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'Hope' é um blockbuster que coloca a humanidade em seu devido lugar

Com ação grandiosa e humor absurdo, filme sul-coreano usa o cinema de invasão alienígena para falar sobre violência, guerra e a pequenez humana diante do desconhecido

13 out 2026 - 18h11
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Resumo
O longa sul-coreano "Hope", de Na Hong-jin, reinventa a ficção científica ao focar no caos da sobrevivência humana diante de um ataque alienígena brutal. Mais que um filme de ação com estética frenética e referências ao cinema ocidental, a obra desconstrói clichês heroicos ao expor a fragilidade, a tosquice e a incapacidade de diálogo da humanidade. O longa esbate a linha entre vítimas e algozes, transformando a invasão em uma crítica à violência desmedida e à arrogância da nossa espécie.

Filmes sobre criaturas extraterrestres em contato com pessoas na Terra não são novidade. Só em 2026, por exemplo, Steven Spielberg voltou ao tema com o fascinante Dia D, enquanto Ryan Gosling fez amizade com um alienígena em formato de pedra no bom Devorador de Estrelas. Mas nenhum chegou perto da ousadia criativa e estética de Hope, longa-metragem sul-coreano que chegou aos cinemas brasileiros na quinta, 8.

Dirigido e roteirizado pelo inventivo Na Hong-jin, de O Lamento, o filme acompanha uma cidade isolada por incêndios florestais que precisa lidar com o ataque de criaturas extraterrestres. É brutal: animais, idosos, crianças e mulheres são mortos violentamente, sem qualquer clemência, enquanto os aliens parecem buscar algo que não está claro desde o início. Hong-jin, mais do que realmente contar a história da chegada das criaturas ao planeta Terra, vai por outro caminho: simplesmente mostra os humanos tentando sobreviver.

Em 'Hope', as cenas de ação desbancam qualquer filme recente de Hollywood
Em 'Hope', as cenas de ação desbancam qualquer filme recente de Hollywood
Foto: Imagem Filmes/ Divulgação / Estadão

É, assim, um filme muito mais calcado em clima e ambiente do que em narrativa — algo que lembra outra grande produção sul-coreana, Invasão Zumbi, sucesso absoluto de dez anos atrás. Há, sim, tramas sendo desenroladas aqui, como o policial Beom Seok (Hwang Jung-min) tentando dar um jeito no caos, ao melhor estilo dos personagens desafortunados dos irmãos Coen. Mas são coisas pequenas perto da grandiosidade do ambiente construído por Hong-jin.

As cenas de ação, por exemplo, dão aula para o cinema de Hollywood. A câmera é frenética, mas nunca inconsciente; corre, tropeça, acompanha cavalos, pessoas e criaturas e ajuda a dar dimensão ao tamanho do problema. Não há aquela sensação habitual de que estamos vendo uma sequência de ação cuidadosamente organizada para o espectador. Em Hope, o caos parece realmente estar acontecendo diante dos nossos olhos.

Aos poucos, mesmo sem conhecer profundamente aqueles personagens, o espectador vai ficando imerso na proposta de simplesmente observar os humanos tentando sobreviver, aos trancos e barrancos. É cinema de ação puro, com cenas de tirar o fôlego, mas também uma ficção científica bem azeitada, com ares de Avatar, uma aventura de sobrevivência ao estilo Mad Max e, principalmente, uma comédia que quer colocar o ser humano em seu devido lugar.

Quando o alienígena deixa de ser o vilão

E talvez esteja aí a principal chave para entender Hope. Depois da exibição no Festival de Cannes deste ano, muitos críticos, principalmente americanos, não entenderam muito bem a proposta. Apostaram que Hong-jin estaria fazendo uma grande piada com o cinema hollywoodiano, numa sátira que mistura Velozes & Furiosos, Alien e Transformers. É uma leitura possível — e o filme certamente brinca com esse imaginário —, mas ela é pequena demais para explicar o que o diretor está fazendo.

Hope não parece interessado simplesmente em ridicularizar Hollywood. Está muito mais preocupado em ridicularizar a humanidade.

'Hope' fala muito sobre a humanidade em crise
'Hope' fala muito sobre a humanidade em crise
Foto: Imagem Filmes/ Divulgação / Estadão

A cidade inteira é colocada diante de algo que não consegue compreender. Os humanos tentam reagir como humanos: atacam, fogem, desconfiam, procuram culpados, criam estratégias e, sobretudo, matam. Enquanto isso, os extraterrestres são apresentados inicialmente como monstros sem explicação. Aos poucos, porém, essa relação começa a se inverter. O espectador descobre que talvez não exista uma divisão tão simples entre vítimas e algozes — e que a violência de um lado pode ser consequência direta da violência do outro.

Há uma sequência particularmente brilhante em que um personagem idoso descreve, de maneira escatológica, o primeiro contato que teve com os extraterrestres. Poderia, sim, ser mais um comentário ao cinema americano e à forma como o gênero costuma representar o contato com o desconhecido. Mas é, no fundo, algo mais interessante: um comentário sobre a fragilidade, a vulgaridade e a tosquice do Homo sapiens diante de algo que não consegue compreender.

É isso que une boa parte da ideia e do sentimento de Hope. Carne, osso, sangue e fezes são os elementos que constituem os seres vivos que habitam a Terra. Diante do desconhecido — do espaço, do tempo, de outras sociedades —, toda a nossa pretensa superioridade parece desaparecer.

Uma guerra que começa pela falta de conversa

Hong-jin leva essa ideia para um terreno ainda mais incômodo quando introduz a guerra como uma das chaves do filme. A violência não surge simplesmente porque existem criaturas malignas interessadas em destruir seres humanos. Ela nasce também de uma sequência de ações, reações e incompreensões. Um lado não entende o outro; o outro responde; o primeiro reage novamente. E, quando todos percebem, a conversa já foi substituída pela vingança.

Uma das criaturas de 'Hope'
Uma das criaturas de 'Hope'
Foto: Neon/ Divulgação / Estadão

Uma virada de chave logo no final do primeiro ato, intensificada posteriormente, muda a maneira como enxergamos os extraterrestres. O vilão deixa de ser necessariamente vilão apenas porque mata. Há uma história por trás daquela violência, e a vingança passa a ter um sentido. Bebendo da fonte de Zach Cregger e dialogando com o recente Resident Evil, Hong-jin cria, assim, uma espécie de círculo de brutalidade em que ninguém parece capaz de interromper a guerra porque ninguém consegue — ou quer — conversar.

É uma ideia que aproxima Hope de um mundo muito mais contemporâneo do que sua premissa de ficção científica poderia sugerir. A desumanização do outro, a incapacidade de diálogo e a facilidade com que conflitos se transformam em matança fazem do filme uma história sobre guerras muito mais do que uma simples aventura sobre alienígenas.

E, claro, existe a leitura de que Hong-jin está também fazendo uma piada com tudo aquilo que é produzido no Ocidente. Faz sentido. O diretor usa efeitos especiais que, em determinados momentos, parecem deliberadamente antiquados, toma decisões que beiram o absurdo e coloca atores europeus como Alicia Vikander e Michael Fassbender, metamorfoseados em extraterrestres, para atacar personagens e cidades orientais. Há ainda uma quantidade enorme de referências ao cinema de gênero americano — de Tubarão a O Enigma de Outro Mundo, passando pelo cinema dos irmãos Coen e por outras produções que ajudaram a formar o imaginário de Hong-jin. Mas Hope passa por tudo isso sem se tornar uma sátira de Hollywood.

O que ele faz é mais curioso: pega a linguagem do blockbuster americano e a utiliza para contar uma história que desmonta justamente a visão de mundo que costuma estar por trás dele. Em vez de uma humanidade heroica se unindo para derrotar o invasor, temos seres humanos confusos, mesquinhos, engraçados, violentos e assustados. Em vez de uma criatura absolutamente maligna, temos algo que também possui seus motivos. E, em vez de uma guerra entre "nós" e "eles", existe a percepção incômoda de que talvez todos sejam apenas seres tentando sobreviver.

Por isso, Hope funciona melhor quando não precisa explicar suas próprias ideias. Ao longo de 160 minutos, Hong-jin constrói um filme para ser sentido antes de ser completamente compreendido. A injustiça, o humor absurdo, o sangue, as cenas de ação, o desconforto e até os momentos em que o filme parece deliberadamente tosco fazem parte da mesma experiência.

No fim, talvez a maior provocação de Hope não seja imaginar o que aconteceria se extraterrestres chegassem à Terra. É imaginar como nós, seres humanos, reagiríamos ao descobrir que não somos mais os protagonistas do mundo. E, diante disso, talvez a esperança do título não esteja exatamente em vencer os aliens. Está em conseguir olhar para o outro antes de decidir matá-lo.

Estadão
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