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Biografia de Dercy Gonçalves revela fuga emocional em jogos de azar: 'Só pessoas sofridas jogam'

De acordo com livro, mesmo milionária, a comediante não se sentia orgulhosa de si e gastava dinheiro e tempo em jogatinas

2 jul 2026 - 14h26
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Dercy Gonçalves (1907-2008), uma das grandes comediantes brasileiras, é tema de uma nova biografia, Dercy - a diva debochada, escrita pela jornalista Adriana Negreiros. O livro discorre, em ordem cronológica, a vida e a carreira da atriz que começou sua trajetória se apresentando em circo, foi nome fundamental no teatro e no cinema brasileiros e fez fama em novelas, minisséries e programas de televisão, até chegar à internet, onde, até hoje, vez ou outra, vira meme.

Em mais de 300 páginas, Negreiros vai fundo em questões existenciais da atriz para mostrá-la além (como indica o título do livro) da comediante debochada e descocada, características que marcaram seu nome.

A questão sobre como Dercy lidava com sua vida pessoal e profissional é relatada sobretudo no capítulo chamado 'Sua filha da p...vou te espetar todinha', que contempla o período entre 1957 e 1960, fase em que a atriz experimentou grande sucesso artístico.

Nesse capítulo, a autora conta que Dercy costumava visitar o ator e diretor Homero Kossac às madrugadas, sempre de surpresa. O amigo árabe servia porções de quibe à atriz. Dercy, segundo o livro, comia com as mãos mesmo, dispensando os talheres. Só tomava o cuidado de amarrar um lenço na cabeça para não sujar os cabelos. "Homero pensava que, os que a vissem daquela maneira, sem saber de quem se tratava, jamais diriam estar diante de uma milionária", diz trecho da biografia.

O livro ainda aponta que, junto a Kossac, "Dercy se permitia agir como Dolores", seu nome de batismo. O conflito entre a mulher Dolores e a atriz Dercy era discutido em sessões de psicanálise.

A atriz Dercy Gonçalves é retratada em nova biografia
A atriz Dercy Gonçalves é retratada em nova biografia
Foto: Jonas Cunha/Estadão / Estadão

"Para existir, Dolores precisava de Dercy — uma figura 'desbocada, arruaceira', que 'não leva desaforo para casa, é chamativa e topa qualquer parada', como viria a reconhecer. 'De um certo modo, a Dolores inveja a Dercy', diria. Dercy, por sua vez, 'esmagava Dolores'", relata o livro, sobre uma das conclusões surgidas na terapia.

Azar no amor, sorte no jogo

Apesar de ter sido casada e do bom relacionamento com a filha, Decimar, e netos, Dercy sempre viveu momentos de baixa em sua vida amorosa, o que lhe trazia certa melancolia. Um dos maridos, o empresário Danilo Bastos, ela pegou em uma traição em um hotel de São Paulo. Acompanhada por um detetive particular no momento do flagra, Dercy apontou um revólver sem balas em direção ao marido e à amante. Foi o fim do casamento.

Em uma entrevista à revista Manchete, reproduzida na biografia, a comediante afirmava estar conformada em não viver um grande amor. "Não me sinto amada", ela disse. Afirmava ainda não se orgulhar em ver seu nome em letreiros de TV e do teatro. "É uma pena, porque antigamente eu ficava doida para ver o meu retrato nos jornais. E tive que enfrentar cada coisa para conseguir isso!".

Dercy associava essa frustração à questão de seu vício em jogos, que a acompanhou até o fim da vida, quando ela era frequentadora assídua das casas de bingo. "O jogo é um refúgio formidável para as pessoas sofridas. Só as pessoas sofridas é que jogam. É a solidão", ela definiu.

A capa da nova biografia de Dercy Gonçalves, de Adriana Negreiros
A capa da nova biografia de Dercy Gonçalves, de Adriana Negreiros
Foto: Objetiva/Divulgação / Estadão
  • Dercy - A Diva Debochada
  • Adriana Negreiros
  • Editora Objetiva (304 páginas; R$ 79,90)
Estadão
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