'Dia D': Spielberg tem total domínio do cinema de espetáculo e escolhe a emoção para dar seu recado
Novo filme do cineasta, cheio de boas intenções, alguma ação, melodrama, sentimentalismo, perseguições com altas doses de adrenalina e música em excesso, é também um trabalho de retrospecto; leia a crítica
Dia D, o novo filme de Steven Spielberg, mostra as características típicas do diretor: boas intenções, alguma ação, melodrama, sentimentalismo, perseguições com altas doses de adrenalina, música em excesso (de John Williams). Tudo isso empacotado com domínio absoluto do cinema espetáculo.
Em Dia D (no original, Disclosure Day), Spielberg adota a linguagem da ficção científica para mandar um recado ao mundo atual. Mundo que ele vê à beira de uma guerra mundial, com o planeta sendo destruído e nenhuma esperança que valha a pena no horizonte.
Nesse ambiente, dois personagens vão se destacando na trama. Daniel (Josh O'Connor) é um gênio da matemática e da computação. Ele detém um segredo guardado a sete chaves, mas acha que precisa ser divulgado para o conhecimento da humanidade. Margaret (Emily Blunt) é a garota do tempo de um noticiário de TV no Kansas que, para sua perplexidade, começa a desenvolver capacidades que não sabe de onde vêm. Por exemplo, o domínio de línguas estrangeiras que ela não conhece. Ou a capacidade de ler mentes, adivinhar o passado e as angústias de qualquer pessoa que caia sob seu olhar.
O tônus da ação vem de que uma ONG superpoderosa detém o tal segredo e acha que ele tem de permanecer oculto porque a humanidade não suportaria conhecê-lo. Assim, promove uma perseguição mortal a quem pensa o contrário. Para Daniel, e seus aliados, a humanidade não apenas pode saber como se beneficiaria desse conhecimento.
Fosse Spielberg um diretor intelectual, entraria fundo nesse dilema - é melhor saber, mesmo que esse conhecimento seja perturbador? Ou é preferível manter as pessoas na ignorância, para o seu próprio bem? Quer dizer, uma oposição entre o pensamento iluminista que coloca o conhecimento a serviço da liberdade e o pensamento de fundo religioso, para o qual há mistérios que devem permanecer assim, ocultos da maioria e acessíveis apenas a alguns iniciados capazes de assimilá-los.
No entanto, para o bem ou para o mal, Spielberg é Spielberg e assim mantém-se na superfície porque seu domínio é mais o da emoção do que o da razão. O grande cinema se faz da junção entre as duas dimensões, do equilíbrio precário entre sentir e refletir. Mas não é o caso aqui. Essa ideia preciosa é encaminhada de maneira a não ferir suscetibilidades de quem vai ao cinema apenas para se divertir ou se emocionar. Ambos, de preferência. De qualquer forma, a ideia central poderia ter um rendimento maior, mas aí estaríamos no domínio do cinema de risco, o que não é o caso dos blockbuster e suas limitações comerciais.
No entanto, e em benefício de Spielberg podemos dizer isso, existe, em todo elenco uma personagem paradoxal, Jane (Eve Hewson), namorada de Daniel. Ela é uma pessoa religiosa que quase seguiu a vocação, mas depois a perdeu. Sua posição está no fio da navalha, resumindo o dilema entre o pensamento laico e o religioso. Seu diálogo com a superiora de sua ordem, madre Laura (Elizabeth Marvel) é bastante esclarecedor. Inclusive sobre os hipotéticos perigos de se saber demais e os malefícios que o conhecimento em excesso poderia causar à humanidade. O curioso é ser a madre superiora mais lúcida do que se poderia esperar.
Não faltam, entretanto, à estética de Spielberg a tradicional luta entre um herói e um vilão. Estes são personificados na figura de Hugo (Coman Domingo) e Noah (Colin Firth), que já estiveram juntos e agora agem em campos opostos. São os verdadeiros mentores da trama que encontra em Margaret e Daniel seus agentes mais à vista.
Há que se dizer também que Dia D é um filme de retrospecto, no qual um veterano de longo sucesso recapitula temas desenvolvidos durante toda sua carreira. Desde o senso de suspense presente já em seu primeiro longa, Encurralado (1972), quando ainda era um jovem promissor da Nova Hollywood, até como desenvolvedor de outros temas, agora na moda, porém já presentes na ficção há muito tempo, como a Inteligência Artificial e as ameaças que pode trazer. A revisão prossegue com o Spielberg interessado na vida fora do planeta Terra, como Contatos Imediatos do Terceiro Grau (1977) e ET, o Extraterrestre (1981). São evocações de toda uma obra e vida, mas sem o intimismo de Os Fabelmans (2022), sua obra mais autobiográfica, trazendo recordações da família e do nascente amor pelo cinema.
Deve-se acrescentar que, apesar de certa superficialidade e apelo à emoção, Dia D não deixa de ser um filme político. À maneira de Spielberg, ou seja, cautelosa e alusiva, denuncia a zona de sombra que cerca o poder, em particular aqueles governos de vocação autoritária. O título original, Disclosure Day, é mais fiel ao espírito do filme. Dia D evoca o desembarque na Normandia, momento-chave da Segunda Guerra Mundial. Não tem nada a ver com esse Disclosure Day que, literalmente, seria o dia da revelação.
Não por acaso, fala-se várias vezes no filme dos "oito bilhões" de habitantes do planeta Terra, que têm o direito de saber a verdade para depois decidir o que fazer. Ok, trata-se de uma verdade transcendental, que pode mudar crenças e concepções de vida. Ou simplesmente abrir horizontes mentais, que, convenhamos, andam um tanto estreitos em tempos que correm. Não é difícil evocar casos do passado e do presente de governos que se empenham em ocultar algumas verdades ao público - os papéis do Pentágono, o Caso Watergate, os arquivos de Jeffrey Epstein, etc.
Para bom entendedor, Dia D evoca, de forma crítica, a era das trevas do presidente Donald Trump. Mas o faz de forma tão alusiva e discreta que parece uma obra alegórica, pensada e realizada sob a sombra de uma ditadura em formação. Talvez seja isso mesmo.
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