'O Agente Secreto' não precisa ser explicado — mas talvez você precise largar o celular
Necessidade de mastigar o novo filme de Kleber Mendonça Filho (Bacurau) escancara um problema social: as pessoas estão emburrecendo
O Agente Secreto, novo longa de Kleber Mendonça Filho (Bacurau), chegou ao catálogo da Netflix no último dia 7 de março e, ao ampliar o acesso à obra, que disputa quatro prêmios na próxima edição do Oscar, parece ter escancarado um grande problema: as pessoas estão emburrecendo.
O primeiro indício veio em uma publicação no X, em que um usuário do antigo Twitter questionava se, em 1977, período em que se passa a maior parte da história, tinha celulares como o que é mostrada na cena devidamente registrada pelo espectador, ávido para disparar a sua crítica. Caso tivesse esperado alguns minutos, teria entendido — ou não, quem sabe — que O Agente Secreto navega entre o passado e o presente para contar a história de Armando (Wagner Moura, Guerra Civil) e a sua luta para fugir do país em meio à ditadura militar.
A crítica viralizou e rendeu até uma divertida reação de Mendonça Filho: "Eita bixiga liga", exclamou o cineasta em suas redes sociais, como se tivesse sido pego no pulo pelo "erro".
Ver essa foto no Instagram
Outra crítica acusava Mendonça Filho de "criar obras para outros artistas". Segundo a espectadora, ela havia se sentido "uma tapada" por não entender O Agente Secreto, especialmente a informação de que o filme se passava durante a ditatura militar brasileira. Ela segue reclamando, pedindo contextualização, um simples "Ditadura Militar - 1977" no início do filme, que a faria entender melhor a história, enquanto ignora completamente os dizeres, em letras garrafais, que abrem o filme: "Essa história se passa no Brasil de 1977, uma época cheia de pirraça...".
Como se não bastassem alguns poucos espectadores desatentos, sites e páginas nas redes sociais passaram a repercurtir a revelação sobre o grande mistério do filme, que finalmente pôde ser desvendado com a chegada de O Agente Secreto ao streaming: afinal, o que aconteceu com Armando ao final do filme? Em casa, é possível pausar a tela e ler, com tranquilidade, a manchete de jornal que revela o destino do personagem de Wagner Moura — algo que, aparentemente, era uma tarefa impossível em uma tela gigantesca de cinema.
A verdade é que O Agente Secreto não precisa ser explicado, mas você talvez precise sair do celular com a urgência. Com as redes sociais ganhando cada vez mais importância na vida das pessoas, o celular acaba se tornando uma extensão do corpo e passar por duas horas e quarenta minutos de filme, quando o seu máximo costuma ser um a dois minutos em um vídeo de TikTok, parece ser uma tarefa hercúlea.
E pode parecer implicância minha, mas garanto que não é: basta ver quantos registros feitos dentro das salas de cinema viralizaram nas redes sociais após a estreia de O Agente Secreto em novembro passado — ou mesmo agora, com cliques da tela da TV, após o lançamento na Netflix — para provar aos amigos, aos conhecidos e aos desconhecidos que, embora não tenha entendido, você havia assistido ao filme do momento. Mas você realmente o assistiu?
Para completar, ferramentas de inteligência artificial, como o ChatGPT, parecem ter substituído a capacidade das pessoas de pensar, porque há uma necessidade de que tudo seja extremamente mastigado para que, só assim, o espectador consiga entender. Em recente entrevista, Matt Damon (Os Infiltrados) revelou que, ao fazer o seu filme mais recente, Dinheiro Suspeito, co-estrelado por Ben Affleck (O Contador), a Netflix pedia que, ao longo da história, a trama fosse repetida algumas vezes, para atender aos espectadores que assistem a filmes enquanto mexem em seus celulares.
O Agente Secreto não é um filme difícil de entender. É um filme regional até o talo, sim, e com uma trama rica em alegorias, que realmente podem não ser captadas integralmente ao assistir uma primeira vez, mas nada que atrapalhe o entendimento da história que, na verdade, é bastante simples. Assistir ao filme mais de uma vez não é para entender o que ficou perdido, mas para enriquecer a experiência. Até porque tentar entender cada detalhe que um artista insere em sua obra seria uma tarefa desnecessariamente exaustiva.
"O filme é um encontro do que o diretor quis dizer com o público que o assiste", afirmou Wager Moura em entrevista à Rolling Stone Brasil. Portanto, nós nunca vamos entender plenamente o que um artista quis dizer com a sua obra. Nós só vamos usar as nossas próprias referências — e é muito importante ter algumas delas — para caminhar por aquele universo e ter o nosso próprio entendimento do que aquela obra quis dizer.
O Agente Secreto não só é entendível — considerando os argumentos já dispostos neste texto —, como também é bastante relacionáciovel. A cena da mãe acusando a ex-patroa de ser responsável pela morte de sua filha, por exemplo, não lembra o caso do menino Miguel Otávio, que morreu ao cair do nono andar de um prédio após ser deixado sozinho pela patroa de sua mãe? Ou as histórias da perna cabeluda, que pareciam absurdas demais para ser verdade, não lembram fake news como a das mamadeiras eróticas — as famosas "mamadeiras de piroca — e a de que o rosto da cantora e drag queen Pabllo Vittar seria estampado nas notas de cinquenta reais?
Com O Agente Secreto, Kleber Mendonça Filho não está falando de um Brasil de meio século atrás, vivendo sob um regime militar, mas de um Brasil de agora, "em que tantos criminosos se orgulham de serem criminosos", como descreve o próprio cineasta. E, caso você tivesse deixado o celular de lado e realmente assistido ao filme, talvez tivesse entendido isso. Mas você não o fez e, sinto em dizer, a culpa não é de mais ninguém além de sua.