Relembre as principais mortes da primeira década do século 21
- WILLIAM McDONALD
Se suas mortes aconteceram na primeira década do século 21, suas vidas ajudaram a definir o século 20. Eles lideraram nações, produziram obras primas, ampliaram as fronteiras da ciência e divertiram. E fizeram isso naquela época aparentemente distante em que os anos começavam com 19.
Em vida, nós os chamávamos de famosos, reconhecidos, celebrados; suas mortes chamamos de notáveis, pois seus nomes ficarão registrados. Eles povoam nossa memória coletiva. Alguns - aqueles que destroem ao invés de construir -, gostaríamos de esquecer. Mas a maioria nos faz parar, pensar o passado e compreender o que o mundo perdeu.
É provavelmente adequado o fato de serem atores aqueles que melhor representam um século. Escutar os nomes das estrelas de antigamente que se foram desde 2000 (sim, oficialmente o último ano do século passado) é receber a confirmação final, se uma fosse necessária, de que uma era - particularmente uma do tipo que, em retrospecto, tendemos a banhar em ouro - verdadeiramente terminou. Pensar em Katharine Hepburn, Paul Newman, Gregory Peck, Alec Guinness, John Gielgud, Loretta Young, Jack Lemmon, Jennifer Jones, Jason Robards, Charlton Heston, Van Johnson, Glenn Ford, Deborah Kerr e Marlon Brando é, de fato, se lembrar de um mundo muito diferente.
Em grande parte, eles foram, é claro, a realeza da tela do cinema. Homens e mulheres que ficavam distantes de nós, brilhando de um lugar mítico chamado Hollywood. Suas mortes carregaram um elemento de grandeza.
Um senso mais imediato de perda pareceu acompanhar as mortes daqueles que se tornaram rostos cotidianos, que olhavam para câmeras de televisão e entravam em nossos lares, seja para nos informar (Walter Cronkite, David Brinkley, Peter Jennings, Tim Russert), ou para nos divertir (Johnny Carson, Ed McMahon, Milton Berle, Steve Allen, Julia Child, Jack Paar, Bea Arthur, Merv Griffin e Fred Rogers, que sempre será Mr. Roger).
Vimos vestígios da era do Vietnã serem enterrados em outra que chamamos pós-11 de setembro. Robert McNamara, Walt Rostow, general William Westmoreland, Eugene McCarthy, Nguyen van Thieu. Remanescentes dos anos Kennedy, como Pierre Salinger e o historiador Arthur Schlesinger, também entraram para a história, assim como o último dos irmãos Kennedy, Edward, e duas das irmãs, Patricia Kennedy Lawford e Eunice Kennedy Shriver. Lady Bird Johnson morreu (onde mais?) no Texas.
Houve ecos de segregação e integração nas mortes de Rosa Parks, Lester Maddox e Coretta Scott King.
Houve os envolvidos no drama de Watergate: W. Mark Felt, também conhecido como Garganta Profunda; Rosemary Woods, L. Patrick Gray e os advogados Archibald Cox e Samuel Dash, que morreram no mesmo dia. E houve aqueles que subiram depois de Watergate, como Gerald Ford.
A morte de Ronald Reagan acenou para memórias de uma ascensão republicana e o crepúsculo da Guerra Fria. O assassinato de Benazir Bhutto mostrou o alvorecer de uma era perigosa.
Outras mortes remetem a um palco mundial diferente, ocupado por outros personagens, embora muitos roteiros ainda soem familiares. Para o bem ou para o mal, nós nos lembramos de Hafez Assad, Idi Amin, Pierre Trudeau, Kim Dae-jung, Augusto Pinochet, Boris Yeltsin, Suharto, Yasser Arafat, Saddam Hussein e Corazón Aquino.
Ainda não se sabe até que ponto a história vai se lembrar deles, mas há poucas dúvidas de que ela vai reservar um lugar para João Paulo 2º, o papa polonês que não via fronteiras.
Os salões do Congresso americano - outro grande palco - perderam uma multidão de celebridades, lutas e debates, a maioria resolvida há muito tempo, mas nem sempre; uma causa ou duas permanecem entre aqueles que ficaram. Houve Ted Kennedy, é claro, mas também Daniel Patrick Moynihan, Mike Mansfield, Strom Thurmond, Jesse Helms, Lloyd Bentsen e Claiborne Pell.
Do outro lado da rua, em outro cenário de mármore, Byron White e William Rehnquist serão lembrados.
As perdas na literatura foram canônicas: Saul Bellow, Alexander Solzhenitsyn, John Updike, Norman Mailer, Eudora Welty e os prêmios Nobel Naguib Mahfouz e Czeslaw Milosz. Autores difundidos e apaixonantes como Ken Kesey, Kurt Vonnegut e Arthur C. Clarke morreram, e também escritores prolíficos e imensamente populares como Michael Crichton, Sidney Sheldon e Robert Ludlum.
As luzes do teatro se apagaram para Arthur Miller, Harold Pinter e August Wilson, sem mencionar Wendy Wassertein, Horton Foote, David Merrick e a dupla Betty Comden e Adolph Green.
Vozes foram caladas. Algumas, com suas canetas, moldaram o discurso nacional sobre política e cultura, não importando se suas cores políticas inclinavam para a esquerda ou para a direita. Nós nos lembraremos de Susan Sontag, Irving Kristol, Betty Friedan, Jane Jacobs, Pauline Kael e William F. Buckley Jr.
Outras foram declamadas da tribuna, seja evitando a política, como Oral Roberts, ou batendo de frente com ela, como Jerry Falwell.
Sem falar nas vozes e intérpretes que nos deram música, definidoras de seu tempo, mas também atemporais. O mundo conseguiu seguir em frente, de alguma forma, sem James Brown, Johnny Cash, Beverly Sills, Bo Diddley, Peggy Lee, Ray Charles, Nina Simone, Rosemary Clooney, Lionel Hampton, Luciano Pavarotti, Les Paul, Eartha Kitt, Tito Puente, Artie Shaw, Isaac Stern, Waylon Jennings, Celia Cruz, Perry Como, Mstislav Rostropovich e Johnny, Joey e Dee Dee Ramone.
E então, sobraram apenas dois Beatles, com a morte precoce demais de George Harrison.
Esses nomes, demais para estarem todos aqui, se tornaram a batida de um século que se afasta. O mundo da arte perdeu Robert Rauschenberg, Balthus, Larry Rivers, Andrew Wyeth e Tyeb Mehta; na arquitetura, Philip Johnson; na dança, Merce Cunningham. Uma legião dos que elevaram a fotografia - Henri Cartier-Bresson, Richard Avedon, Yousuf Karsh, Arnold Newman, Gordon Parks, Helen Levitt, Irving Penn - parece ter morrido em massa.
Dois velhos mestres do cinema, Ingmar Bergman e Michelangelo Antonioni, morreram assustadoramente no mesmo dia. Eles foram precedidos por colegas que literalmente captaram décadas: Billy Wilder, Robert Altman, Elia Kazan e Stanley Kramer. E depois: Sydney Pollack e John Hughes, o cineasta que compreendia o mal-estar do adolescente dos anos 1980.
Não haverá mais a cortesia do alívio cômico de Bob Hope, Rodney Dangerfield, Richard Pryor ou George Carlin, embora suas alfinetadas na pretensão e na piedade sem dúvida irão persistir e provocar a última risada.
Ted Willians, The Splendid Splinter, também partiu para sempre. Assim como Johnny Unitas, levando com ele seu corte de cabelo, febre nos anos 1960, e seu instrumento de precisão em forma de braço. Imagens com uniformes de listras, capacetes de couro e ringues de boxe envoltos em fumaça foram trazidas de volta com as notícias: Phil Rizzuto, Otto Graham, Floyd Patterson. Um charuto de vitória em outro campeonato com os Celtics: Red Auerbach. Um chapéu de palha no Masters: Sam Snead.
Mais nomes saíram das páginas de esportes: Willie Shoemaker, Warren Spahn, Althea Gibson, Sammy Baugh, Kirby Puckett, Max Schmeling, Dale Earnhardt.
Ou das páginas de quadrinhos: Charles M. Schulz.
Na terra da televisão, uma dupla de desenhistas morreu em ordem conhecida, primeiro (William) Hanna e depois (Joseph) Barbera. No reino mais corrosivo da caricatura, tivemos Al Hirschfeld e David Levine.
E vamos agora saudar os estilistas e aqueles que os ajudaram: Yves Saint Laurent, Bill Blass e Liz Claiborne, cujas grifes, pelo menos, continuam.
Houve ainda aqueles que nos colocaram em contato não com o visual, mas com o conceitual, pensadores que mudaram nossa compreensão do mundo: um dos pais da era nuclear, Edward Teller; os economistas John Kenneth Galbraith, Milton Friedman e Paul Samuelson; o antropólogo Claude Lévi-Strauss; o geneticista Francis Crick; a psiquiatra Elisabeth Kübler-Ross; e o agrônomo Norman Borlaug, cujo legado foram os milhões que não morreram, porque ele os alimentou.
Outros dois - Michael DeBakey e Christiaan Barnard - salvaram vidas de outras formas, mostrando que um coração não pode ser reparado, mas pode ser substituído. Algumas mortes chocaram por sua brusquidão, precocidade e roubo de promessa: Heath Ledger, Natasha Richardson, David Foster Wallace, a jovem estrela do pop em ascensão Aaliyah.
E houve a estrela cadente de Michael Jackson, cuja morte se tornou um evento global, encobrindo em questão de horas a esperada, mas ainda assim triste, morte de Farrah Fawcett, cujos admiradores sentiram que ela havia levado um duplo golpe ao morrer no dia em que os rostos se voltavam para outra direção.
Seu luto foi real e isso não deve ser surpresa. Os famosos podem ser gente que nunca vimos, mas suas mortes podem parecer pessoais; os capítulos que eles significam não são apenas históricos. Suas mortes, de uma maneira fugaz, nos compelem a avaliar aquilo que deixamos escapar em nossas próprias vidas. Elas nos lembram de nossa própria passagem através das décadas que eles, estranhos familiares, ajudaram a criar. Eles nos lembram do tempo que nós, como eles, nunca poderemos recuperar. Eles nos lembram, por assim dizer, de nossa própria brevidade.