Exposição sensorial no MIS leva visitante a reflexão pessoal a partir do pensamento de Jung
Nova atração do Museu da Imagem e do Som faz uso de instalações artísticas e elementos visuais e interativos para introduzir o visitante aos conceitos do psiquiatra suíço que fundou a Psicologia Analítica; veja vídeo
Um dos espaços da exposição A Alma Humana, Você e o Universo de Jung, que abre nesta quinta, 20, no MIS (Museu da Imagem e do Som), tem as paredes cobertas de máscaras de gesso. Ali, três cadeiras vermelhas estão posicionadas diante de três espelhos, cada um contendo uma frase do psiquiatra suíço Carl Gustav Jung (1875-1961):
"Quem caminha em direção a si mesmo corre o risco do encontro consigo mesmo";
"O espelho não lisonjeia, mostrando fielmente o que quer que nele se olhe";
"O espelho está por detrás da máscara e mostra a face verdadeira".
É um convite à reflexão sobre si mesmo, conduzido pelas ideias de um pensador que faz parte do cânone da psicologia. Nesta sala, por exemplo, a mostra usa o espaço artístico e sensorial para introduzir o conceito de persona, a "máscara social" que um indivíduo cria para se apresentar à sociedade.
Essa é a ideia de toda a exposição, que ocupa 550 metros quadrados do primeiro andar do MIS e usa diferentes elementos - entre instalações, fotografias, esculturas e outras obras- e estímulos sensoriais - como vídeos, sons e espaços interativos - para conduzir o visitante pelas teorias de Jung. Em 2025, comemora-se 150 anos desde o nascimento do pensador.
"Normalmente, se conta a história dos pensadores, o que é maravilhoso. Mas essa exposição tem uma dimensão muito simbólica. Mais do que contar a história de Jung, queremos colocar o visitante dentro do conceito e da cosmovisão junguiana", diz Luciana Branco, fundadora do hub criativo de comunicação Em Branco e idealizadora da exposição.
A ideia nasceu de forma inusitada: Luciana diz que estava no final de uma prática de yoga quando a exposição surgiu em sua mente. Era uma imagem muito real e, naquele instante, ela sabia que o projeto tinha de acontecer. Foi para casa e começou a pesquisar, certificando-se de que nada parecido havia sido feito antes.
Luciana então conversou com André Sturm, diretor-geral do MIS, que logo abraçou o projeto. "Eu realmente vi que a exposição cabia no MIS, porque [o Jung] fala sobre a interpretação dos sonhos, das mandalas, do inconsciente coletivo, o que nos permitiria usar os recursos da imagem e do som para falar sobre isso e fazer o que a gente gosta aqui, que são exposições sensoriais."
O próximo passo foi buscar quem mais entendia do assunto: Waldemar e Simone Magaldi, fundadores do Ijep (Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa). A instituição se dedica há quatro décadas a estudar e disseminar a obra do pensador. Eles integram a curadoria da exposição. O projeto também contou com Flavio Vieira e Camila Whitaker e produção executiva de Naiclê Leônidas.
Waldemar explica que a construção do percurso da exposição foi inspirada pelo próprio percurso de autoconhecimento de Jung. "Fazendo com que as pessoas que vão visitar a exposição se contagiem com o que contagiou Jung e contagiou a nós, que somos disseminadores dessa obra", diz.
Provocações e reflexões
Segundo o MIS, a exposição é guiada por três esferas. A primeira delas é a pedagógica, a partir de textos que explicam de maneira didática os conceitos de Jung. O pensador é responsável por alguns dos termos mais importantes do estudo da psique humana e que são usados com frequência no senso comum: introvertido, extrovertido, complexo, persona e arquétipos, por exemplo.
A segunda esfera é a sensorial, que busca provocar diferentes sensações no espectador. Por fim, a provocativa: cada um dos espaços apresenta uma questão ao público, com o objetivo de fazê-lo refletir sobre seus comportamentos e sua visão de mundo por meio dos conceitos apresentados.
A primeira provocação já vem na entrada: "Do que tanto você tenta fugir quando se distrai?", questiona a frase colada na escadaria que dá início à mostra. Lambe-lambes com citações de grandes pensadores tomam as paredes, que cercam uma instalação que retrata uma pessoa em situação de rua.
O ponto de partida são os sintomas, apresentados em uma sala repleta de espelhos redondos, que dão em uma máquina de vendas com "soluções" em garrafas. Nos rótulos, "drogas", "álcool sem medida", "compulsão alimentar", "feed infinito nas telas" e por aí vai. Acima, uma frase emblemática de Tom Zé: "Ao persistirem os médicos, os sintomas devem ser consultados."
O visitante então percorre um espaço que apresenta o conceito de inconsciente coletivo, talvez a maior contribuição de Jung para a psicanálise. O psiquiatra acreditava que essa era a camada mais profunda da psique humana e que todos nascemos com conhecimentos, saberes e padrões de comportamentos ancestrais, construído ao longo da história da humanidade.
Ali, a voz do pensador, recriada em português a partir de inteligência artificial, é tocada de fundo. As falas foram extraídas de obras originais de Jung. Os estímulos sonoros acompanham cada etapa da exposição, a partir de uma trilha ambiente e de narrações que necessitam de foco e atenção para serem compreendidas.
Mais conceitos aparecem em seguida, como arquétipos e mitos, com obras das artistas brasileiras Moara Tupinambá e Tania Sassioto. Já na instalação Sonhos, a curadoria buscou depoimentos de conhecedores da obra junguiana e de outros grandes pensadores do Brasil, como Sueli Carneiro e Ailton Krenak.
Outra grande figura brasileira que aparece em destaque na exposição é a médica e psiquiatra brasileira Nise da Silveira (1905-1999). Uma parede que explica o conceito de Expressões Simbólicas apresenta uma troca de cartas entre ela e Jung no ano de 1954, que culminou em um convite para que Nise participasse do Congresso Internacional de Psiquiatria em Zurique, em 1957.
A psiquiatra foi grande divulgadora da psicologia junguiana no Brasil, movimentou pesquisas e publicou livros sobre o suíço. Ela foi revolucionária no tratamento mais humanizado de pacientes com doenças psíquicas, algo do qual Jung também foi grande defensor.
Os espaços interativos são importantes dentro da mostra. Um deles apresenta o teste de associação de palavras, ferramenta da psicologia criada por Jung que pode auxiliar na avaliação do estado emocional de um paciente. O visitante pode fazer o seu próprio teste em um tablet que apresenta 15 palavras e o espectador deve escrever, em poucos segundos, quais associações faz a partir delas.
Já em uma parede batizada de Sonhografia, o público pode usar fones de ouvido para escutar uma sequência de sonhos do próprio Jung e seus possíveis significados, elaborados pelo analista junguiano José Balestrini.
O caminho da exposição não é necessariamente linear, permitindo que o espectador transite entre os diferentes espaços, onde ainda se depara com instalações, por exemplo, sobre o Livro Vermelho, que é descrito na exposição como "uma espécie de making of da criação da Psicologia Analítica", e a Alquimia, que Jung acreditava ser uma metáfora para o autoconhecimento.
Marilia Marton, Secretária da Cultura, Economia e Indústria Criativas do Estado de SP, esteve presente na abertura da exposição à imprensa e destacou o caráter inovador da mostra. "Acho que é a primeira vez que temos uma discussão como essa em um equipamento público, usando de tecnologia para criar esse impacto", afirma.
Para Luciana, que idealizou a exposição, a esperança é que o espectador saia da mostra mais aberto ao autoconhecimento: "Talvez o mais importante seja que, em um contexto de tanta distração, em que estamos sendo convidados a olhar para fora o tempo inteiro, os visitantes aceitem o convite de olhar para dentro."
Exposição 'A alma humana, você e o universo de Jung'
- MIS - Museu da Imagem e do Som (Avenida Europa, 158 - Jd. Europa - São Paulo)
- 20 de novembro a 18 de janeiro
- Terças a sextas, das 10h às 19h; sábados, das 10h às 20h; domingos e feriados, das 10h às 18h.
- Ingressos: terças-feiras: gratuito; de quarta a domingo: R$ 30 (inteira) e R$ 15,00 (meia); às terceiras quartas-feiras do mês, a entrada também é gratuita, por uma parceria com a B3. Vendas a partir de 15 de outubro.