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'Papaya' é uma delicada animação sobre crescer e descobrir o seu lugar no mundo

A animação de Priscilla Kellen, em cartaz nos cinemas a partir desta quinta-feira (24), acompanha uma pequena semente de mamão que sonha em voar

23 set 2026 - 18h49
(atualizado às 19h07)
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Resumo
Estreia de Priscilla Kellen, a animação "Papaya" narra a jornada de uma semente de mamão que sonha em voar, mas descobre que amadurecer envolve criar raízes e conexões. Sem diálogos, o longa de 74 minutos aposta na força visual inspirada em Henri Matisse e na trilha sonora de Tulipa Ruiz e Talita Collado. Em vez de defender uma liberdade simplista, a obra equilibra o lúdico e o simbólico para mostrar que a identidade e a autonomia se constroem através do senso de comunidade e do afeto.

Há algo de muito bonito na maneira como Papaya transforma uma semente de mamão em personagem e, a partir dela, constrói uma história sobre crescer, pertencer e descobrir o próprio lugar no mundo. Primeiro longa-metragem de Priscilla Kellen, a animação acompanha uma pequena semente que sonha em voar e, por isso, precisa permanecer em movimento para não criar raízes.

'Papaya' é uma delicada animação sobre crescer e descobrir o próprio lugar no mundo (Divulgação)
'Papaya' é uma delicada animação sobre crescer e descobrir o próprio lugar no mundo (Divulgação)
Foto: Rolling Stone Brasil

A premissa poderia facilmente resultar em uma fábula infantil convencional sobre liberdade e autodescoberta, mas o filme encontra caminhos mais interessantes ao perceber que amadurecer não significa necessariamente se desprender de tudo. Pelo contrário: às vezes, descobrir quem somos também passa por entender aquilo que nos conecta aos outros.

Sem diálogos durante seus 74 minutos — sim, é bem curtinho, afinal, o filme também serve às crianças —, Papaya confia especialmente nas imagens, nos sons, na música de Tulipa Ruiz, na trilha de Talita Collado, e no movimento para conduzir sua narrativa. É uma escolha que poderia tornar a experiência excessivamente abstrata ou até infantil, mas a animação encontra um equilíbrio preciso entre o lúdico e o simbólico, ampliando seu público para outras idades.

Infantil sem subestimar os pequeninos, o filme respeita a capacidade de interpretação desse público. A ausência de falas também amplia a possibilidade de identificação: antes de explicar o que a semente sente ou deseja, Priscilla permite que o espectador observe seu percurso e atribua sentidos a ele. O resultado é delicado e transmite sua mensagem sem panfletagem.

Visualmente, Papaya é ainda mais curioso porque existe um cuidado evidente na estética da animação. Formas bidimensionais, colagens e recortes criam um universo que parece simultaneamente simples, mas também cheio de camadas. A inspiração nos grafismos latino-americanos e nas obras paper-cutout de Henri Matisse ajuda a construir uma identidade própria. A paleta extremamente colorida poderia fazer do filme apenas um exercício de estilo, mas suas cores e formas estão sempre em movimento, criando um mundo orgânico e mutável.

Essa construção visual também reforça a principal ideia do filme: ninguém cresce completamente sozinho. Conforme a semente descobre a força de suas raízes, aquilo que inicialmente parecia uma ameaça à sua liberdade passa a representar uma possibilidade de conexão. Papaya entende comunidade não como o oposto da individualidade, mas como parte dela.

É uma perspectiva especialmente interessante em uma história sobre uma personagem pressionada a se enquadrar em expectativas externas, porque o filme não responde a essa pressão com uma defesa simplista do "seja você mesmo". A descoberta de si passa tanto pela autonomia quanto pela capacidade de criar vínculos.

Por fim, Papaya acompanha os movimentos, as descobertas e as conexões de sua pequena protagonista até que a metáfora vá crescendo naturalmente diante do espectador: desde uma semente criando raízes, encontrando outras formas de vida e descobrindo que crescer não precisa significar simplesmente ir embora. Em um cinema onde o imagético está cada vez menos virtuoso, Papaya deixa espaço para que cada espectador — não importa a idade — saia refletindo sobre aquilo que acabara de ver.

Rolling Stone Brasil Rolling Stone Brasil
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