'NAZA' é retrato assustador dos mecanismos por trás da violência em Gaza
Dos mesmos diretores de Sem Chão, documentário investiga os mecanismos militares e tecnológicos por trás dos ataques à população palestina
O documentário "NAZA", de Yuval Abraham e Rachel Szor, expõe a fria engrenagem militar de Israel na guerra em Gaza por meio de depoimentos anônimos de agentes de inteligência. A obra revela como civis são calculados como perdas aceitáveis através do termo "NAZA", que prevê mortes em ataques guiados por inteligência artificial. Sem depender de imagens explícitas, o filme choca pela naturalidade dos relatos, transformando a desumanização planejada em uma denúncia jornalística urgente e indispensável.
Notável como o trabalho da dupla Yuval Abraham e Rachel Szor continua relevante, chocante e, sobretudo, atual. Embora parte dos críticos torça o nariz para o uso indiscriminado do termo "necessário" ao falar de cinema, NAZA se revela, sim, um filme dessa categoria. Não apenas pela maneira como aborda um dos episódios mais devastadores da história recente, mas também pelo seu próprio valor jornalístico.
Em um cenário no qual a guerra em Gaza corre o risco de se transformar em mais uma sucessão de números, manchetes e imagens que rapidamente dão lugar a novas tragédias, o documentário encontra uma forma de apresentar informações que precisam continuar circulando. Há aqui valores-notícia fundamentais: atualidade, interesse público, magnitude, conflito e, principalmente, ineditismo. Afinal, não se trata apenas de revisitar uma realidade conhecida, mas de revelar os mecanismos internos de uma operação militar que permanece em curso.
Dos mesmos realizadores de Sem Chão, vencedor do Oscar de Melhor Documentário, o longa reafirma o compromisso de Abraham e Szor com um cinema de investigação e denúncia, capaz de levar o espectador para além daquilo que já imagina conhecer. Se no trabalho anterior a dupla acompanhava a violência da ocupação israelense a partir da convivência entre palestinos e israelenses, agora a perspectiva é ainda mais perturbadora: a tragédia de Gaza é apresentada pelo ponto de vista de quem participa diretamente desse genocídio.
A partir de depoimentos anônimos de militares e integrantes da inteligência israelense, o filme revela procedimentos, sistemas e decisões que ajudam a compreender como os ataques à população palestina são planejados. É uma abordagem que não depende de imagens de destruição ou de uma montagem construída para nos chocar. O horror está nas próprias palavras de quem descreve o funcionamento dessa engrenagem, muitas vezes com uma naturalidade que torna os relatos ainda mais difíceis de assimilar.
É daí, inclusive, que vem o título: NAZA é uma sigla empregada no contexto da inteligência militar israelense para indicar uma estimativa de quantos civis podem morrer durante determinada operação. A existência de uma terminologia tão específica para contabilizar vidas humanas já diz muito sobre a lógica que o documentário procura expor. Casas, famílias e pessoas passam a integrar cálculos, planilhas e sistemas de inteligência artificial, enquanto a morte deixa de ser uma consequência indesejada para se tornar uma variável prevista e incorporada ao planejamento militar. Ora, para eles, tudo bem se 20 NAZAs morrerem junto de um líder do Hamas.
Os relatos são chocantes não apenas pelo conteúdo, mas também — e talvez principalmente — pela naturalidade com que procedimentos tão brutais são descritos. A morte aparece como parte de um processo, submetida a critérios e estimativas que transformam vidas em números. Em determinado momento, um dos entrevistados explica que atacar residências durante a noite, quando as famílias estão reunidas, pode ser uma estratégia mais certeira do que fazê-lo durante o dia, quando seus integrantes estão dispersos.
Em outra passagem, ao ser questionado sobre o que se ouve ao acompanhar os instantes finais da vida de alguém, responde simplesmente: "De tudo" — de choro de bebês a conversas cotidianas, orações e televisores ligados. A banalidade dessas imagens sonoras, descritas sem aparente constrangimento, torna a situação ainda mais perturbadora. É nessa frieza que reside boa parte do horror: a desumanização não começa quando uma bomba é lançada, mas muito antes, quando determinadas existências passam a ser consideradas perdas aceitáveis.
Também merece destaque a maneira como Abraham e Szor extraem esses depoimentos. Filmado à noite, nos telhados de Tel Aviv, o documentário apresenta os entrevistados escondidos pelas sombras, com seus rostos parcialmente encobertos, em um espaço que, embora pareça oferecer alguma proteção, nunca está completamente isolado do mundo exterior. Do alto dos edifícios, a cidade invade com sirenes que anunciam a necessidade de procurar abrigos, ruídos dos automóveis e aviões e movimentações que interrompem o silêncio, enquanto a própria paisagem de Tel Aviv parece lembrar que a guerra não está tão distante quanto alguns gostariam de acreditar.
A escolha estética aproxima o documentário de um thriller de espionagem, criando uma atmosfera de tensão e vulnerabilidade que contrasta com a posição privilegiada de quem fala. Os depoentes estão protegidos pelo anonimato, mas também é surpreendente que tenham aceitado falar sobre as atrocidades que cometeram sem qualquer tipo de pudor ou remorso aparente. E há algo ainda mais perturbador nessa ausência de rostos. Quando as vítimas são reduzidas a números e os responsáveis permanecem sem identidade, a violência se transforma em um processo sem personagens. O mal não tem cara — e, dentro dessa lógica, os palestinos também deixam de ter uma.
É justamente por isso que NAZA se mostra tão poderoso. Não parece existir aqui a ilusão de que revelar os mecanismos da violência será suficiente para provocar uma mudança imediata da postura internacional. O filme não depende dessa expectativa para justificar sua existência. Seu papel é outro: interromper a naturalização de uma tragédia que, pela repetição, corre o risco de se tornar apenas mais uma estatística. Uma guerra em curso pode ser resumida em números em questão de segundos; uma quantidade de mortos aparece no noticiário, desaparece da manchete no dia seguinte e dá lugar a uma nova contagem.
O cinema de NAZA, portanto, nos permite processar essas informações e compreender o peso daquilo que está sendo descrito. Abraham e Szor não precisam recorrer a artifícios emocionais para provocar indignação — ok, deixam um pouco disso para os minutos finais. Em suma, ao colocar o espectador diante de pessoas que participaram dessas operações e permitir que elas próprias descrevam seus procedimentos, a dupla transforma informação em denúncia e registro em reflexão. O resultado faz de NAZA um filme tão incômodo quanto indispensável.
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