Gisèle Pelicot reivindica sua voz e expõe 'balé macabro masculino' em 'Um Hino à Vida'
No relato autobiográfico, a francesa que recusou o anonimato narra sua trajetória — da infância ao julgamento do marido, cujos crimes chocaram o mundo e transformaram Gisèle Pelicot em um símbolo
Gisèle Pelicot, a mulher que comoveu o mundo ao revelar um dos casos mais chocantes de violência e abuso conjugal da França, compartilha sua trajetória em Um Hino à Vida. A obra foi escrita em parceria com Judith Perrignon, romancista, jornalista e ensaísta premiada, responsável por dar forma literária ao testemunho.
Em 2024, Gisèle se tornou símbolo de coragem ao renunciar ao anonimato e enfrentar publicamente o ex-marido, Dominique Pelicot e mais 50 homens acusados de estupro coletivo.
Dominique era a cabeça de uma rede que tinha a própria esposa como principal vítima. "Lorazepam + Zolpidem. A fórmula da submissão química. 'O importante é não passar de oito gramas, senão ela pode morrer', um enfermeiro ativo na rede virtual dos perversos teria explicado a Dominique", relata Gisèle. Com seu corpo inerte, os crimes eram cometidos.
Em Um Hino à Vida, título que sintetiza a dimensão simbólica do livro, Gisèle conduz o leitor por sua história e mostra como, apesar do horror, permaneceu firme após a descoberta da violência sofrida. Enfrentou a ira dos filhos - que não compreenderam o seu jeito "pacato" de lidar com a situação -, a própria consciência, o julgamento alheio e o desafio de reconstruir a vida. "É a mim que protejo", escreve.
O livro revisita sua trajetória desde a infância até o momento em que tudo desmoronou. Uma história que passa pelas fotos do pai em uma Alemanha destruída (Gisèle nasceu em Villingen), pela morte da mãe quando ela tinha nove anos, o sofrimento do pai, o novo casamento, a madrasta insensível, o irmão que definhou na tristeza e, apesar de tudo, sua resiliência. "Eu queria ser feliz, não apenas valente, não apenas corajosa, mas feliz", afirma.
Gisèle e Dominique, "seu primeiro homem", se casaram em 4 de abril de 1973. A vida simples foi marcada por dificuldades financeiras e pela instabilidade profissional do marido. Vieram os três filhos e 50 anos de casados, até Dominique ser pego, em 2020, em um supermercado filmando por baixo da saia de outras mulheres.
A denúncia levou a polícia a investigar Pelicot e apreender o seu computador. Nos arquivos, encontraram vídeos que mostravam uma mesma mulher sendo violada diversas vezes. Gisèle. Oferecida pelo próprio marido a 83 homens. Cinquenta deles foram identificados e julgados.
"Minha cabeça gritava que não, que não era eu, que não era ele", escreve a ex-executiva de logística. A partir daí, o livro acompanha sua tentativa de reconstruir a própria memória e compreender décadas de mentiras.
É como montar um quebra-cabeça, acompanhado de uma relutância interna em aceitar como algo tão terrível pode ter acontecido com uma pessoa. Gisèle começou a entender de onde vinham suas dores na pélvis e seus apagões cada vez mais frequentes, que a fizeram visitar diversos médicos e ouvir deles e do marido que sempre a acompanhava, "que estava tudo bem".
Entre a acusação por importunação sexual e a ida à delegacia — a última vez que veria Dominique antes do julgamento — passaram-se semanas. Tempo que ele usou para intensificar os estupros. "Percebi no gabinete da juíza que, ao longo daquele mês de outubro, ele diminuíra o intervalo entre os estupros. Ele sabia que seriam os últimos, que os policiais que estavam com seu telefone e seu computador encontrariam os vídeos. Ele sabia que quando entrasse na delegacia, no dia 2 de novembro, não sairia livre. Fui, pela última vez, o joguete de suas fantasias bárbaras".
Em um relato sensível, Gisèle descreve o momento em que decidiu tornar o julgamento público e dizer ao mundo seu verdadeiro nome, antes protegido pela justiça. A partir daí, veio também a suspeita social. Pessoas que achavam impossível que ela nunca tivesse suspeitado de nada. "Para muita gente, era insuportável aceitar a ideia de um macabro balé masculino em torno de uma cama e de uma mulher inerte. Eu não podia ser totalmente inocente".
No julgamento, foi obrigada a confrontar todos os 50 acusados que ainda tinham coragem de contestar seus atos. "Ouvia-os falando alto, unidos por uma camaradagem viril", escreve Pelicot. "Todos tinham uma coisa em comum: o ar de superioridade. Uma atitude indiferente a tudo o que se pudesse dizer ou pensar, porque, desde sempre, a força esteve do lado deles."
A decisão de escrever o livro nasce da compreensão de que o que viveu ultrapassa o âmbito individual. "E aqui estou aos 70 anos, uma mártir, símbolo de uma nova onda feminista que mal conheço", decreta.
A história de força e resiliência, de um crime que chocou o mundo e desencadeou um debate global sobre culpa, vergonha e justiça, e ainda a história de uma família que desmoronou e de uma mulher que, como ela mesma escreve, não lutou "contra a verdade, mas contra a minha própria queda".
Mais do que reconstruir um crime, Um Hino à Vida se apresenta como testemunho e denúncia. A narrativa é direta, sem ornamentos, e ganha força justamente na simplicidade com que expõe o horror e a tentativa de reconstrução. Não se trata apenas de revisitar a violência, mas de afirmar a possibilidade de seguir vivendo.
"Com este livro, quero gravar nesse monumento o que me aconteceu depois. E dizer que já não tenho medo de ficar sozinha, que agora consigo dormir no escuro, o que é uma grande vitória", confessa.
Um Hino à Vida foi publicado em 22 idiomas.
Um Hino à Vida: A Vergonha Precisa Mudar de Lado
- Autoras: Gisèle Pelicot com Judith Perrignon
- Tradução: Julia da Rosa Simões
- Editora: Companhia das Letras (240 págs.; R$ R$ 69,90; R$ 34,90 ou e-book; R$ 27,99 o audiolivro)