'Para Sempre Medo' é Oz Perkins sendo Oz Perkins, para o bem e para o mal
Novo filme do diretor de 'Longlegs' e 'O Macaco' tem atmosfera sufocante, mas roteiro que não sustenta o peso
Osgood Perkins, ou apenas Oz Perkins, é um diretor que não para. O cineasta, filho de Anthony Perkins, começou com uma carreira tímida, de filmes bem divisivos, mas ganhou impulso com seus dois últimos trabalhos, feitos em sequência: Longlegs, de 2024, em que traz Nicolas Cage como um maníaco assustador; e O Macaco, de 2025, inesperado terror-sátira. Agora, pelo terceiro ano consecutivo com uma estreia nas telonas, Perkins abraça o inesperado e o mundo da bruxaria com Para Sempre Medo, filme claustrofóbico em cartaz nos cinemas brasileiros.
A história é simples: um casal (Tatiana Maslany e Rossif Sutherland) vai passar alguns dias em isolamento dentro de uma cabana no meio de uma floresta — cenário clássico do folk horror, quase um clichê a essa altura. Para ela, tudo parece uma maravilha. O namorado é perfeito demais, o lugar é lindíssimo. Seria um sonho?
A partir daí, Perkins, junto com o roteirista Nick Lepard, tenta construir ali uma tensão que não depende de lógica, mas de sensação. É o barulho que a cabana faz e você não sabe de onde vem; é o bolo esquisito da vizinha misteriosa; é a visita inesperada e com expressões de mania, como se quisesse contar um segredo; é a sombra que passa e você não sabe o que é. O isolamento causa confusão, gerando, também, uma onda de paranoia. "O que estou fazendo aqui?" parece ser o mantra da personagem de Tatiana Maslany, sempre confusa e com medo.
Assim, em alguns momentos, o filme funciona. Há sustos efetivos e há uma ou duas imagens que ficam na cabeça depois que as luzes acendem. Tatiana Maslany, sempre lembrada pelo trabalho em She Hulk, carrega o filme com uma performance física e emocionalmente convincente de uma mulher sendo consumida pelo medo — talvez o elemento mais sólido de tudo que está na tela. Mas há um limite para o quanto a atmosfera aguenta sozinha.
Um roteiro sem rumo
Lepard é o mesmo roteirista de Animais Perigosos, aquele thriller de predadores que parecia mais interessado em ser esquisito do que em ser bom. Em Para Sempre Medo, o padrão se repete: a premissa tem potencial, os personagens têm forma, mas não têm densidade. O casal da história reage, sofre, grita — e o espectador nunca chega realmente perto deles o suficiente para que tudo isso importe de verdade, tampouco permite que o público entenda as relações e o que está acontecendo antes do final.
O espectador, naturalmente, desconfia do que está acontecendo, mas nunca há espaço para navegar na psiquê desses personagens. Falta espaço principalmente no desenvolvimento do personagem de Sutherland, que serve apenas como trampolim para os sustos e para a reviravolta final, nunca como base para algo mais concreto. Talvez se o filme tivesse uma estrutura como sugerida no trailer, dividido entre a visão dele e a visão dela pra mesma história, haveria mais espaço para entender os personagens.
Perkins tenta compensar essa falha com espaço e ritmo, que são de fato suas maiores virtudes como cineasta, mas nem um diretor com tamanha elegância visual consegue salvar um roteiro que não sabe exatamente o que quer dizer.
É inevitável comparar com O Macaco, que era absurdo, violento e propositalmente caricato — e funcionava precisamente porque abraçava isso. Ou, ainda, com Longlegs, um filme de psicopata que abraça a fantasia desde o início e, justamente por isso, dá medo e convence.
Para Sempre Medo quer ser mais sério, mais fechado, mais perturbador de uma forma quieta. O território do folk horror contemplativo tem muito espaço para ser explorado, mas aqui para no meio do caminho.
O que fica é um filme que assusta quando quer, incomoda quando precisa, mas que dificilmente alguém vai querer revisitar. Oz Perkins continua sendo um dos diretores de horror mais interessantes em atividade — só que Para Sempre Medo é a primeira vez que ele parece estar trabalhando com uma mão amarrada nas costas por conta de um roteiro que não sabe por onde ir.