Ben Affleck lança 'Sobrevivência' na Netflix: 'Uma narrativa propagada pode redefinir a verdade'
Em entrevista ao 'Estadão', o diretor e protagonista fala sobre a mensagem do filme e sobre trabalhar com Kerry Washington e Gillian Anderson
Ben Affleck dirige, escreve e protagoniza o suspense "Sobrevivência", lançamento da Netflix. Ao lado de Kerry Washington e Gillian Anderson, ele interpreta um candidato a prefeito que tem o filho sequestrado. Para além do resgate, a obra aprofunda segredos conjugais e propõe uma reflexão sobre como narrativas fabricadas manipulam a verdade tanto na arena política quanto nas relações pessoais, expondo as máscaras sociais usadas pelo casal sob extrema pressão.
Ben Affleck volta a equilibrar as funções de diretor, roteirista e protagonista em Sobrevivência, suspense que estreia na Netflix nesta sexta-feira, 9. Na sua versão do clássico enredo em que um homem tem um filho sequestrado e precisa resgatá-lo, Affleck vai além do que se espera de um filme como esse.
No papel de Mark Kimball, um candidato a prefeito de Los Angeles que, no auge da campanha eleitoral, precisa tomar decisões difíceis para ter o filho de volta, ele propõe uma reflexão sobre a diferença entre a verdade e a história que criamos a partir dela.
Para salvar o filho e controlar a narrativa sobre o caso, Mark e a esposa, a terapeuta Abigail, vivida por Kerry Washington (Scandal), são forçados pela negociadora misteriosa Dayle Burton, vivida por Gillian Anderson (Sex Education), a revelar seus maiores segredos.
É aí que Mark e Abigail percebem que não usam máscaras e criam personas apenas para convencer a opinião pública e conquistar o eleitorado nos palanques pela cidade, mas também dentro do próprio lar.
"Vivemos um momento em que não importa se todos nós sabemos a verdade. Se propagarmos uma narrativa, essa história pode se tornar tão dominante a ponto de redefinir a verdade", diz Affleck em entrevista ao Estadão.
Para ele, a questão vai além da política, sendo possível traçar um paralelo direto com relacionamentos pessoais: "Qual é a história que conto a mim mesmo sobre meu casamento? Qual é a história que conto para minha esposa sobre quem eu sou? E o que conto a mim mesmo sobre como ela se sente em relação a mim?".
O filme se passa, em sua maior parte, na casa de Mark e Abigail, onde trabalha a imigrante Cecilia (Adriana Paz, de Emilia Pérez), uma antiga funcionária da família que está em busca de uma oportunidade de trabalho para o namorado, Ramon (Luis Gerardo Méndez, de Narcos: México), que vive ilegalmente no país. Na maioria das cenas em que contracena com os dois, Ben Affleck fala em espanhol.
Responsável por cuidar de Denny, filho de Mark e Abigail, no momento do sequestro, Cecilia assume um papel importante na dinâmica do filme.
Para Adriana Paz, falar sobre este tema em um filme de suspense com um elenco estrelado e distribuído por uma grande plataforma de streaming pode fazer com que mais pessoas se questionem sobre o mundo ao redor. "Para mim, era importante interpretar uma trabalhadora. Existem muitos clichês sobre os latinos e é incrível que nossos personagens não são vítimas, são pessoas que podem tomar as próprias decisões", diz ela.
O parceiro de Cecilia também é arrastado para o caos que se instalou na casa dos Kimball: "Nossos personagens assumem os maiores riscos, têm menos proteção e muito mais a perder."
Para trabalhar com Ben Affleck pela primeira vez, Gillian Anderson voltou à Netflix após viver personagens de sucesso como a doutora Jean Milburn, de Sex Education, e Margaret Thatcher em The Crown: "Particularmente, acho que nunca interpretei uma personagem tão impassível e inescrutável".
Mais um filme sobre sequestro?
Hollywood é feita de arcos narrativos que tendem a se repetir tantas vezes que quase se tornam um gênero próprio.
Às vezes, estúdios concorrentes lançam produções semelhantes em um curto espaço de tempo entre uma estreia e outra - Espelho, Espelho Meu, estrelado por Lily Collins, e Branca de Neve e o Caçador, protagonizado por Kristen Stewart, inspirados no conto de fadas, foram lançados com meses de diferença em 2012. Amizade Colorida, com Justin Timberlake e Mila Kunis, e Sexo sem Compromisso, com o marido de Mila, Ashton Kutcher, e Natalie Portman, estrearam em 2011 e contavam, basicamente, a mesma história de um casal que não queria misturar prazer e compromisso.
Os exemplos são muitos. Foi justamente uma dessas coincidências que fez com que Sobrevivência virasse um filme bem diferente do originalmente planejado. Duas semanas antes de começar as gravações, quando o melhor amigo e parceiro de longa data Matt Damon estaria no papel principal e a ex-esposa, Jennifer Garner, coestrelando a produção, Affleck, como diretor, decidiu parar as máquinas e abortar a missão de gravar aquele filme.
Ele ouviu de alguém da indústria que Spike Lee e Denzel Washington estavam produzindo Luta de Classes, filme da A24 que também tinha um sequestro como pano de fundo. Affleck não queria passar a impressão de estar criando uma versão concorrente. "Eu já estive em um de dois filmes sobre asteroides", disse ele à revista Entertainment Weekly, brincando com o fato de ter estrelado Armageddon, do diretor Michael Bay, no mesmo ano em que Impacto Profundo, de Mimi Leder, foi lançado, em 1998.
Meses depois, quando Affleck mudou de ideia ao perceber que o roteiro era original o suficiente, Matt Damon já estava comprometido com as gravações de A Odisseia, de Christopher Nolan. Com Damon assumindo apenas uma posição de produtor do filme, ele decidiu ficar com o papel principal e dar vida ao candidato à prefeitura de Los Angeles.
Por temer que a história real entre os dois distraísse os espectadores, Jennifer Garner deixou a produção. Foi aí que entrou Kerry Washington. "Já fiz muitos personagens que enfrentaram grandes sistemas ou governos poderosos. Foi incrível interpretar alguém que está enfrentando obstáculos internos, psicológicos e íntimos com o próprio marido", disse ela ao Estadão, sobre viver Abigail Kimball.
Kerry e Affleck trocaram elogios durante a entrevista. Ela falou sobre a atitude colaborativa de Ben enquanto diretor: "Abrimos o roteiro e conversamos página por página, cena por cena. Ele permitia sugestões em trechos que achava que cabia e, quando não era o caso, dizia 'não, isso não vamos fazer'. É o que um grande diretor faz".
Em resposta, ele brincou: "Kerry escreveu o filme." Em seguida, disse não acreditar que o filme seria autêntico e honesto se ela não pudesse ser uma espécie de coautora. "Acho que Kerry seria uma diretora incrível e incentivo-a a dirigir um filme. Se ela decidir fazer isso, veremos algo excelente", finaliza.
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