Feira do Livro de Bolonha: Brasileiro participará da programação focada no segmento de áudio
André Calgaro é o segundo brasileiro a participar do Fórum realizado pela Feira; evento ocorre no dia 15 de abril
A Feira do Livro Infantil de Bolonha, maior e mais tradicional evento do mercado editorial voltado à literatura para crianças e que ocorre em abril (de 13 a 16), terá pela segunda vez, participação brasileira na programação do Audio Forum. O encontro faz parte do BolognaBookPlus, espaço dedicado à edição geral, não apenas infantil.
André Calgaro, pesquisador do universo do áudio digital e dono da Narratix e do selo editorial de áudio Narrakids estará no evento italiano pela primeira vez para falar sobre como o áudio pode ser uma ponte para leitores relutantes. Ele divide o painel com representantes da Audible, Macmillan e da Associação Italiana de Editores (AIE), no dia 15 de abril.
Em sua quarta edição, o Fórum também terá representantes de players globais e grupos editoriais internacionais relacionados ao mercado do áudio como Bookwire, ElevenLabs e Spotify. O evento tem curadoria de Nathan Hull, diretor de estratégia da Beat Technology, empresa norueguesa especializada na criação de plataformas de assinatura e varejo para a indústria editorial.
"O fórum conta com a representação de mais de uma dezena de países e, com o forte crescimento do mercado de audiolivros no Brasil, é sempre crucial que o país esteja representado", diz Nathan. "Estou ansioso para ouvir a experiência e os insights que André trará, tanto como produtor quanto como especialista no mercado brasileiro em geral".
Para Calgaro, participar do evento será uma oportunidade estratégica. "Será minha colaboração para posicionar o Brasil não apenas como coadjuvante nesse mercado, mas como um país que participa das articulações e debates, considerando o vasto potencial do formato por aqui", avalia.
O audiolivro no Brasil
Segundo a última edição da Pesquisa Conteúdo Digital do Setor Editorial Brasileiro, uma parceria entre a Câmara Brasileira do Livro (CBL) e o Sindicato Nacional de Editores de Livros (SNEL), com apuração da Nielsen BookData, o faturamento das editoras com conteúdo digital - e-books e audiolivros -, em 2024, apresentou alta nominal de 21,6% (com R$ 412,5 milhões faturados). Os e-books representam 91% da produção, enquanto os audiolivros, 9%.
Pode parecer pouco, mas vale lembrar que a Pesquisa tem apenas seis anos (com a próxima edição prevista para sair em maio) e que apenas em 2023 a Audible, grande player do setor, entrou oficialmente no mercado brasileiro.
Em comparação com 2023, o crescimento do modelo por assinatura com áudio representou 39% do faturamento do digital.
"Acredito firmemente que o português é uma das línguas mais promissoras no universo dos audiolivros", analisa Nathan. "A oportunidade comercial para editoras e autores é enorme. Além disso, acredito sinceramente que o áudio pode ser a ponte para alcançar leitores relutantes no Brasil, assim como acontece em outros mercados".
Apostando nesse crescimento, as editoras vêm apostando cada vez mais na conversão dos seus catálogos. "A gente tem um indício nos bastidores de que editoras estão produzindo e convertendo o seu catálogo em áudio. Então, de uma forma mais ampla, eu vejo a gente chegando mais próximo de um momento em que o áudio é mais relevante por aqui", avaliou Samuel Coto, diretor editorial da HarperCollins Brasil nas suas previsões para o mercado editorial brasileiro em 2026.
"Hoje temos aqui algumas plataformas muito fortes, como Audible e Skeelo, investindo robustamente, além de um contínuo aumento de interesse das editoras na produção", completa Calgaro.
No geral, o mercado global de audiolivros movimenta algo entre 7 e 8 bilhões de dólares por ano e deve crescer cerca de 25% ao ano entre 2022 e 2032, segundo relatório elaborado pela Dosdoce, plataforma especializada em tendências da economia digital, a pedido da Feira do Livro de Frankfurt.
"É, de longe, o segmento que mais cresce na indústria do livro atualmente", lembra André. "Portanto, não estamos falando de um formato que é mera promessa ou modismo. É fundamental que o mercado editorial brasileiro se envolva nas discussões, acompanhe as mudanças (que têm sido muitas e rápidas), atuando menos como observador e mais como participante".
Além disso, o Brasil é um dos líderes mundiais no consumo de podcasts, o que é visto por profissionais da área como um terreno bastante propício para um desenvolvimento amplo do formato. Segundo a Dosdoce, o Brasil tem quase 400 empresas que apostam no desenvolvimento da indústria de áudio. Nos últimos anos, até 2024, foram criados mais de 250 mil podcasts e cerca de 10 mil livros em português.
Rapidamente o mercado de áudio tem passado por transformações com novas empresas surgindo, diferentes modelos de distribuição e comercialização, uso crescente de inteligência artificial em processos de produção e novas formas de integração entre livro físico, e-book e audiolivro.
"Há espaço para crescer ainda mais, ajustando um polinômio que envolve formação de público ouvinte, aumento de catálogo, expansão de meios e modelos para se ouvir o conteúdo e, claro, uma monetização saudável que permita às empresas continuarem reinvestindo", enumera o CEO da Narratix.
O áudio como ponte para leitores relutantes
No painel em Bolonha, que ocorre no dia 15 de abril, Calgaro pretende dar um contexto sobre o mercado brasileiro e mostrar o potencial do país no segmento do áudio.
A última edição da pesquisa Retratos da Leitura, ano passado, mostrou que mais da metade dos brasileiros se definiu como não-leitor. "Para o nosso país, essa é uma discussão ainda mais urgente e diferente da que se daria, por exemplo, na Noruega, em que cerca de 40% da população lê mais que 10 livros por ano", contextualiza André.
Para o profissional, existe tanto a necessidade de formação de novos leitores quanto de recuperação de leitores que se afastaram dos livros pela competição com redes sociais e outras formas de consumo digital e é ai que entra o áudio. "Os audiolivros são uma alternativa das mais notáveis para equacionar esses desafios. Por permitir a escuta simultânea com outra atividade e/ou em movimento, possibilita sua inclusão no frenesi da rotina e reaproxima as pessoas do universo dos livros, de conteúdos mais profundos e de longa duração", analisa.
O Audio Forum também vai discutir assuntos como o crescimento do Spotify e a visão sobre a abordagem da plataforma para o crescimento do áudio; como a inovação está mudando os hábitos de consumo; e como mercados novos e maduros têm ouvidos e necessidades diferentes.
Audio Forum 2026 - na Feira do Livro Infantil de Bolonha
- Data: 15 de abril
- Local: BolognaBookPlus Theatre
- Horário: 14h (horário de Bolonha)
Painel: Como alcançar leitores relutantes por meio de audiolivros
- Horário: 15h40 (horário de Bolonha)
- Participação: André Calgaro, Narratix (Brasil) | Barbara Knabe, Audible (Chefe de Aquisição de Conteúdo (UE e América Latina) | Bruno Giancarlio, AIE (Associação Italiana de Editores) | Becca Souster, Macmillan (Reino Unido) | Mediação: Ed Nawotka, Publishers Weekly