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'Gil - Andar com Fé' faz da vida de Gilberto Gil um espetáculo de cores, música e memória

Musical estrelado por Gui Ventura e direção de Miguel Falabella transforma o legado de Gilberto Gil em experiência visual e musical

21 set 2026 - 17h45
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Resumo
Com direção de Miguel Falabella e texto de Newton Moreno, o musical "Gil - Andar com Fé", em cartaz no Teatro Santander, celebra a trajetória de Gilberto Gil. Protagonizada por Gui Ventura, a montagem parte do exílio em Londres para revisitar diferentes fases do artista. Mais do que uma biografia convencional, o espetáculo aposta em um deslumbre visual com cores, coreografias enérgicas e clássicos musicais, transformando a memória e a rica história cultural de Gil em pura experiência sensorial.

Os números de Gilberto Gil impressionam. São mais de 50 álbuns lançados, mais de seis décadas de carreira e, aos 84 anos, o artista continua levando multidões aos shows. Diante de uma trajetória tão extensa, atravessada por música, política, exílio, encontros e reinvenções, seria difícil imaginar que sua primeira biografia teatral pudesse dar conta de tudo. Gil - Andar com Fé entende essa impossibilidade e encontra outro caminho: em vez de tentar resumir uma vida inteira, recupera sua essência e transforma o legado de Gil em uma experiência de palco marcada por música, cor, movimento e um encantamento constante.

'Gil – Andar com Fé' faz da vida de Gilberto Gil um espetáculo de cores, música e memória
'Gil – Andar com Fé' faz da vida de Gilberto Gil um espetáculo de cores, música e memória
Foto: Felipe Menezes / Rolling Stone Brasil

Com texto de Newton Moreno e direção de Miguel Falabella, o musical parte do exílio em Londres, durante a ditadura militar, para revisitar diferentes momentos da trajetória do artista. A narrativa volta ao sertão de Ituaçu, na Bahia, passa por sua formação em Salvador, pelos palcos do Rio de Janeiro e de São Paulo, pela Tropicália, pela prisão, pelo retorno ao Brasil e por outras fases de uma carreira que se confunde com a própria história cultural do país. É uma jornada ambiciosa, que encontra sua maior força não necessariamente na tentativa de organizar todos esses acontecimentos, mas na maneira como transforma memória e legado em imagem, movimento e música.

A primeira parte é justamente onde esse percurso encontra mais dificuldades. Concentrada sobretudo na figura de Gil como homem exilado, a montagem apresenta acontecimentos, personagens e referências em uma sucessão que por vezes carece de organicidade. A entrada de figuras como Caetano Veloso (Henrique Zamith), Gal Costa (Pamella Machado), Maria Bethânia (Calu Manhães), Luiz Gonzaga, João Gilberto e tantos outros reforça a dimensão coletiva da trajetória de Gil, mas também faz com que o roteiro precise correr para acomodar décadas de história. Na segunda metade, porém, o espetáculo encontra um ritmo mais natural e passa a confiar mais nos encontros, nos afetos e, principalmente, nas canções para conduzir a narrativa.

É nesse movimento entre tempos que surge o Tempo-Rei (Guga Barbosa), espécie de guia da viagem e elo entre diferentes fases da vida de Gil. O recurso permite que passado e presente coexistam no palco e que o encontro entre o Gil jovem e o artista já consagrado escape da estrutura convencional de uma biografia. Gui Ventura, por sua vez, encontra uma solução particularmente interessante para interpretar o protagonista: não tenta simplesmente reproduzir Gilberto Gil. Em vez de uma imitação de trejeitos e gestos, cria o seu próprio Gil, com uma interpretação que preserva a essência do artista sem apagar a presença do ator. A escolha dá mais personalidade ao personagem e transforma a atuação em uma espécie de homenagem construída a partir da devoção, mas também da liberdade.

É preciso destacar ainda que o espetáculo sempre mantém o domínio de sua dimensão visual. A cenografia de Natália Lana, os figurinos, os jogos de luz e os diferentes elementos cênicos fazem do palco um espaço em permanente transformação. Gil - Andar com Fé abusa das cores e das luzes — no melhor sentido — e vai se tornando um verdadeiro deslumbre aos olhos. As coreografias também são fundamentais nessa construção: os artistas ocupam os espaços com uma energia que, em determinados momentos, remete a um palco circense, preenchendo cada canto e fazendo do movimento uma parte essencial da narrativa. É uma montagem que entende que, para falar de Gil, não basta reproduzir suas músicas; é preciso criar um universo que tenha a mesma liberdade, mistura e vitalidade.

E as músicas são, evidentemente, o coração dessa celebração. De "Eu Vim da Bahia" a "Andar com Fé", passando por "Aquele Abraço", "Domingo no Parque", "London, London", "Tempo-Rei", "Se Eu Quiser Falar com Deus", "Punk da Periferia", "Back in Bahia", "Palco", "Realce" e "Toda Menina Baiana", as canções aparecem ligadas a diferentes momentos da trajetória do artista e ajudam a construir um retrato que nunca cabe em uma única definição. Entre tantas faixas conhecidas, "Drão" é um dos momentos mais emocionais, justamente por trazer a dimensão íntima da relação de Gil com Sandra Gadelha. A homenagem aos filhos que o artista perdeu, Pedro e Preta Gil, também está entre os momentos mais delicados da montagem, quando a celebração abre espaço para a saudade.

No fim, Gil - Andar com Fé entende que contar a história de Gilberto Gil também significa falar de um Brasil feito de encontros, contradições, transformações e reinvenções. A montagem não se limita em organizar de maneira definitiva uma trajetória tão vasta. Seu mérito está em outra coisa: transformar esse legado em espetáculo. Cores, corpos, luzes, cenografia, coreografias e músicas se encontram para criar uma experiência que vai além da biografia e se aproxima da celebração. É quando Gil - Andar com Fé deixa de tentar explicar quem foi Gil e simplesmente permite que o público sinta a dimensão de sua obra e de sua pessoa.

Serviço

Local: Teatro Santander

Endereço: Avenida Presidente Juscelino Kubitschek, 2041 - Complexo JK Iguatemi - São Paulo

Sessões: quintas e sextas, às 20h; sábados, às 16h e 20h; domingos, às 15h e 19h

Duração: 2h20, mais intervalo de 15 minutos

Classificação etária: 12 anos

Acessibilidade: todas as sessões possuem audiodescrição e Libras.

Rolling Stone Brasil Rolling Stone Brasil
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