'Por dentro da Machosfera': como documentário conseguiu acesso aos influenciadores 'red pill'?
O jornalista e documentarista britânico Louis Theroux conta o processo para adentrar a rede de influência da subcultura masculina com ideais extremistas
O jornalista e documentarista britânico Louis Theroux conseguiu um acesso raro aos grupos da "machosfera", subcultura que preza pela superioridade masculina e se popularizou na internet com o crescimento das redes sociais. O resultado de sua investigação está em Por Dentro da Machosfera, documentário já disponível na Netflix que aborda o crescimento deste fenômeno e quem são os influenciadores por trás dele.
No filme, que tem cerca de 90 minutos, Theroux entrevista alguns dos porta-vozes mais influentes do movimento responsável pela cultura incel e pela ideia do "red pill", pessoas que, segundo ele, personificam um "machismo arrogante" e são, por vezes, "misóginos, homofóbicos, antissemita e racistas."
Grupos como os entrevistados e revelados pelo documentário são considerados influenciadores diretos em casos de violência contra mulheres, como os recentes que repercutiram em todo o Brasil. Eles acreditam em submissão feminina e propagam ódio e agressividade como sinônimo de poder. O discurso que menospreza mulheres se dissemina por conteúdos feitos para as redes sociais, gratuitos ou pagos.
Theroux diz que há três aspectos principais que regem esta lógica: riqueza, boa forma física e potência sexual, o que para ele é um comportamento quase primitivo.
"Existem milhões de horas de podcasts que abordam a crise da masculinidade — como vimos um declínio nos empregos e como houve esforços para corrigir a distorção patriarcal na sociedade, o que, por sua vez, desencadeou uma reação contrária", analisa, em entrevista ao Tudum, da Netflix.
"Acho que muitos meninos e homens estão perdidos, e quando veem uma resposta fácil — um cara musculoso que parece ser rico dizendo que não é culpa deles e há outra pessoa responsável — isso é muito atrativo."
Um dos traços mais fascinantes do documentário é o acesso obtido por Theroux a essa rede de influência. Ele mostra por dentro como funciona a lógica da "machosfera" e revela o negócio lucrativo que há por trás da ideia. Theroux conta que seus entrevistados são pessoas que, via de regra, não costumam acreditar na mídia e, por isso, poderiam não confiar nele para documentá-las. Mas alguns argumentos o ajudaram.
"Um deles foi o fato de que os programas que eu criei costumam agradar os mais jovens", admite ele, responsável por produções como Forbidden America e The Settlers. "Acho que eles conseguem ver em mim uma pessoa descontraída, de mente aberta, divertida e um pouco irreverente, que é agradável e não é moralista", explica, dizendo que a forma de se apresentar também acabou influenciando.
"Acho que tenho uma postura heterodoxa o suficiente para me identificar com as partes da cultura da internet que são provocativas. Outra coisa é que eles realmente não se importam com a possibilidade de serem cancelados, então acho que o risco para eles era baixo."
Tentando entender
O documentarista deixa claro que seu objetivo com o filme não é ridicularizar ou enganar seus entrevistados, mas também não acredita que esteja amplificando ideias e vozes potencialmente perigosas.
"Tento dizer a verdade, e os confronto da maneira apropriada. Não estou querendo arrumar briga, apenas entender, ter minhas perguntas respondidas e insistir nas partes que não fazem sentido para mim ou parecem perigosas. No fim do dia, quero criar um programa de TV que interesse às pessoas."