Script = https://s1.trrsf.com/update-1786557910/fe/zaz-ui-t360/_js/transition.min.js
PUBLICIDADE
Publicidade

Alice Braga reflete sobre trajetória e conta como a percepção de Hollywood sobre o Brasil mudou

Dona de uma carreira que transita entre o Brasil e o exterior há quase duas décadas, atriz vê mudanças concretas na forma como somos retratados: 'Sabem que a gente é um público muito fiel'; leia entrevista ao 'Estadão'

28 ago 2026 - 17h06
Compartilhar
Exibir comentários
Resumo
Prestes a estrear a nova temporada de Matéria Escura, Alice Braga reflete sobre sua trajetória internacional e destaca o crescimento da representatividade brasileira em Hollywood. Para a atriz, o interesse global por talentos do país reflete o valor do mercado e da cultura nacional. Ela defende mais apoio a novos artistas, alerta sobre o uso da IA no audiovisual e projeta novidades na carreira, incluindo o filme O Jardim do Ogro e o desejo inédito de atuar em novelas brasileiras.
📊 Fofoca Awards: vote nos seus favoritos

Alice Braga, 43 anos, tem uma trajetória particular entre as estrelas do cinema brasileiro: projetou-se para o mundo em Cidade de Deus (2002), foi a Cannes com Cidade Baixa (2004) e chamou a atenção de Hollywood com Eu Sou a Lenda (2007), ao lado de Will Smith. Depois, acumulou papéis em outras produções norte-americanas e tornou-se a primeira brasileira a protagonizar uma série na TV dos EUA com A Rainha do Sul, que durou cinco temporadas. Agora, ela está prestes a lançar seu segundo projeto do ano: a segunda temporada de Matéria Escura, que estreia na Apple TV nesta sexta-feira, 28.

O caminho foi o resultado não de uma estratégia, mas "de um coração aberto para a vida, mais que tudo", como conta a atriz em conversa com o Estadão. "Cidade de Deus tomou um rumo tão bonito para o cinema brasileiro, tão bonito para todo mundo que se envolveu, e eu fui agarrando as oportunidades que apareceram."

Alice Braga em cena do final da primeira temporada da série 'Matéria Escura', da Apple TV
Alice Braga em cena do final da primeira temporada da série 'Matéria Escura', da Apple TV
Foto: Apple TV/Divulgação / Estadão

Dividindo-se entre Brasil e Estados Unidos ao longo de quase duas décadas, Alice acompanhou de camarote as importantes discussões sobre representatividade latina que se intensificaram nos últimos dez anos na indústria americana, e viu crescer também o espaço para talentos brasileiros, à frente e atrás das câmeras. Sua personagem em Matéria Escura, inclusive, tornou-se brasileira após sua escalação, em uma iniciativa de Blake Crouch, showrunner da série e autor do livro homônimo que a inspirou.

"Só que para você ver como tem mudado, o Blake automaticamente falou: 'Eu quero que [a personagem] seja brasileira'. Talvez 20, 15 anos atrás, eles fossem transformá-la em mexicana, espanhola ou italiana, mas não brasileira. Aí ele propôs isso e eu falei: 'Por favor, o que eu mais quero, o que eu mais quero é que ela seja brasileira'", recorda.

O autor inclusive escreveu uma cena em que a personagem de Alice, Amanda, fala com sua mãe em português. "Ele não quis botar a legenda, porque falou: 'Eu quero que seja inteira em português, o público brasileiro vai se identificar. Quem não souber português, que sinta a emoção da cena'."

Isso aconteceu antes das recentes incursões de Ainda Estou Aqui e O Agente Secreto no Oscar, mas acompanhou uma tendência que já vinha crescendo, na visão da atriz. "O Brasil é um mercado muito maravilhoso culturalmente. Pela música, pela arte, pela cinematografia. E nesse mundo globalizado que a gente está vivendo, o público brasileiro é um grande consumidor de cultura. A gente tem essa força de público de fã, de consumidor de cultura, que é uma coisa linda do brasileiro. Então, o fato de a gente ter essa força dentro das plataformas faz com que essas plataformas também queiram saber dos nossos talentos para poder trazer para fora."

"Sinto que, com os filmes que a gente fez indo para o Oscar, isso só ganhou uma cara e uma forma, mas por trás das câmeras existe sim uma força muito grande dessas empresas de quererem investir no Brasil e quererem saber do nosso público, porque eles sabem que a gente é um público muito fiel", prossegue ela, notando que produções nacionais como o filme Elize: Sombras de Uma Mulher e a série Emergência Radioativa chegaram a posições importantes no ranking de produções mais vistas da Netflix, assim como Homem em Chamas - série que é uma produção americana, mas que tem Alice em seu elenco e teve cenas gravadas no Rio de Janeiro.

Daí, ressalta, a importância de que se fomente a cultura e capacite profissionais dentro do Brasil: "É uma indústria maravilhosa que gera muito dinheiro, que gera muita coisa boa para o país".

Para Alice, a representatividade torna-se ainda mais importante frente ao contexto vivido hoje nos Estados Unidos, onde o governo Trump vem apertando o cerco contra imigrantes e as operações conduzidas pelo ICE têm resultado em prisões e deportações.

"Acho que esse tipo de discurso, que tem acontecido nos Estados Unidos e infelizmente está vindo muito para a América Latina, é muito perigoso, é muito triste, e eu acho que a gente tem que, sim, batalhar para contar as nossas histórias e continuar emocionando as pessoas e gerando uma transformação de sociedade com a cultura", diz. "Por isso que a cultura é tão atacada por governos assim, porque a gente consegue se comunicar através da emoção. E isso é o que mais aterroriza essas pessoas."

'É importante dar caminhos para as novas gerações'

Alice fala com paixão sobre arte e cultura. E não poderia ser diferente: cresceu indo a sets de filmagens com sua mãe, Ana Braga, irmã da também atriz Sonia Braga. "Ela era atriz de teatro e depois virou assistente de direção, e eu cresci em sets por causa dela. Aí eu fui conhecendo os diretores, então o mundo do cinema sempre foi uma coisa que fez muito parte da minha vida. E sempre sonhei muito em trabalhar com cinema, seja na frente ou atrás das câmeras."

Da experiência com Cidade de Deus, que completará 25 anos em 2027, guarda boas lembranças do diretor Fernando Meirelles - "eu sou muito apaixonada por ele, pela pessoa que ele é, pelo diretor que ele é, pelo artista que ele é" - e do "momento pulsante" que a cultura brasileira vivia na época: Madame Satã, de Karim Aïnouz, estava sendo gravado na mesma época e, nos palcos, a peça A Máquina, de João Falcão, revelava os nomes de Vladimir Brichta, Lázaro Ramos e Wagner Moura. "Foi um momento muito especial culturalmente e que a gente mantenha ele vivo, que a gente mantenha a nossa cultura com essa força, sabe? Com novas pessoas, com novos atores."

Por isso mesmo Alice é crítica à exigência cada vez maior, por parte de estúdios e produtoras, de que atores tenham números expressivos de seguidores nas redes sociais. "Novos atores, de novas gerações, não conseguem furar essa barreira se a gente não dá chance para eles."

A atriz cita uma conversa com a célebre psicanalista americana e autora Esther Perel, a quem entrevistou no início do mês no SP2B, evento que aconteceu em São Paulo. "A pluralidade do Brasil é a nossa maior força, ela fala isso. (...) A gente não pode querer ser igual a eles [os EUA], porque a gente tem uma coisa que é única, que somos nós, que é a nossa cultura, que é o nosso jeito de ser, a nossa força de viver. A gente é muito plural e é o que de mais bonito nós temos. Então, é importante reverenciarmos os que vieram antes e dar caminhos para as novas gerações, para seguirmos fortes."

Questionada sobre a chegada, agora, de recursos de inteligência artificial na área da atuação, Alice diz não a ver como uma substituta do ofício do ator, mas tem outros temores. "Não tenho o medo ou a preocupação em relação à falta de trabalho; o que me dá medo é a possibilidade de manipulação para a intervenção emocional de quem está assistindo aquilo. Como isso pode ser usado. Acho que são tecnologias incríveis, assim como quando a gente começou a ter internet, telefone, celular, poder se falar muito mais. É uma coisa que não tem volta, mas acho que a gente tem que limitá-la a certos lugares e não deixar sem regularizar. Acho que temos que tomar conta disso, principalmente para manter as relações humanas vivas, mais do que tudo."

Novo filme e a vontade de trabalhar (mais) no Brasil

O próximo trabalho de Alice, não por acaso, é uma mulher bem humana: Júlia, uma jornalista que sofre com a compulsão sexual e é protagonista de O Jardim do Ogro, filme de Carolina Jabor que adapta o livro homônimo de Leila Slimani. "Ele fala muito com o mundo hoje, dos desejos de uma mulher, de uma mulher dessa idade", explica a atriz, acrescentando que a autora, uma mulher franco-marroquina, "ficou muito feliz de que um grupo de artistas do Sul Global fizesse essa história, para sair um pouco desse contexto mais europeu, para mostrar a sexualidade, a sensualidade, com outro ponto de vista."

Um elemento importante, nota Alice, é que a equipe do longa, formada majoritariamente por mulheres, optou por não retratar a personagem de forma objetificada. "A gente inverteu a regra, porque as mulheres sul-americanas, durante décadas, foram sexualizadas e sensualizadas ou colocadas no nicho disso", afirma, contando que lutou justamente contra esse estereótipo enquanto fazia a série A Rainha do Sul, na qual interpretava uma mexicana que se torna uma poderosa traficante: "A sensualidade da personagem tem que ser pela história. Ela tem que ter um porquê no roteiro. Não vamos criar situações em que ela só está sexy e linda e querendo ser sensual a troco de nada. Qual é o desejo?"

Depois de O Jardim do Ogro, que ainda não tem data de lançamento definida, a atriz tem alguns outros projetos engatilhados, sobre os quais ainda não pode dar detalhes: vai filmar no México e está desenvolvendo projetos com dois diretores brasileiros. E tem, também, vontade de atuar em uma novela, uma experiência ainda inédita em sua carreira. "Estou querendo seguir esse caminho, onde a minha curiosidade e meu coração me levam", finaliza, sorridente.

📊 Fofoca Awards: vote nos seus favoritos
Estadão
Compartilhar

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie.

Publicidade
Meu Terra