Quem já sentiu a vergonha e o medo de ser apontado na rua sabe o que viveu o ator que interpreta Mau Mau
Situação com João Victor Gonçalves ocorre todos os dias com milhares de anônimos; e nem sempre o homossexual volta vivo para casa
Quem já sentiu o constrangimento e o temor de ser apontado na rua por ser gay sabe o peso daquela sensação descrita por James Baldwin em 'O Quarto de Giovanni': a de que o olhar de um desconhecido diz, sem nenhuma palavra, “eu sei quem você é”.
Mais que isso: “eu não gosto do que você é”.
Na saída do Rock in Rio, o ator João Victor Gonçalves, que interpreta em 'Quem Ama Cuida' o florista Mau Mau, um jovem homossexual vivendo o primeiro amor, foi cercado por um streamer que, durante uma transmissão ao vivo, ironizou a roupa e o jeito de andar do artista.
Pressionado pela repercussão na imprensa e nas redes sociais, com pedidos de denúncia formal à polícia por homofobia e de expulsão da plataforma onde monetiza, o criador de conteúdo publicou um vídeo para se explicar.
Disse que estava apenas fazendo “entretenimento”.
Para esse perfil de gente, gays merecem isso: o deboche e a superexposição.
No mundo atual, tirar sarro de um rapaz sozinho, em um lugar ermo, virou diversão com potencial de render “likes” e uns dólares a mais na conta.
Na ficção da TV, Mau Mau enfrenta as implicâncias preconceituosas do avô, Otoniel (Tony Ramos).
Na vida real, o ator que o interpreta conheceu a homofobia recreativa. Coube a ele baixar a cabeça e fugir de uma situação ameaçadora.
Não apanhou nem foi morto, como acontece com tanta frequência com gays anônimos, mas sentiu na pele o desconforto imposto por quem se acha no direito de julgá-lo por ser quem é.
“Por que eles nos agridem? Qual é a nossa culpa?”, perguntou o dramaturgo Tennessee Williams em seu diário, após sofrer uma agressão homofóbica, em 1943.
Mais de 80 anos depois, pouco mudou.
A sociedade não pode permitir que a discriminação vire produto digital e a crueldade ganhe plateia e recompensa.
Caso contrário, a humanidade vai acelerar o passo rumo à já perceptível espetacularização da barbárie.
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