Exposição 'Encontros e Dissonâncias', em Paris, explora relação entre Ricardo Ribenboim e Frans Krajcberg
O Espaço Frans Krajcberg, em Paris, apresenta até 11 de abril a exposição "Encontros e Dissonâncias", que reúne obras do artista brasileiro Ricardo Ribenboim. A mostra destaca a relação construída ao longo de quase três décadas entre ele e Krajcberg — uma convivência marcada pela amizade, parcerias no meio cultural e pelo engajamento ambiental.
Daniella Franco, da RFI
A exposição integra o terceiro ciclo do projeto "Frans Krajcberg visto por", que celebra os amigos que caminharam ao lado do artista nascido na Polônia, naturalizado brasileiro e falecido no Rio de Janeiro, em 2017. Entre eles está Ricardo Ribenboim, que conheceu Krajcberg em 1992, durante a Eco-92, a Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento. Desde então, os dois passaram a entrelaçar suas trajetórias e lutas — mesmo que a afinidade artística entre ambos nem sempre tenha sido linear.
Em entrevista à RFI, Ricardo Ribenboim explicou de onde partiu a ideia que guia a exposição. "Encontros porque em muita identidade em todos os momentos onde eu produzo e meus diálogos, conversas e relações próximas que eu tive com Krajcberg ao longo do tempo. Dissonâncias são as diferenças que cada um tem no olhar sobre a questão do meio ambiente", diz.
Enquanto Krajcberg tinha uma relação intrínseca com a floresta e priorizava em seu trabalho o uso do material bruto, Ribenboim foca na transformação da matéria para transformá-la em memória. "Para Krajcberg, as árvores eram praticamente a família dele. E, para mim, o uso do que eu chamo de 'rastros dos restos' em grande parte do meu trabalho são essas apropriações de coisas que eu trago da natureza e do espaço urbano. Isso vai se compondo ao longo do tempo", reitera.
19 obras de Ribenboim
Ricardo Ribenboim trouxe para Paris um conjunto de 19 obras, mas a abertura da exposição foi impactada por um contratempo: algumas peças ficaram retidas na alfândega em Paris. Liberadas nesta primeira semana da mostra, o público finalmente pode conferir este panorama que evoca diferentes momentos da carreira do artista e seu engajamento ambiental.
Algumas telas, feitas com lonas, denunciam as ocupações indevidas, o garimpo ilegal, a poluição dos rios e as queimadas na Amazônia. Uma das obras também homenageia o Museu Nacional do Rio, destruído por um trágico incêndio em 2018.
Ricardo Ribenboim estruturou a exposição em três núcleos: o primeiro trata de questões relacionadas à Amazônia, o segundo destaca o resgate de materiais da natureza e do meio urbano e o último é a exibição de um vídeo sobre sua intervenção na Eco 92, "Bólides Marinhos", que utilizou mil infláveis na praia de Ipanema. Outros dois vídeos exibidos no Espaço Krajcberg abordam a instalação "Continente-Conteúdo", exposta primeiramente no Museu de Arte Moderna da Bahia, em 2004, e mais de 20 anos depois no Centro Municipal de Artes Hélio Oiticica, no Rio de Janeiro.
Segundo Ricardo, a escultura feita com cobre e cabalaça exposta na mostra é o trabalho que mais o conecta com Frans Krajcberg. "Ele era muito família para a gente, mas ele não podia ter esse sentimento da família, para ele isso era uma coisa mais complicada. Mas ele sempre foi muito contundente com relação ao ser humano", relembra.
Associação dos Amigos
Embora mantivesse uma visão profundamente crítica do ser humano — frequentemente percebido por ele como um agente de devastação da natureza — Krajcberg atribuía grande importância às relações que cultivava. Essas conexões, construídas ao longo de décadas de convivência e militância, tornaram‑se decisivas para a preservação de sua memória e para a continuidade de sua obra.
Essa, aliás, é a ideia da Associação dos Amigos de Frans Krajcberg, concebida pelo próprio artista e dirigida pela arqueóloga e conservadora-geral do Patrimônio da Cidade de Paris Sylvie Depondt. "Ele gostava muito de seus amigos, por isso reuniu nessa associação as pessoas mais próximas dele: foi uma vontade dele dar voz a seus amigos", diz.
A exemplo de Ribenboim, são as conexões que Krajcberg fez durante sua carreira que contribuem para enriquecer os arquivos sobre sua vida e suas obras. O objetivo, segundo Depondt, é "manter sua presença na História da arte do século 21 e transmitir seu engajamento e sua revolta junto às gerações, sejam elas atuais ou futuras".