'Envelhecer abre uma porta no final da vida com possibilidades e desejos', diz atriz Denise Weinberg
Em entrevista à RFI durante o Cinélatino, em Toulouse, a atriz brasileira Denise Weinberg falou sobre a personagem que interpreta em "O Ultimo Azul", de Gabriel Mascaro, que venceu o Urso de Ouro no Festival de Cinema de Berlim, em 2025. O longa-metragem de ficção aborda a temática do envelhecimento e o "descarte" de idosos pela sociedade.
Daniella Franco, enviada especial da RFI a Toulouse
Em "O Último Azul", Denise Weinberg vive Tereza, uma trabalhadora da região amazônica prestes a completar 77 anos, idade na qual no universo distópico criado por Mascaro, as pessoas são levadas para uma colônia compulsória para idosos. Inconformada com a imposição, a protagonista se rebela e foge da familia e das autoridades, caindo na ilegalidade para realizar seus sonhos.
A um mês de completar 70 anos, Denise se reconhece em Tereza, a quem atribuiu muitos traços da sua propria personalidade, como a rebeldia e a curiosidade.
"A gente fez um acordo, eu e a Tereza", brinca. "Eu emprestei muita coisa minha pra ela e ela também endossou o que eu pensava. Eu fui a luva e ela, a mão", diz.
Premiado também no Festival Internacional de Cinema de Guadalajara, de Havana e no Golden Panda Awards, na China, o sucesso do longa é atribuído por Denise à temática universal da chegada à terceira idade, em um momento em que as pessoas estão vivendo cada vez mais. Para a atriz, os estereótipos relacionados à essa fase da vida tiram a autonomia e a independência dos idosos, resultando no autoisolamento deles.
"Os geriatras e os neurocientistas dizem que você só começa a envelhecer quando você perde a curiosidade pelas coisas e pelas pessoas. Tem idosos hoje em dia que estão aí, com 90 anos, trabalhando, morando sozinhos, com autonomia total", salienta.
Aceitar o envelhecimento
Para Denise, a experiência do envelhecimento é algo que classifica como "interessante".
"Você abre uma porta no final da sua vida com possibilidades e desejos que antes nunca tinham passado por sua cabeça. Você vê as coisas de um outro ponto de vista, de uma maneira mais plácida, mais serena e com mais aceitação", explica.
A atriz também destaca a maior liberdade que adquiriu chegando aos 70 anos. "Eu tenho a possibilidade de fazer o que eu quero. Eu digo 'não' com mais facilidade e respeito os limites, sem me lamentar", reitera, lembrando que esse também é um traço da personagem Tereza.
Por outro lado, Denise observa a obsessão do meio artístico com a estética, na busca pela reversão de um processo natural. "Uma vez um diretor me disse: 'nunca mexa na sua cara, porque as suas rugas valem ouro'", relembra. "Eu não tenho nenhum procedimento estético, e até brinco com Gabriel Mascaro, que ele só me chamou para interpretar a Tereza por isso", ri.
Denise lamenta presenciar atrizes na faixa dos 20 anos fazendo harmonizações faciais, "uma coisa que fica horrorosa, porque no final fica todo mundo com a mesma cara". "Eu acho que além de isso ser uma violência fisica, essa também é uma escravatura que a mulher tem com a beleza. Não é biologicamente normal", aponta.
Para a atriz, manter sua fisionomia também é uma questão de respeito à sua personalidade. "Sempre pensei que, se fizesse procedimento estético, quando acordasse de manhã e me olhasse no espelho, não seria eu, com as minhas histórias, com o que eu tenho para contar. A minha vaidade é com o meu trabalho, não como o meu físico", resume.