'Cem Anos de Solidão' chega ao fim na Netflix: 'Senti um arrepio percorrer meu corpo', diz atriz
Capítulo que encerra adaptação da obra de Gabriel García Márquez no streaming vem em formato de longa-metragem; leia entrevista com atores
A adaptação de Cem Anos de Solidão chega ao fim na Netflix com o desfecho da saga dos Buendía transformado em um longa-metragem de 1h45, dirigido por Laura Mora. O episódio final, elogiado pelo elenco colombiano por sua força poética e fidelidade, retrata o destino das últimas gerações da família e o declínio de Macondo. Os atores destacam a complexidade de viver figuras quase míticas e ressaltam a relevância universal e cultural da obra-prima de Gabriel García Márquez sobre tempo e memória.
É bem comum perguntar se tal série tem material suficiente para tantos episódios. O medo é virar pura enrolação. No caso de Cem Anos de Solidão, a preocupação de quem leu o clássico do vencedor do Nobel de Literatura Gabriel García Márquez era o contrário disso: será que tudo caberia em apenas 16 episódios? A solução encontrada pela Netflix foi transformar o último capítulo da saga iniciada com José Arcadio Buendía e Úrsula Iguarán em um longa-metragem de 1h45 de duração. O ponto final, que traz a sexta e a sétima gerações dos Buendía e tem direção da colombiana Laura Mora, estreia na quarta-feira, 26, na Netflix, três semanas após a estreia dos sete primeiros episódios de Cem Anos de Solidão - Parte 2.
"Pessoalmente, sempre fui muito zelosa em relação ao final do livro. Quando o li pela primeira vez, fiquei tão tocada que vivia dizendo: 'Isso jamais poderia ser adaptado para as telas. Ninguém seria capaz de recriar essas imagens'. No entanto, fiquei maravilhada ao assistir ao episódio. Senti um arrepio percorrer meu corpo", disse em entrevista ao Estadão Margarita Rosa de Francisco, conhecida no Brasil pela novela Café com Aroma de Mulher e que interpreta a versão mais velha da rígida Fernanda del Carpio, que transformou a família Buendía. "Ele poderia se sustentar sozinho como um longa-metragem, quase sem precisar de qualquer explicação. Poderia ser exibido exatamente como está. Tem vida e estrutura próprias, além de muita poesia", completou a atriz.
Em termos de trama, esse capítulo final precisa dar conta da reclusão de Aureliano Babilonia (Sebastián Osorio) e sua tentativa desesperada de decifrar os manuscritos de Melquíades, o retorno de seus tios, José Arcadio "O Papa" (Emmanuel Restrepo) e Amaranta Úrsula (Estefanía Piñeres), a chegada da sétima geração, as formigas que invadem a casa dos Buendía e o vendaval que varre a cidade de Macondo. Mesmo que essa Parte 2 seja menos mágica do que a primeira temporada, García Márquez cria um mundo em que o surreal, o sobrenatural, o divino fazem parte do real e do terreno. Um espelho da região caribenha de seu país, da Colômbia como um todo e da América Latina em geral.
Interpretar um Aureliano, Arcadio ou Amaranta é como retratar um personagem mitológico, na opinião de Estefanía Piñeres. "São quase deuses", disse a atriz. "É preciso fazer um processo místico, quase de transmutação, é necessário passá-los pela carne, pela pele, e isso os coloca em um lugar terreno. Mas, no caso de Gabriel García Márquez, são semideuses mesmo quando pousados na terra. Eles não habitam este mundo, as regras do universo deles são diferentes, são personagens que sabem que estão grávidas por causa de uma intuição mágica. O maior desafio é encontrá-los no meio do caminho, nem na terra nem nesse reino que habitam. É encontrar o tom."
Um livro universal
A obra de García Márquez é muito mais do que sua trama. "O romance aborda a condição humana e suas obsessões, como o tempo, o amor, o destino, a morte e a natureza cíclica do tempo", disse Margarita. "O tempo é uma fonte de grande angústia para nós e serve como um eixo fundamental nessa obra. O título é Cem Anos de Solidão. Ele trata de um período de tempo que só pode ser verdadeiramente compreendido por meio da literatura. Portanto, trata-se de um fenômeno universal essa visão do tempo como uma grande obsessão da nossa condição."
Sebastián Osorio afirmou que sua relevância vem de sua abordagem de pilares fundamentais da humanidade. "O livro fala de tempo, memória e destino. Ao lê-lo, gostava de imaginar que nós, os leitores, éramos como Aureliano Babilonia lendo os pergaminhos de Melquíades, compreendendo o verdadeiro valor da literatura. Assim, podemos ver de onde viemos, ter uma noção de para onde vamos e adquirir a capacidade de discernir. É por isso que acredito que Cem Anos de Solidão permaneça sendo uma obra tão relevante hoje em dia."
Para quem é colombiano, como quase todo o elenco e equipe da série, mais ainda. Emmanuel Restrepo afirmou enxergar em Cem Anos de Solidão uma forma de entender seu país. "Para mim, é como se fosse a Bíblia da Colômbia", disse o ator, ressaltando que não quer ferir nenhuma suscetibilidade. "Ver esses personagens é ver que é daqui que viemos e que tudo o que acontece com eles é o que aconteceu conosco e nos representa. Para mim, como colombiano, é pensar: esta é a minha Bíblia, é daí que venho, é entender o Gênesis."
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