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'A Terra do Meu Pai' usa Thomas Mann para retratar mundo partido ao meio após Segunda Guerra Mundial

Diretor polonês Pawel Pawlikowski transforma cinco dias na vida do Nobel de Literatura em um drama sobre família, exílio e polarização; 'Estou um pouco assustado', diz sobre o presente

2 nov 2026 - 05h46
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Resumo
O filme "A Terra do Meu Pai", de Pawel Pawlikowski, retrata a Alemanha devastada de 1949 através de uma viagem ficcionalizada do escritor Thomas Mann e suas tensões familiares. Filmada na Polônia após minuciosa recriação de época, a obra entrelaça dramas íntimos à cisão histórica do pós-guerra. O diretor traça um paralelo entre a polarização física daquele período e a atual radicalização impulsionada pelo ambiente digital, refletindo sobre uma sociedade dividida e sem espaço para o meio-termo.

Por um instante, Pawel Pawlikowski cogitou filmar em uma zona de guerra. Para contar a história de A Terra do Meu Pai, filme exibido na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e que chegou aos cinemas brasileiros nesta quinta-feira, 29, o diretor de Ida e Guerra Fria precisava reconstruir a Alemanha devastada do pós-guerra e não encontrava uma solução convincente. "Eu estava um pouco desesperado no começo. Pensei: vamos para algum lugar em guerra. Que ideia ruim", conta, rindo, em entrevista para jornalistas, com a presença do Estadão.

A saída estava na Polônia. Mais precisamente, na Baixa Silésia, região que pertenceu à Alemanha e preserva uma arquitetura que ajudou a recriar a paisagem do longa. Depois de meses de buscas, a equipe encontrou cerca de 15 locações em cidades como Legnica e Swidnica. Eram edifícios desgastados, espaços parcialmente danificados e cenários que carregavam as marcas de um mundo em reconstrução. "Eles tinham o começo de uma situação de pós-guerra", explica o cineasta.

Em A Terra do Meu Pai, essa paisagem não serve apenas para situar a história no tempo. É o cenário de uma sociedade que tenta decidir o que fazer com o próprio passado enquanto se divide em projetos políticos incompatíveis. Ambientado em 1949, o longa acompanha cinco dias da vida de Thomas Mann, escritor alemão vencedor do Nobel de Literatura, durante uma viagem pela Alemanha que emergia da derrota nazista.

O pai, por sua vez, ocupava uma posição igualmente contraditória. Com seis filhos, Thomas Mann encarnava uma figura patriarcal tradicional, embora sua vida interior e seus desejos fossem muito mais complexos do que essa imagem sugeria. Em seus diários, registrou pensamentos e sentimentos que ajudam a compreender as ambiguidades de sua personalidade — inclusive desejos em relação ao próprio filho Klaus.

Pawlikowski não quis transformar esse material em uma explicação definitiva sobre a família. O filme tampouco pretende oferecer um retrato abrangente da vida do escritor. "Não estou tão interessado em explicar a dinâmica familiar dos Mann. Estou interessado nessas três personagens, ou em duas personagens e uma ausente", afirma.

O que lhe interessa é o potencial dramático dessas relações, tratadas com a liberdade que teria ao trabalhar com personagens inteiramente ficcionais. O resultado é um filme em que a intimidade familiar e o conflito histórico se alimentam mutuamente: assim como as duas partes da Alemanha disputam o significado de Thomas Mann, os personagens parecem buscar, uns nos outros, respostas que nunca chegam a se completar.

O diretor admite que se preocupou com a reação alemã ao tratar o escritor como personagem de ficção. Mann é uma figura de enorme peso cultural, quase uma instituição nacional. Ainda assim, Pawlikowski decidiu seguir adiante. "Os dois elementos, o pessoal e o histórico, pareceram funcionar juntos e se reforçar", diz.

Cena do filme 'A Terra do Meu Pai'
Cena do filme 'A Terra do Meu Pai'
Foto: Agata Grzybowska/Mubi/ Divulgação / Estadão

Personagens, não imitações

A liberdade de ficcionalizar a história também orientou o trabalho com os atores. Pawlikowski não queria reproduções de figuras históricas, mesmo quando havia imagens disponíveis para consulta. O objetivo era construir personagens autônomos, capazes de existir dentro das situações dramáticas, e não imitar gestos ou expressões de pessoas reais.

"Isso mata a atuação", diz. O cineasta critica a tendência de certas cinebiografias, sobretudo americanas, de apostar na transformação física e na reprodução de maneirismos para convencer o espectador de que está diante de uma personalidade histórica. Em vez de procurar uma cópia de Erika Mann, por exemplo, queria uma personagem que carregasse suas contradições sem ficar presa à obrigação de reproduzir a mulher que existiu.

Sandra Hüller, que interpreta Erika, foi fundamental nesse processo. Pawlikowski elogia a capacidade da atriz de comunicar emoções sem precisar explicitá-las. "Ela consegue expressar tanta coisa com o rosto. É incrível", diz.

Os ensaios também seguiram essa lógica. Foram, em grande parte, leituras e conversas sobre as cenas, sem uma preparação exaustiva dos momentos mais intensos. O diretor preferia deixar que a atuação se desenvolvesse diante da câmera. "Não queríamos gastar nossa munição cedo demais. A coisa de verdade fica para as filmagens, quando o plano está montado."

Essa maneira de trabalhar se estende ao roteiro. Pawlikowski conta que reescreveu o texto continuamente, cortando, acrescentando e condensando passagens durante a preparação, os ensaios, a busca por locações e até as filmagens. Como também editava o material enquanto rodava, o filme crescia ao seu lado e influenciava as decisões seguintes. "Para mim, fazer o filme é escrever", resume. O roteiro não era uma etapa encerrada antes da produção, mas um organismo em transformação, que precisava permanecer vivo até o fim.

A construção visual seguiu um planejamento minucioso. Além das locações, a equipe passou cinco meses procurando figurantes com rostos que não parecessem contemporâneos. Pawlikowski queria escapar da homogeneidade que, em sua avaliação, marca parte da aparência atual e encontrar fisionomias expressivas, capazes de dar corpo à diversidade de uma sociedade em ruínas.

A equipe organizou fotografias em categorias como operários, intelectuais, idealistas, burocratas do partido e ex-nazistas. O próprio diretor reconhece que eram classificações simplificadoras, mas úteis para organizar os personagens no espaço e construir a composição dos planos. Sem recorrer a um storyboard tradicional, ele, o diretor de fotografia e os responsáveis pela direção de arte imaginaram como cada locação poderia funcionar em cena, o que precisaria ser acrescentado e como os elementos do ambiente poderiam contar a história.

Sandra Huller em 'A Terra do Meu Pai'
Sandra Huller em 'A Terra do Meu Pai'
Foto: Agata Grzybowska/Mubi/ Divulgação / Estadão

Um mundo dividido de outra maneira

Apesar de se passar há mais de sete décadas, A Terra do Meu Pai nasceu de uma inquietação contemporânea. Pawlikowski diz que o episódio da vida de Thomas Mann chamou sua atenção justamente porque reconheceu nele algo familiar. Havia uma sociedade em colapso, duas narrativas que disputavam a interpretação da realidade e um homem pressionado a escolher um lado. "Algo desmoronou, e há duas narrativas puxando em direções opostas", afirma.

O diretor, no entanto, vê uma diferença fundamental entre aquela polarização e a atual. Em 1949, a divisão era física: cruzar a fronteira entre as duas partes da Alemanha significava entrar em um universo político e social distinto. Hoje, a disputa acontece sobretudo no ambiente digital, onde a distância entre a experiência cotidiana e as convicções políticas pode se tornar enorme. "Todo mundo tem opiniões muito fortes sobre tudo. Mas essas opiniões vêm da informação, não das nossas vidas. Vêm do que os algoritmos nos entregam", diz.

É essa desproporção que mais o preocupa: a distância entre aquilo que as pessoas efetivamente vivem, sentem e conhecem e o volume de informação que as captura e as leva a adotar posições cada vez mais radicais. As plataformas amplificam discursos extremos porque a radicalização gera atenção, enquanto a possibilidade de reconhecer ambiguidades e encontrar algum terreno comum perde espaço.

"Acabamos defendendo uma narrativa e odiando a outra sem medida, absolutamente convencidos de que eles estão errados e nós estamos certos", afirma. "E isso não se baseia em nenhuma experiência vivida."

A consequência, para Pawlikowski, é a erosão do meio-termo e a dificuldade de imaginar como sociedades divididas podem continuar funcionando. O cineasta não oferece uma solução — nem acredita ter encontrado uma maneira de traduzir o fenômeno para o cinema. "Estou um pouco assustado", admite.

A pergunta revela também o limite de sua própria relação com o presente. Pawlikowski diz ter a sensação de viver em um mundo de ficção científica, como se os acontecimentos ao redor já pertencessem a uma obra de imaginação. "Tenho a sensação de que vivemos em um mundo de ficção científica. Estou apenas observando tudo isso e pensando: isso já é um filme", afirma.

Estadão
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