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Itália reabre investigação sobre assassinato de Pier Paolo Pasolini após 51 anos

Nova testemunha e imagens de arquivo podem ajudar a esclarecer as circunstâncias da morte do cineasta, encontrado brutalmente ferido em uma praia nos arredores de Roma, em 1975

4 nov 2026 - 11h12
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Resumo
O Ministério Público de Roma reabriu a investigação sobre o assassinato do cineasta Pier Paolo Pasolini, ocorrido há 51 anos. A decisão atende a um pedido do advogado Stefano Maccioni, que apresentou novas evidências, incluindo imagens de arquivo e a identificação de uma testemunha inédita que nunca depôs. O objetivo é esclarecer se outras pessoas participaram do crime, contestando a versão de que Giuseppe Pelosi, o único condenado pelo assassinato em 1975, teria agido completamente sozinho.

Mais de cinco décadas após a morte de Pier Paolo Pasolini, o Ministério Público de Roma autorizou a reabertura da investigação sobre o assassinato do cineasta, poeta e escritor italiano. A decisão foi comunicada em 2 de novembro, data que marcou 51 anos desde que seu corpo foi encontrado em uma praia de Ostia, nos arredores da capital italiana. Novos elementos apresentados à Justiça, incluindo a identificação de uma testemunha que nunca havia sido ouvida pelos investigadores, podem ajudar a esclarecer as circunstâncias do crime.

Itália reabre investigação sobre assassinato de Pier Paolo Pasolini após 51 anos (Heinz BrowersUnited Archives via Getty Images)
Itália reabre investigação sobre assassinato de Pier Paolo Pasolini após 51 anos (Heinz BrowersUnited Archives via Getty Images)
Foto: Rolling Stone Brasil

Pasolini tinha 53 anos quando foi assassinado, em 1975. Intelectual de esquerda e abertamente homossexual, ele era uma das figuras mais provocadoras da cultura italiana, com uma obra marcada por críticas sociais, políticas e religiosas. A brutalidade do crime e as sucessivas contradições envolvendo o único condenado pelo assassinato alimentaram suspeitas de que outras pessoas poderiam estar envolvidas.

O principal responsável pela iniciativa é o advogado Stefano Maccioni, que há 18 anos se dedica a investigar o caso. Em novembro de 2025, ele apresentou um novo dossiê ao Ministério Público, posteriormente complementado com informações obtidas a partir de registros jornalísticos e uma reavaliação das provas. Segundo o advogado, o material aponta para a existência de uma pessoa com conhecimento dos acontecimentos que nunca prestou depoimento às autoridades.

A identidade da possível testemunha e o conteúdo de suas informações ainda não foram divulgados. O novo procedimento foi encaminhado à promotora Silvia Santucci, que deverá conduzir as diligências. Entre os elementos apresentados também estão imagens de arquivo da televisão italiana, que podem contribuir para esclarecer a participação de outras pessoas na morte do cineasta.

O que aconteceu com Pier Paolo Pasolini?

O corpo de Pasolini foi encontrado em 2 de novembro de 1975 por um carpinteiro, na região litorânea de Ostia. O cineasta apresentava numerosos ferimentos e havia sido atropelado pelo próprio automóvel. Poucas horas depois, a polícia prendeu Giuseppe Pelosi, então com 17 anos, que estava dirigindo o carro da vítima.

Pelosi afirmou que havia conhecido Pasolini em Roma e que os dois tinham combinado um encontro sexual. Segundo sua primeira versão, ele matou o cineasta depois de reagir a uma suposta tentativa de violência. O jovem confessou o assassinato e acabou condenado a nove anos e sete meses de prisão.

As circunstâncias da morte, entretanto, levantaram questionamentos desde o início. Ao longo dos anos, Pelosi apresentou diferentes versões sobre o ocorrido. Em algumas delas, afirmou ter agido sozinho; em outras, disse que havia sido acompanhado por três homens ou até seis pessoas.

Em 2005, durante uma entrevista à televisão italiana, ele voltou atrás na confissão e declarou que Pasolini havia sido espancado por outros agressores, que teriam ameaçado sua família caso não assumisse a responsabilidade pelo crime. Pelosi morreu em 2017, aos 58 anos, sem que as contradições de seus depoimentos fossem esclarecidas.

Novas provas podem mudar o caso

A reabertura representa mais uma tentativa de esclarecer um assassinato que, ao longo de décadas, alimentou suspeitas de acobertamento e diferentes teorias sobre os responsáveis. Em 2010, a pedido de Maccioni, o Ministério Público já havia iniciado uma investigação complementar, encerrada cinco anos depois. Novas solicitações apresentadas pelo advogado em 2016 e 2023 também foram rejeitadas.

Desta vez, além da possível testemunha inédita, o material reúne imagens de arquivo e outros registros que, segundo Maccioni, podem ajudar a reconstruir os acontecimentos. O advogado afirma que há elementos suficientes para questionar a hipótese de que Pelosi tenha agido sozinho.

Outra questão envolve vestígios de DNA identificados em objetos e roupas relacionados ao crime. Exames realizados anteriormente apontaram diferentes perfis genéticos, mas não conseguiram identificar todas as pessoas que poderiam ter deixado os materiais. A possibilidade de aprofundar essas análises também integra as dúvidas que cercam o caso.

As suspeitas sobre a morte de Pasolini deram origem a livros, documentários, reportagens e investigações independentes. Entre as hipóteses levantadas ao longo dos anos estão o envolvimento do crime organizado, de grupos de extrema-direita e de pessoas interessadas em silenciar o artista por suas posições políticas e críticas à sociedade italiana.

Uma das teorias também relaciona o assassinato ao desaparecimento de rolos de película de Salò ou os 120 Dias de Sodoma (1975), último longa-metragem dirigido por Pasolini. Há suspeitas de que o cineasta tenha sido atraído a uma emboscada sob a promessa de recuperar o material roubado. Nenhuma dessas hipóteses, porém, foi comprovada judicialmente.

Para Maccioni, a reabertura representa um avanço, embora ainda exista um longo caminho até possíveis respostas. O advogado descreveu as novas evidências como pequenos fragmentos de um quebra-cabeça muito maior e afirmou que, mesmo depois de tantos anos, continua encontrando motivos para voltar ao caso.

Rolling Stone Brasil Rolling Stone Brasil
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