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Em temporada final, Euphoria abraça o exagero, mas troca a narrativa pelo choque

Série teve seu último episódio exibido neste domingo, 31; HBO confirmou que ela não retornará para mais uma temporada

1 jun 2026 - 02h46
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Atenção: o texto a seguir contém spoilers do final da terceira temporada de Euphoria. Não leia se não quiser saber o que acontece.

Euphoria nunca foi conhecida por sua sutileza. Sua primeira temporada, em 2019, tornou-se um fenômeno pelo visual marcante que abusava dos tons de neon e, principalmente, pelo retrato sombrio que fazia das vidas dos adolescentes de uma pequena comunidade californiana, permeada por vícios, mentiras e relações ilícitas. Seu criador Sam Levinson, no entanto, resolveu se entregar de vez ao exagero no terceiro ano da série - mais para o mal do que para o bem, como foi reforçado no episódio final da temporada (e também o último da produção), exibido neste domingo, 31, pela HBO.

O capítulo, com pouco mais de 1h30 de duração, investiu fortemente na ação com toques de faroeste, que já vinha ditando o tom de seus antecessores, em um esforço para encerrar a trama de Rue (Zendaya). A protagonista passou a temporada em uma encruzilhada entre Laurie, traficante com quem tinha uma dívida milionária, Alamo Brown, dono de um suspeito clube de strip-tease, e os agentes do DEA, a agência antidrogas americana.

Zendaya em cena de 'Euphoria'
Zendaya em cena de 'Euphoria'
Foto: Patrick Wymore/HBO/Divulgação / Estadão

Não há por que fazer rodeios: Rue, às voltas com o vício desde o início da trama, morreu após uma overdose causada pela ingestão de um analgésico contaminado com fentanil - entregue a ela deliberadamente por Alamo, que já sabia de sua colaboração com as autoridades e de seus problemas com drogas. Um destino trágico, mas coerente, telegrafado desde o início da série.

Foi, também, um dos poucos momentos tratados com emoção genuína no episódio, ao lado de um desabafo desesperançoso de Ali (Colman Domingo), amigo e mentor de Rue. O texto de Levinson, no entanto, preferiu abrir mão da vulnerabilidade pelo espetáculo, tornando Ali um verdadeiro anjo vingador no terço final.

Isso é representativo do que foi o grande problema da terceira temporada de Euphoria: o sacrifício da narrativa em prol do choque. Levinson parece ter se inclinado ao exagero na tentativa de estruturar uma fábula sobre como ações têm consequências às vezes indesejadas. O texto, porém, teve dificuldade em ir além do óbvio e não conseguiu oferecer nenhuma reflexão ou sequer reencontrar a profundidade alcançada nas outras duas temporadas.

Cassie, personagem de Sydney Sweeney, em cena da 3ª temporada de 'Euphoria'
Cassie, personagem de Sydney Sweeney, em cena da 3ª temporada de 'Euphoria'
Foto: HBO Max/Reprodução / Estadão

Parecia haver, também, uma intenção de discorrer sobre o trabalho sexual em suas diferentes formas, das dançarinas do clube de Alamo ao OnlyFans de Cassie (Sydney Sweeney) e à situação de Jules (Hunter Schafer) como 'sugar baby' de um homem rico e casado. Mas o roteiro tampouco saiu da superfície neste aspecto, limitando-se a mostrar como a plataforma de conteúdo adulto pode ser um meio para enriquecer rapidamente. Deixou a sensação de que foi mera desculpa para justificar os retratos exageradamente sexualizados de suas personagens femininas.

Não ajudou que personagens como Nate (Jacob Elordi) e a própria Jules tenham sido subaproveitados, com pouquíssimo espaço - se foi uma decisão puramente narrativa ou se houve conflitos nos bastidores, não se sabe. O resultado foi uma temporada desconjuntada, com uma narrativa truncada que entreteve pelos acontecimentos absurdos, mas pouco tinha a oferecer passada a, com o perdão do trocadilho, euforia inicial. A trilha sonora de Labrinth, essencial nos primeiros anos da série, também fez falta (o produtor foi substituído por Hans Zimmer).

O destaque positivo da temporada ficou para aquele que sempre foi um dos grandes triunfos da série: seu elenco. Levinson e sua equipe conseguiram reunir, lá atrás, um time de atores que hoje estão no primeiro escalão de Hollywood, merecidamente, e que trouxeram um brilho adicional a Euphoria. Zendaya, em especial, mais uma vez navegou com precisão comovente pelos altos e baixos de Rue, e Sydney Sweeney entregou a melhor atuação de sua carreira até agora com sua Cassie em busca da fama.

É uma pena que a série se despeça em um nível muito aquém do potencial que demonstrou. Pelo menos, Levinson e a HBO souberam a hora de dizer 'adeus'.

Estadão
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