Antonio Haddad, o Marcinho de 'Os Outros': 'Qual seria a graça se ele fizesse tudo certo?'
Em entrevista ao 'Estadão', ator refletiu sobre sua jornada crescendo com o personagem e a série e críticas ao personagem nas redes sociais
Não é sempre que um ator tem a chance de crescer e evoluir junto a um personagem, vê-lo se desenvolver e ganhar maturidade dentro de uma história ao mesmo tempo em que ele próprio torna-se alguém mais confiante fora das câmeras. Mas Antonio Haddad se diz grato por ter tido esta jornada com Marcinho em três temporadas de Os Outros.
Hoje aos 20 anos, o ator que subiu aos palcos pela primeira vez aos 3 começou a viver Marcinho aos 16 anos e foi crescendo com ele ao longo dos anos que dividem as três temporadas da série do Globoplay. Por isso, considera interpretá-lo um desafio satisfatório.
"É um desafio muito poderoso na carreira de um ator, porque são três temporadas que a gente está perante o público em momentos diferentes da nossa vida", reflete, em entrevista ao Estadão, destacando que o Marcinho existe em uma construção coletiva.
"A gente sempre pensa no amplo do público. No que as pessoas podem sentir e pensar. E cada temporada foi um desafio muito distinto que me rendeu aprendizados em todas as áreas, como profissional e como humano."
As transformações de 'Os Outros'
Camaleônica como poucos, Os Outros começa com uma briga de vizinhos quando Cibele (Adriana Esteves) vai defender o filho, Marcinho (Haddad), após uma briga entre ele e o vizinho Rogério (Paulo Mendes) em um condomínio na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro. A confusão vai ganhando novas camadas com conflitos entre os pais que desencadeiam uma onda de violência.
Embora o tema das brigas entre vizinhos permaneça, as ambientações se transformam a cada temporada, assim como os personagens em volta da dupla principal, de mãe e filho. Com isso, os segredos que movem cada um também são novos a cada ano e buscam fazer provocações sobre a sociedade de aparências e o quanto podemos não conhecer quem está do nosso lado.
"É uma série que fala sobre a natureza humana, de uma forma muito nova", opina Haddad sobre o motivo de a atração ecoar com o público. "Trata do ser humano na sua forma completa, nas suas incongruências, nos seus erros, nos limites. Provoca muito essa sensação de familiaridade porque a gente vive um pouco, querendo ou não, as coisas que a série mostra. A gente encontra o povo brasileiro. Existe um mérito muito grande desde o princípio na ideia deste argumento, de debater tão honestamente sobre a natureza humana e sobre o nosso momento social."
Na terceira temporada, já completa na plataforma de streaming, a série saiu da metrópole e foi se ambientar no campo, onde Cibele e Marcinho buscam um novo recomeço após a morte de Sérgio (Eduardo Sterblitch). Lázaro Ramos, Carol Duarte, Bruno Garcia e Mariana Lima integram o novo elenco. "É enriquecedor estar com pessoas que veem arte como um ofício", reflete Antonio. "Respiram e vivem a arte em todas as relações, estão sempre estudando, analisando. É muito bonito."
A 'questão' Marcinho
Ciente de que seu personagem não é o mais amado entre os fãs da série, Antonio compreende que sua missão diante da câmera é defendê-lo e transmitir verdade em suas decisões. Mas ele também entende que isso não significa omitir seus erros.
"Na terceira temporada ele é um personagem diferente, com outras perspectivas e desafios. Foi uma alegria encarar isso ao lado do novo elenco e estar nesse processo da formação do Marcinho", celebra. Quanto ao que desagrada parte do público, o ator diz que a responsabilidade é de cada um, mas que a frustração faz parte da experiência.
"O que ele realmente virou também depende um pouco do público. Cada pessoa sente o que sente, e acho que isso é lindo. As pessoas podem se incomodar, as pessoas podem se apaixonar, as pessoas podem ficar com raiva. Isso que a série provoca me encanta."
Por fim, Haddad parece entender como não levar as críticas a Marcinho para o seu coração.
"A gente sempre quer que o nosso personagem faça certo. Mas qual seria a graça se ele fizesse tudo o que tem que ser feito? A série não teria movimento. Na vida é a mesma coisa. Se as pessoas fizessem o que precisam fazer, da forma como deve ser feito, a vida não seria a surpresa que é. O Marcinho é o meu rosto, mas ele é pensado por muitas pessoas, então sempre questionamos também. No final das contas, é uma história muito humana e acredito que todas as justificativas dos personagens estão ali de várias formas", finaliza.
As três temporadas de Os Outros já estão disponíveis na íntegra no Globoplay. Por enquanto, não se sabe se haverá uma quarta temporada.
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