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Este clube do livro une a discussão literária com uma noite de degustação de vinho; conheça

'Estadão' participou de um encontro do Vino Livro, projeto conduzido pela historiadora e sommelière Natália Batista no Sacra Rolha Wine Bar, na Vila Mariana; veja como funciona

27 fev 2026 - 05h42
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Natália Batista circula e dá boas-vindas a todos. "Você já veio antes, né?", "É sua primeira vez aqui? Fique à vontade!", "Como você está? Quanto tempo!". Na longa mesa de madeira no segundo andar do Sacra Rolha Wine Bar, na Vila Mariana, taças de vinho estão dispostas ao lado de pratos, guardanapos e bandejas com antepastos.

Assim que se acomoda na cadeira na ponta da mesa, Natália separa seus materiais: uma longa folha repleta de anotações e um exemplar de Tudo é Rio, livro da escritora mineira Carla Madeira. Estava começando, numa noite de final de janeiro, o primeiro encontro do ano do Vino Livro, um clube do livro mensal em que um vinho é selecionado para harmonizar não só com a comida, mas principalmente com a discussão literária.

O projeto existe há dois anos, uma parceria entre o bar de vinhos na zona sul de São Paulo e o Bússola do Vinho, projeto fundado por Natália que une a degustação com experiências culturais. Todo mês, ela oferece duas datas em que um livro selecionado previamente é discutido.

O clube do livro Vino Livro ocorre no Sacra Rolha Wine Bar. Na foto, o encontro do dia 30 de janeiro, que discutiu o livro 'Tudo é Rio'.
O clube do livro Vino Livro ocorre no Sacra Rolha Wine Bar. Na foto, o encontro do dia 30 de janeiro, que discutiu o livro 'Tudo é Rio'.
Foto: Taba Benedicto/ Estadão / Estadão

"A experiência da leitura e experiência de tomar um vinho são sensacionais. Se colocamos as duas juntas, isso triplica as possibilidades. Mas outro elemento é o fato de que livros e vinhos abrem portas para o mundo, para conhecimentos sobre história, cultura, sentimentos e a capacidade de se colocar em situações que você nunca vai viver", diz a fundadora.

O vinho escolhido é servido à vontade ao longo da noite, além dos petiscos e da refeição. O valor para participar de cada encontro é de R$ 200. Para algumas pessoas, ele tornou-se um compromisso mensal. "Já participei de muitos encontros. Continuo porque cada um é único", diz Talita Leal, que conheceu o Vino Livro por meio de uma amiga e se animou com a possibilidade de unir interesses e conhecer pessoas novas.

"Os elementos fundamentais que compõe os eventos se repetem: o livro, o vinho e as pessoas. Porém, a combinação de tudo isso é absolutamente única e surpreendente. Além disso, a minha expectativa inicial se concretizou: eu fiz amizades preciosas com pessoas incríveis que conheci nos encontros", completa ela.

História, literatura, vinho e gastronomia

Doutora em História, Natália sentia certa frustração com as limitações do modelo acadêmico. Morou por anos fora do Brasil - passou pela França, Itália, África do Sul, Argentina e até Turquia, países com forte tradição de vinho - e, quando voltou, decidiu tornar-se sommelière.

"Comecei a participar de várias degustações no Brasil e eram muito superficiais. Para mim, o vinho é um universo de possibilidades e as pessoas estavam super preocupadas em só avaliar quando ele chegava na taça. Para o historiador, era enlouquecedor esse vinho sem história", diz.

Natália começou a fazer eventos juntando seus dois interesses. Logo percebeu que o conteúdo na taça era uma abertura para falar de muitas coisas - inclusive, claro, a literatura. "Eu já estava formando um público e sempre gostei de ler em casa, tranquila, tomando vinho. Eu falei: olha, tem um clube de leitura aí", lembra. Logo propôs a ideia ao bar, onde já havia sediado outros eventos.

Natália Batista, doutora em história, sommelièree fundadora da Bússola do Vinho e curadora do projeto do clube do livro.
Natália Batista, doutora em história, sommelièree fundadora da Bússola do Vinho e curadora do projeto do clube do livro.
Foto: Taba Benedicto/ Estadão / Estadão

O encontro é conduzido em duas etapas: na primeira, ela faz uma apresentação de cerca de 40 minutos sobre o livro, o autor e o contexto histórico em que ele está inserido. Mas busca sair do óbvio: no caso de Tudo É Rio, não entrou em tópicos frequentemente associados ao livro, mas fez uma breve aula sobre a ideologia da mineiridade.

A obra de Carla Madeira é ambientada em um local não nomeado, mas as origens da autora, mineira assim como Natália, denunciam que ele está profundamente ligada a uma construção histórica sobre o estado de Minas Gerais, marcado pela tradição, religiosidade, acolhimento e por dois traços fortes do livro: o acordo silencioso (nada é dito em alto e bom som) e pelo senso de vizinhança (aquela camaradagem que rapidamente pode virar uma espécie de controle).

Tudo é Rio explora temas como amor, perdão, violência e erotismo ao acompanhar o casal Dalva e Venâncio, cuja vida é transformada por um evento trágico, e a prostituta Lucy, que acaba tendo sua vida ligada à deles. O livro foi publicada em 2014 pela Quixote, editora mineira independente, mas virou fenômeno nacional quando foi reeditado pela Record há alguns anos.

O momento da introdução também é quando Natália revela as escolhas que vão harmonizar com a história. A comida servida no dia foi um feijão-tropeiro, cujas origens são ligadas ao período colonial em Minas e aos tropeiros, comerciantes que transportavam mercadorias pelos principais polos econômicos do período, sempre de passagem.

Natália Batista escolhe um vinho que combine com a história e contexto do livro que será discutido em sue clube de leitura.
Natália Batista escolhe um vinho que combine com a história e contexto do livro que será discutido em sue clube de leitura.
Foto: Taba Benedicto/ Estadão / Estadão

Já o vinho foi um Unus Cabernet Sauvignon, produzido na vinícola Família Ulian, na Serra Gaúcha. "É uma uva que nasceu na região de Bordeaux, na França, provavelmente no século 17, a partir de um cruzamento espontâneo entre duas uvas, a Cabernet Franc e a Sauvignon Blanc", explica Natália. "Ela ocupa, hoje, o primeiro lugar em área cultivada globalmente entre as uvas vitis vinifera e isso acontece porque ela tem uma capacidade de adaptação a diferentes climas e solos."

"Para mim, o mesmo acontece em Tudo a Rio", afirma ela. "Os personagens mudam com o passar do tempo, mas preservam, em alguma medida, a identidade comum. Eles não se libertam do que viveram, mas eles aprendem a viver em outros arranjos, em novas margens, ainda que também dolorosas".

Encontro e conexão

Quando termina a introdução, Natália pede que cada participante do encontro se apresente. O objetivo não é falar sobre a profissão ou outros fatos comuns. "Já que este livro fala sobre continuidade, vamos falar sobre ruptura. Quero cada um vocês conte algo que quer deixar para trás neste ano", pede ela.

O Vino Livro ocorre no segundo andar do Sacra Rolha Wine Bar, na Vila Mariana.
O Vino Livro ocorre no segundo andar do Sacra Rolha Wine Bar, na Vila Mariana.
Foto: Taba Benedicto/ Estadão / Estadão

'Falar do livro é falar de si'

No encontro que o Estadão participou havia 13 pessoas - apenas dois homens. "Minha mãe faleceu recentemente. Agora, quero cuidar mais de mim. Viajar", disse uma das participantes. O luto voltou a aparecer em outros relatos, assim como um divórcio, ansiedade, pressões sociais, esgotamento mental e físico, amor próprio e ao outro.

É bonito: quando começa a discussão sobre o livro, a impressão é que todos já construíram certo nível de intimidade e acolhimento para que não aja amarras no debate. A conversa era sobre Lucy, Dalva e Venâncio, mas também era sobre quem estava ali e por que cada um foi impactado ou não pelos caminhos do livro. "Falar do livro também é falar de si", diz Natália.

"Foi esse o meu maior encanto durante a reunião. Eu acredito que o ambiente acolhedor e seguro que se formou permitiu que as pessoas pudessem se expor sem medo de críticas ou julgamentos", afirma Sabrina de Souza Ramos, de 37 anos, médica anestesiologista que participava do clube pela primeira vez.

"A maior responsável pelo ambiente acolhedor é a Natália", diz Talita. "Ela fala de si mesma com muita naturalidade, das suas certezas e das suas inseguranças, fala também do que o livro trouxe para ela e, portanto, demostra de imediato e com absoluta confiança que ali há espaço para falar (de si mesma e das impressões sobre o livro) sem qualquer necessidade de preocupação ou desconforto", completa.

Natália afirma que, como costuma realizar dois encontros por livro, percebe como os debates são muito impactados pelo grupo que é formato. "Acredito que cada pessoa que participa traz um elemento", argumenta.

"A introdução é sempre a mesma, mas a forma como cada grupo recebe ela é muito diferente." Ela cita um exemplo: no segundo dia, quando o Estadão não estava presente, muitas mães participaram da discussão. O debate se voltou muito para as questões de maternidade abordadas pelo livro. "Para mim, é sempre encantador ver a diversidade de como podemos ler um livro", diz Natália.

Nos dias 6 e 7 de março, o clube volta a se reunir para discutir A Mais Recôndita Memória dos Homens, do senegalês Mohamed Mbougar Sarr. Até maio, ainda serão discutidos livros de José Saramago, Alba de Céspedes e Marguerite Duras.

Outros clubes e experiências

Se você deseja participar de experiência como essa, existem muitas opções ao redor do País.

Coincidentemente, existe um projeto homônimo que se expande para o interior e outras capitais. Apresentado como uma confraria literária, este outro Vino Livro acontece mensalmente e oferece, além da discussão literária, a degustação de um vinho e um ou mais pratos do mesmo local do autor escolhido. Em São Paulo, o próximo encontro será em 3 de março e vai discutir o livro A Elegância do Ouriço, de Muriel Barbery. O valor é R$ 340.

A experiência de ler um conjunto também costuma ser oferecida por livrarias de bairro, bibliotecas, instituições culturais, bares e cafés e até mesmo em parques - muitas vezes de forma gratuita.

Estadão
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