisão de escrever o livro nasce da compreensão de que o que viveu ultrapassa o âmbito individual. "E aqui estou aos 70 anos, uma mártir, símbolo de uma nova onda feminista que mal conheço", decreta.

A história de força e resiliência, de um crime que chocou o mundo e desencadeou um debate global sobre culpa, vergonha e justiça, e ainda a história de uma família que desmoronou e de uma mulher que, como ela mesma escreve, não lutou "contra a verdade, mas contra a minha própria queda".

Mais do que reconstruir um crime, Um Hino à Vida se apresenta como testemunho e denúncia. A narrativa é direta, sem ornamentos, e ganha força justamente na simplicidade com que expõe o horror e a tentativa de reconstrução. Não se trata apenas de revisitar a violência, mas de afirmar a possibilidade de seguir vivendo.

"Com este livro, quero gravar nesse monumento o que me aconteceu depois. E dizer que já não tenho medo de ficar sozinha, que ago­ra consigo dormir no escuro, o que é uma grande vitória", confessa.

Um Hino à Vida foi publicado em 22 idiomas.

Um Hino à Vida: A Vergonha Precisa Mudar de Lado

"E aqui estou aos setenta anos, uma mártir, símbolo de uma nova onda feminista que mal conheço”, escreve Pelicot.
"E aqui estou aos setenta anos, uma mártir, símbolo de uma nova onda feminista que mal conheço”, escreve Pelicot.
Foto: Companhia das Letras/Divulgação / Estadão
  • Autoras: Gisèle Pelicot com Judith Perrignon
  • Tradução: Julia da Rosa Simões
  • Editora: Companhia das Letras (240 págs.; R$ R$ 69,90; R$ 34,90 ou e-book; R$ 27,99 o audiolivro)
Estadão
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