'A pior coisa de envelhecer é perder pessoas': Maria Ribeiro encara o tempo em audiossérie íntima
Em entrevista ao 'Estadão', escritora e atriz revela como transforma o choque dos 50 anos em diálogo sobre envelhecimento, liberdade e luto
Ao ouvir da médica a frase "é da idade" durante um exame de rotina, Maria Ribeiro não recebeu apenas um diagnóstico clínico. Recebeu um choque existencial. Aquela expressão — tantas vezes usada com naturalidade para explicar comportamentos da infância, da adolescência ou pequenas mudanças do corpo — ganhou outro peso ao ser dita quando ela se aproximava dos 50 anos. A partir desse momento, nasceu Deve Ser da Idade, audiossérie original da Audible que acaba de estrear e marca um dos relatos mais íntimos da trajetória da atriz, escritora, documentarista e comunicadora.
Essa tensão entre perda e conquista atravessa toda a série. No áudio, Maria encontra um espaço que não caberia na imagem. "Essa série, de fato, é muito íntima. Eu não seria capaz de fazer uma autobiografia com uma câmera, não estou preparada", afirma. "O fato de ser voz me permitiu falar coisas muito íntimas que eu não falaria com uma câmera."
O processo de gravação não foi indolor. Ao revisitar a própria trajetória, Maria se deparou com memórias que ainda ecoam no presente. "Eu fui mapeando a minha vida pra tentar entender onde doeu, onde marcou", conta. "Eu nunca imaginei que eu ainda pudesse descobrir coisas sobre a minha infância que obviamente têm consequências em quem eu sou hoje."
O tempo, sem garantias
O tempo, tema recorrente em sua obra desde os 25 anos, surge agora como algo a ser compreendido ou, ao menos, respeitado. "A história de todo mundo é muito pessoal, mas muito parecida. Nas coisas essenciais todo mundo sofre de amor, de rejeição, de dúvidas, traumas e dores. É por isso que quanto mais a gente é pessoal - e tem coragem de ser pessoal -, mais universal a gente é", reflete.
A consciência da finitude aparece sem rodeios. "Não temos garantia, podemos morrer amanhã", diz. Ainda assim, há um deslocamento claro de prioridades. "Hoje em dia eu fico feliz com coisas cada vez mais simples. Quero fazer as coisas certas quando ninguém está olhando, ser gentil com as pessoas e deixar alguma coisa para o mundo. Não quero mais perder tempo fazendo nada para agradar ninguém, ou fazendo tanta concessão."
Quando fala sobre envelhecimento e gênero, Maria mantém o tom firme que marca sua atuação pública. "Estamos melhorando, mas ainda falta muito", avalia. "A misoginia tinha que ser crime. O corpo da mulher é o corpo de todo mundo, não temos direito a ele, é de todo mundo", lamenta.
Entre os medos que se intensificaram com o passar dos anos, um se destaca acima dos demais. "Uma das piores coisas é perder pessoas. E você começa a perder muita gente", diz.
A lembrança de amigos próximos, como Domingos Oliveira e Fernanda Young, atravessa sua fala com peso. "Foram pessoas muito importantes para mim, eram pessoas que mudavam o meu dia a dia. A Fernanda foi um susto muito grande, ela tinha 49 anos na época."
Ao final de cada episódio da série, um convidado responde qual foi o melhor ano da própria vida. Para Maria, essa resposta não está na juventude idealizada, mas nos 30 anos, uma fase de ruptura e reconstrução. "Foi uma idade muito boa", diz.
"Me separei do meu primeiro marido, o que foi difícil. Eu tenho muita dificuldade de separar. Já tinha filho, que era uma coisa que sempre quis ter. Já estava fazendo análise. Acho que consegui mais ou menos começar a saber quem eu era, porque até então fui feita pra ser a obra dos meus pais, e aos 30 sinto que me liberto de alguma forma dos meus pais, no bom sentido, e passo a viver a vida que acredito que eu quero."
Maria Ribeiro ainda alerta que Deve Ser da Idade não oferece respostas fáceis nem conselhos de autoajuda. Em vez disso, propõe escuta, identificação e honestidade radical. Ao colocar sua voz tão perto do ouvinte, ela transforma o que poderia ser apenas mais um relato pessoal em uma conversa franca sobre o que significa seguir vivendo quando o tempo deixa de ser uma abstração e passa a ser um dado concreto do corpo e da memória.