Novo Filme Sobre o Facebook Retrata Zuckerberg Como Caricatura e Exagera no Discurso Político
Com Jeremy Strong no papel do empresário, "O Outro Lado das Redes" revisita o escândalo dos Facebook Files e encontra seus melhores momentos na investigação conduzida por Frances Haugen e Jeff Horwitz
Dirigido por Aaron Sorkin, o filme "O Outro Lado das Redes" acompanha o vazamento de documentos do Facebook pela denunciante Frances Haugen ao lado do jornalista Jeff Horwitz. O longa brilha na condução investigativa e no trabalho de Mikey Madison e Jeremy Allen White, além de ter ótima ambientação. No entanto, a produção perde força ao pesar no discurso político explicativo e ao retratar Mark Zuckerberg, vivido por Jeremy Strong, de maneira fria, mecânica e caricatural.
Mais de uma década depois de "A Rede Social", o Facebook volta ao cinema em "O Outro Lado das Redes". Agora, a história não acompanha a criação da empresa, mas um período em que documentos internos começaram a revelar problemas envolvendo o funcionamento da plataforma, os algoritmos e as decisões tomadas por seus responsáveis.
Escrito e dirigido por Aaron Sorkin, o longa acompanha Frances Haugen, ex-funcionária do Facebook que teve acesso a milhares de documentos internos e decidiu compartilhar parte desse material com o jornalista Jeff Horwitz, do The Wall Street Journal. A investigação colocou a empresa no centro de discussões sobre desinformação, segurança dos usuários, saúde mental de adolescentes e o impacto das redes sociais na sociedade.
É um assunto interessante para o cinema, principalmente porque envolve uma empresa presente na vida de bilhões de pessoas. O desafio está em transformar documentos, pesquisas internas e decisões corporativas em uma história que consiga prender a atenção. E o filme acerta bastante quando acompanha o trabalho de investigação.
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Uma investigação que começa dentro do próprio Facebook
Mikey Madison interpreta Frances Haugen, funcionária que começa a perceber diferenças entre aquilo que a empresa conhece internamente e as informações que chegam ao público.
Conforme reúne documentos, ela decide procurar Jeff Horwitz, interpretado por Jeremy Allen White. A partir desse encontro, o jornalista começa a analisar o material e investigar o que realmente estava acontecendo dentro da plataforma.
Essa é uma das partes mais interessantes do filme. Acompanhamos a descoberta das informações, a preocupação com a divulgação e as possíveis consequências para todos os envolvidos. Existe uma curiosidade em saber o que os documentos revelam e como o jornalista conseguirá organizar tudo aquilo para transformar o material em uma reportagem.
O roteiro consegue explicar questões relacionadas aos algoritmos e às pesquisas internas sem deixar a história excessivamente técnica. Mesmo quando os personagens precisam discutir números, relatórios e decisões empresariais, as conversas continuam interessantes.
Mikey Madison e Jeremy Allen White são os grandes destaques*
Mikey Madison entrega uma boa atuação como Frances Haugen. Sua personagem demonstra segurança ao falar sobre o funcionamento da empresa, mas também deixa aparecer a preocupação com as consequências de tornar públicas aquelas informações.
Ela sabe a importância do material que possui e entende que sua decisão pode afetar diretamente sua vida profissional e pessoal. A atriz trabalha bem essa mistura de determinação e insegurança, principalmente nos momentos em que Frances precisa decidir em quem confiar.
Jeremy Allen White também está muito bem como Jeff Horwitz. O ator transmite a curiosidade e a inquietação de um jornalista que percebe estar diante de uma investigação muito maior do que imaginava inicialmente.
A relação entre os dois ajuda bastante no ritmo. As conversas possuem movimento, as descobertas despertam interesse e o trabalho jornalístico ganha importância sem depender de grandes acontecimentos para manter a atenção.
Jeremy Strong exagera na interpretação de Mark Zuckerberg
Um dos pontos que menos funcionam é a maneira como Mark Zuckerberg aparece no filme. Interpretado por Jeremy Strong, o empresário é apresentado como uma figura extremamente fria, controlada e quase incapaz de demonstrar emoções.
O problema é que essa característica acaba sendo exagerada. Em várias cenas, Zuckerberg parece mecânico demais, tanto na maneira de falar quanto nos movimentos e nas reações. A interpretação fica tão presa a esse comportamento que o personagem acaba parecendo uma caricatura.
Jeremy Strong demonstra dedicação ao papel, mas a construção escolhida para Zuckerberg não ajuda muito. Falta naturalidade em determinados momentos, principalmente quando ele precisa interagir com outros personagens.
A intenção de mostrar alguém distante e preocupado com o controle da empresa é compreensível. Só que o exagero acaba prejudicando essa representação. Em vez de tornar o empresário mais interessante, algumas cenas reforçam uma imagem tão rígida que fica difícil enxergar qualquer outra característica nele.
O discurso político acaba pesando em algumas cenas
Outro problema está na maneira como o roteiro trabalha determinadas questões políticas. O filme aborda desinformação, extremismo, radicalização e a circulação de conteúdos ligados à extrema-direita, assuntos que fazem parte das discussões envolvendo o Facebook naquele período.
São temas importantes e que possuem relação direta com a investigação. O incômodo aparece quando algumas cenas insistem demais em uma interpretação específica dos acontecimentos.
Em determinados momentos, os diálogos parecem preocupados em deixar uma mensagem política muito clara, mesmo quando a situação apresentada já seria suficiente para provocar uma discussão. Isso acaba tirando um pouco da naturalidade das conversas e deixando algumas sequências com um tom excessivamente explicativo.
A investigação possui material suficiente para mostrar os problemas da plataforma e permitir que o público tire suas próprias conclusões. Quando o roteiro insiste em reforçar o mesmo posicionamento, parte da tensão construída pelas descobertas perde espaço para discursos que poderiam ser mais discretos.
Esse excesso chama atenção principalmente porque Aaron Sorkin trabalha muito bem com diálogos. Nas cenas entre Frances e Jeff, as informações surgem de maneira interessante. Já em algumas discussões políticas, a impressão é de que os personagens estão falando mais para o público do que entre si.
Fotografia e ambientação ajudam a construir os bastidores da investigação
A parte visual de "O Outro Lado das Redes" é muito bem trabalhada. Os escritórios, as salas de reunião e as redações possuem uma aparência convincente, com ambientes que combinam com o universo das grandes empresas de tecnologia.
A fotografia aproveita bastante os espaços fechados. Corredores, paredes de vidro, computadores e salas de reunião aparecem com frequência e ajudam a transmitir a sensação de um ambiente corporativo onde praticamente tudo é observado e controlado.
Também existe um cuidado para não transformar a empresa em um lugar exageradamente tecnológico. Os ambientes parecem locais reais de trabalho, o que combina com uma história baseada em documentos, reuniões e decisões tomadas dentro de escritórios.
O som acompanha bem essa proposta. A trilha ganha presença conforme a investigação avança e ajuda a criar tensão em situações que, visualmente, são bastante simples. Muitas cenas dependem apenas de personagens conversando, lendo documentos ou analisando informações, e o trabalho sonoro contribui para manter o interesse.
A produção também acerta ao dar importância aos ambientes jornalísticos. A redação, as conversas entre profissionais e a análise dos documentos ajudam a mostrar o trabalho necessário para transformar uma denúncia em uma investigação consistente.
Uma história interessante que exagera ao tentar reforçar suas mensagens
"O Outro Lado das Redes" tem um assunto forte e consegue transformá-lo em uma investigação envolvente. A trajetória de Frances Haugen e a divulgação dos Facebook Files permitem acompanhar questões importantes sobre o funcionamento das plataformas digitais e a responsabilidade das empresas pelo conteúdo que circula nelas.
Mikey Madison e Jeremy Allen White são os principais destaques. Os dois funcionam muito bem juntos e conseguem sustentar a parte jornalística, que rende alguns dos melhores momentos do longa. A fotografia, a ambientação e o trabalho sonoro também mantêm um bom nível durante a história.
As ressalvas ficam principalmente com a representação de Mark Zuckerberg e com o peso dado a determinados discursos políticos. Jeremy Strong acaba exagerando na construção do empresário, enquanto algumas cenas insistem em explicar questões que o próprio desenvolvimento da investigação já deixa claras.
Ainda assim, "O Outro Lado das Redes" prende a atenção e aborda problemas que continuam presentes nas discussões sobre tecnologia e redes sociais. É interessante acompanhar como informações internas de uma empresa podem revelar decisões com consequências para milhões de usuários.
O filme tem seus melhores momentos quando acompanha Frances e Jeff tentando descobrir o que fazer com os documentos e como levar aquelas informações ao público. A investigação já é interessante o suficiente para sustentar a história. O excesso de explicações políticas e a caracterização de Zuckerberg acabam atrapalhando uma produção que funciona muito melhor quando se concentra nos acontecimentos e no trabalho dos personagens.
Publicado originalmente na Woo! Magazine.
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