'Hope' é um blockbuster que coloca a humanidade em seu devido lugar
Com ação grandiosa e humor absurdo, filme sul-coreano usa o cinema de invasão alienígena para falar sobre violência, guerra e a pequenez humana diante do desconhecido
O longa sul-coreano "Hope", de Na Hong-jin, reinventa a ficção científica ao focar no caos da sobrevivência humana diante de um ataque alienígena brutal. Mais que um filme de ação com estética frenética e referências ao cinema ocidental, a obra desconstrói clichês heroicos ao expor a fragilidade, a tosquice e a incapacidade de diálogo da humanidade. O longa esbate a linha entre vítimas e algozes, transformando a invasão em uma crítica à violência desmedida e à arrogância da nossa espécie.
Filmes sobre criaturas extraterrestres em contato com pessoas na Terra não são novidade. Só em 2026, por exemplo, Steven Spielberg voltou ao tema com o fascinante Dia D, enquanto Ryan Gosling fez amizade com um alienígena em formato de pedra no bom Devorador de Estrelas. Mas nenhum chegou perto da ousadia criativa e estética de Hope, longa-metragem sul-coreano que chegou aos cinemas brasileiros na quinta, 8.
Dirigido e roteirizado pelo inventivo Na Hong-jin, de O Lamento, o filme acompanha uma cidade isolada por incêndios florestais que precisa lidar com o ataque de criaturas extraterrestres. É brutal: animais, idosos, crianças e mulheres são mortos violentamente, sem qualquer clemência, enquanto os aliens parecem buscar algo que não está claro desde o início. Hong-jin, mais do que realmente contar a história da chegada das criaturas ao planeta Terra, vai por outro caminho: simplesmente mostra os humanos tentando sobreviver.
É, assim, um filme muito mais calcado em clima e ambiente do que em narrativa — algo que lembra outra grande produção sul-coreana, Invasão Zumbi, sucesso absoluto de dez anos atrás. Há, sim, tramas sendo desenroladas aqui, como o policial Beom Seok (Hwang Jung-min) tentando dar um jeito no caos, ao melhor estilo dos personagens desafortunados dos irmãos Coen. Mas são coisas pequenas perto da grandiosidade do ambiente construído por Hong-jin.
As cenas de ação, por exemplo, dão aula para o cinema de Hollywood. A câmera é frenética, mas nunca inconsciente; corre, tropeça, acompanha cavalos, pessoas e criaturas e ajuda a dar dimensão ao tamanho do problema. Não há aquela sensação habitual de que estamos vendo uma sequência de ação cuidadosamente organizada para o espectador. Em Hope, o caos parece realmente estar acontecendo diante dos nossos olhos.
Aos poucos, mesmo sem conhecer profundamente aqueles personagens, o espectador vai ficando imerso na proposta de simplesmente observar os humanos tentando sobreviver, aos trancos e barrancos. É cinema de ação puro, com cenas de tirar o fôlego, mas também uma ficção científica bem azeitada, com ares de Avatar, uma aventura de sobrevivência ao estilo Mad Max e, principalmente, uma comédia que quer colocar o ser humano em seu devido lugar.
Quando o alienígena deixa de ser o vilão
E talvez esteja aí a principal chave para entender Hope. Depois da exibição no Festival de Cannes deste ano, muitos críticos, principalmente americanos, não entenderam muito bem a proposta. Apostaram que Hong-jin estaria fazendo uma grande piada com o cinema hollywoodiano, numa sátira que mistura Velozes & Furiosos, Alien e Transformers. É uma leitura possível — e o filme certamente brinca com esse imaginário —, mas ela é pequena demais para explicar o que o diretor está fazendo.
Hope não parece interessado simplesmente em ridicularizar Hollywood. Está muito mais preocupado em ridicularizar a humanidade.
A cidade inteira é colocada diante de algo que não consegue compreender. Os humanos tentam reagir como humanos: atacam, fogem, desconfiam, procuram culpados, criam estratégias e, sobretudo, matam. Enquanto isso, os extraterrestres são apresentados inicialmente como monstros sem explicação. Aos poucos, porém, essa relação começa a se inverter. O espectador descobre que talvez não exista uma divisão tão simples entre vítimas e algozes — e que a violência de um lado pode ser consequência direta da violência do outro.
Há uma sequência particularmente brilhante em que um personagem idoso descreve, de maneira escatológica, o primeiro contato que teve com os extraterrestres. Poderia, sim, ser mais um comentário ao cinema americano e à forma como o gênero costuma representar o contato com o desconhecido. Mas é, no fundo, algo mais interessante: um comentário sobre a fragilidade, a vulgaridade e a tosquice do Homo sapiens diante de algo que não consegue compreender.
É isso que une boa parte da ideia e do sentimento de Hope. Carne, osso, sangue e fezes são os elementos que constituem os seres vivos que habitam a Terra. Diante do desconhecido — do espaço, do tempo, de outras sociedades —, toda a nossa pretensa superioridade parece desaparecer.
Uma guerra que começa pela falta de conversa
Hong-jin leva essa ideia para um terreno ainda mais incômodo quando introduz a guerra como uma das chaves do filme. A violência não surge simplesmente porque existem criaturas malignas interessadas em destruir seres humanos. Ela nasce também de uma sequência de ações, reações e incompreensões. Um lado não entende o outro; o outro responde; o primeiro reage novamente. E, quando todos percebem, a conversa já foi substituída pela vingança.
Uma virada de chave logo no final do primeiro ato, intensificada posteriormente, muda a maneira como enxergamos os extraterrestres. O vilão deixa de ser necessariamente vilão apenas porque mata. Há uma história por trás daquela violência, e a vingança passa a ter um sentido. Bebendo da fonte de Zach Cregger e dialogando com o recente Resident Evil, Hong-jin cria, assim, uma espécie de círculo de brutalidade em que ninguém parece capaz de interromper a guerra porque ninguém consegue — ou quer — conversar.
É uma ideia que aproxima Hope de um mundo muito mais contemporâneo do que sua premissa de ficção científica poderia sugerir. A desumanização do outro, a incapacidade de diálogo e a facilidade com que conflitos se transformam em matança fazem do filme uma história sobre guerras muito mais do que uma simples aventura sobre alienígenas.
E, claro, existe a leitura de que Hong-jin está também fazendo uma piada com tudo aquilo que é produzido no Ocidente. Faz sentido. O diretor usa efeitos especiais que, em determinados momentos, parecem deliberadamente antiquados, toma decisões que beiram o absurdo e coloca atores europeus como Alicia Vikander e Michael Fassbender, metamorfoseados em extraterrestres, para atacar personagens e cidades orientais. Há ainda uma quantidade enorme de referências ao cinema de gênero americano — de Tubarão a O Enigma de Outro Mundo, passando pelo cinema dos irmãos Coen e por outras produções que ajudaram a formar o imaginário de Hong-jin. Mas Hope passa por tudo isso sem se tornar uma sátira de Hollywood.
O que ele faz é mais curioso: pega a linguagem do blockbuster americano e a utiliza para contar uma história que desmonta justamente a visão de mundo que costuma estar por trás dele. Em vez de uma humanidade heroica se unindo para derrotar o invasor, temos seres humanos confusos, mesquinhos, engraçados, violentos e assustados. Em vez de uma criatura absolutamente maligna, temos algo que também possui seus motivos. E, em vez de uma guerra entre "nós" e "eles", existe a percepção incômoda de que talvez todos sejam apenas seres tentando sobreviver.
Por isso, Hope funciona melhor quando não precisa explicar suas próprias ideias. Ao longo de 160 minutos, Hong-jin constrói um filme para ser sentido antes de ser completamente compreendido. A injustiça, o humor absurdo, o sangue, as cenas de ação, o desconforto e até os momentos em que o filme parece deliberadamente tosco fazem parte da mesma experiência.
No fim, talvez a maior provocação de Hope não seja imaginar o que aconteceria se extraterrestres chegassem à Terra. É imaginar como nós, seres humanos, reagiríamos ao descobrir que não somos mais os protagonistas do mundo. E, diante disso, talvez a esperança do título não esteja exatamente em vencer os aliens. Está em conseguir olhar para o outro antes de decidir matá-lo.
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