'JFK Tapes': Filme traz detalhes do dia que chocou os EUA
Passados 46 anos, às vezes parece que o dia 22 de novembro de 1963 teve apenas 26 segundos de duração. Essa é mais ou menos a duração do filme de Abraham Zapruder, as imagens de um cinegrafista amador que capturaram o assassinato do presidente John Kennedy de maneira mais exata que quaisquer outras das imagens obtidas naquele dia.
Mas aquele dia, como todos os demais, teve 24 horas, e para obter uma percepção real do que o assassinato do presidente causou no país é preciso observar o dia inteiro, bem como os diversos dias movimentados que se seguiram, com o máximo de detalhes.
The Lost JFK Tapes: The Assassination, que foi exibido na noite de segunda-feira (23) pelo National Geographic Channel, faz exatamente isso, criando uma narrativa momento a momento sobre o evento, baseada em numerosos registros fotográficos e cinematográficos, a maioria dos quais bem menos conhecidos que as imagens de Zapruder. O programa evita as usuais intrusões dos documentários: não há entrevistas atuais com antigos agentes do serviço secreto ou funcionários do governo que relatam suas lembranças e oferecem interpretações sobre os acontecimentos; tampouco há comentários de professores de história explicando o que está na tela. E isso é fascinante.
O diretor Tom Jennings e sua equipe mostram atenção aguçada a pequenos detalhes que revelam muito. Naquela manhã, em Fort Worth, a primeira parada de Kennedy antes de prosseguir rumo a Dallas, Raymond Buck, presidente da Câmara de Comércio da cidade, presenteou o presidente com um chapéu texano, que Kennedy estranhamente se recusou a colocar diante da plateia. "Vou usá-lo na Casa Branca segunda-feira", disse o presidente. Mas a segunda-feira foi o dia de seu enterro no Cemitério Nacional de Arlington.
Jennings também sabe que imagens não usar. O vídeo muito repetido do telejornalista Walter Cronkite tentando manter suas emoções sob controle ao anunciar o crime não é usado. O foco são os jornalistas presentes no local e seu esforço para obter os fatos e compreendê-los.
"Eu gostaria de falar pela cidade de Dallas", diz Jay Watson, diretor de programação da WFAA-TV, em Dallas, em um momento de tocante humanidade pouco depois da confirmação da morte de Kennedy. "Estamos todos envergonhados, no momento".
Também é Watson que aparece pouco depois entrevistando um homem que levou à estação de TV um filme caseiro que havia gravado na estação. O nome do homem era Abraham Zapruder.
O programa está repleto de pequenos detalhes como esse. Vemos as sementes do que se tornaria a obsessão nacional com o assassinato de Kennedy, plantadas já naquelas primeiras horas. Imediatamente depois que Lee Harvey Oswald foi morto a tiros por Jack Ruby, um apresentador de TV especula no ar que isso provavelmente aconteceu para silenciá-lo.
Apenas três pessoas morreram como resultado dos acontecimentos daquele dia do passado distante: o presidente, Oswald e um policial de Dallas chamado J. D. Tippit. Mas o programa deixa claro que não é incorreto comparar o assassinato e os fatos subsequentes aos eventos muito mais letais do 11 de setembro. Os presentes todos viveram a mesma sensação de que eventos inimagináveis estavam em curso, e mais rápido do que seria possível compreender, a mesma sensação de que o mundo havia mudado em um piscar de olhos. Se pessoas de uma certa idade imaginam por que o assassinato de John Kennedy continua a ser preocupação para tanta gente, as centenas de rostos traumatizados que passam pela tela neste documentário devem servir como explicação suficiente.