Atriz que se diz “cancelada” na Globo por ser de esquerda fará novela para a China
Lucélia Santos ganha matéria no norte-americano ‘Hollywood Reporter’ 50 anos depois do fenômeno ‘Escrava Isaura'
Se a Globo não te quer, vá para o outro lado do mundo. Literalmente.
Lucélia Santos aterrissou em Xangai, na China, para participar como convidada especial de dois eventos: o Festival Internacional de Cinema e o Mercado Internacional de Cinema e TV.
Aproveitou para se encontrar com a ex-presidente Dilma Rousseff, hoje no comando do Banco dos BRICS, cuja sede fica na metrópole de 26 milhões de moradores.
No vasto território chinês, a atriz paulista é uma celebridade cultuada desde 1984, quando foi exibida pela primeira vez a novela ‘Escrava Isaura’, da Globo.
Lucélia protagonizou o folhetim sobre os horrores da escravização de negros trazidos da África, exibido originalmente no Brasil em 1976.
No próximo ano, a ligação da artista com a China ficará ainda maior: irá estrelar uma novela vertical criada especialmente para os telespectadores asiáticos e terá dois filmes lançados nos cinemas locais.
Neste mês de junho, o jornal digital ‘Hollywood Reporter’, dos Estados Unidos, publicou uma matéria sobre a trajetória bem-sucedida da atriz na nação comunista.
Portas fechadas
Amada por milhões de chineses, Lucélia Santos não consegue trabalho na teledramaturgia da Globo desde 2001, quando fez ‘Malhação’.
Há dois anos, em entrevista à jornalista Hildegard Angel, ela lamentou ter sido “congelada e cancelada” no canal onde fez tanto sucesso.
Acredita que a causa seja o longo ativismo político à esquerda, desde os tempos de ‘Escrava Isaura’, quando já era envolvida com grupos em prol da reforma agrária e da preservação das florestas.
“Não há problema em ser militante e ter opiniões. O problema é quando o outro lado é muito conservador e começa a fazer uma série de bloqueios”, argumentou.
“Não poderiam ter feito isso comigo.”
Após ‘Escrava Isaura’, ela fez outras novelas de grande audiência, como ‘Locomotivas’ (1977), ‘Feijão Maravilha’ (1979), ‘Água Viva’ (1980), ‘Vereda Tropical’ (1984) e ‘Sinhá Moça’ (1986).
Ironicamente, o início da escassez de convites da Globo coincidiu com o fim da ditadura militar. Lucélia foi trabalhar em produções da extinta TV Manchete e do SBT. Atuou também em emissora de Portugal.
Sem glamour
Na conversa com o ‘Hollywood Reporter’, a atriz, de 69 anos, comentou a opção por um estilo de vida simples. Ela já foi flagrada algumas vezes usando o transporte público no Rio, onde mora.
“É muito difícil para mim ser levada pelas fantasias de ser uma superestrela”, disse. “Sou pé no chão… Faço as tarefas domésticas na minha casa.”
Mãe do ator Pedro Neschling e avó de uma menina, Lucélia Santos se divide entre projetos para cinema e teatro e as atividades em defesa do meio ambiente, da população indígena e contra a corrupção na política.
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