Em documentário, Suzane von Richthofen dá detalhes sobre plano da morte dos pais e diz que família tinha ‘zero afeto’
A mandante do assassinato de Manfred e Marísia von Richthofen revelou como era a dinâmica familiar
Suzane von Richthofen, condenada a 39 anos de prisão pela morte dos pais, é a peça central de um novo documentário de quase duas horas sobre o caso que repercutiu no Brasil todo há mais de duas décadas, em 2002. Na obra, ela dá detalhes sobre o plano, a dinâmica da família e fala até sobre redenção.
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De acordo com o jornal O Globo, o material foi disponibilizado recentemente em uma pré-estreia restrita pela Netflix e ainda não tem data para ser lançado oficialmente. Apontada como a mandante do duplo homicídio, Suzane conta a sua própria versão dos fatos, em uma entrevista, ao que parece, cheia de sorrisos.
Hoje com 42 anos e cumprindo a pena em regime aberto após 20 anos em reclusão, a mulher descreve sua história a partir da infância e aponta que houve um afastamento dela e do irmão, Andreas, dos pais, Manfred e Marísia von Richthofen. A rotina era marcada por cobranças e silêncio emocional.
“Eu vivia estudando. Era só nota alta. Tirava 9 e 10 em todas as matérias. Não tinha demonstração de amor, nem deles pra gente, nem da gente pra eles. Minha vida era brincar com o meu irmão”, declarou. Segundo ela, o pai era o mais distante. “Era zero afeto. Minha mãe ainda tinha um pouco. Volta e meia ela pegava a gente no colo. Mas era muito de vez em quando”.
Suzane também conta que havia muitos conflitos na família e que o relacionamento dos pais era “muito ruim”, mencionando um episódio de violência que presenciou ainda quando era criança. “Meus pais botavam a gente pra dormir muito cedo. Ouvi uma discussão e desci pra ver o que era. Eu vi meu pai enforcando a minha mãe contra a parede. Foi horrível”.
No ambiente familiar não havia diálogo aberto para temas íntimos, como sexo, por exemplo, conforme ela menciona. Ela diz que o lar foi marcado por um distanciamento progressivo, como se ela e o irmão fossem ficando “invisíveis dentro de casa”. Então, diz, ela e o irmão criaram um “refúgio dentro de casa” ao criar uma espécie de mundo próprio, separado de Marísia e Manfred. “Minha família não era família Doriana. Longe disso. Meus pais construíram um abismo entre nós”.
O relacionamento com Daniel Cravinhos
O espaço vazio deixado pela distância no relacionamento com os pais foi “ocupado por Daniel Cravinhos”, seu então namorado na época dos fatos e um dos participantes do homicídio que vitimou os pais. “O Daniel passou a ocupar todos os espaços da minha vida”.
O assassinato do casal, ocorrido em 31 de outubro de 2002, foi plenajado por Suzane e executado por Daniel e seu irmão, Cristian. A narrativa construída por ela sobre a relação familiar disfuncional, segundo o jornal, seria uma espécie de pano de fundo para o crime.
O abismo ao qual ela fala sobre o relacionamento com os pais se aprofundou conforme o namoro com Daniel se consolidava. Havia resistência dentro de casa e sua mãe dizia, segundo ela, que o namorado ia puxá-la “para o fundo do poço”. Foi então que ela passou a viver uma vida dupla.
“Eu saía de casa dizendo que ia pro karatê, mas ia pra casa do Daniel”, relembrou. Ela conta ainda que junto do namorado, alugava um carro e viajava escondida. “Conheci todo o litoral de São Paulo. O Daniel me mostrou o mundo que eu queria viver”, mencionou.
Quando o casal descobriu o relacionamento, virou “uma guerra dentro de casa”, como descreve Suzane. As brigas eram frequentes e escalonaram para agressão física. “Ele [pai] me deu um tapão na cara tão forte que meu rosto virou pro lado”, declarou.
Quando os pais foram viajar para a Europa por 30 dias, Daniel praticamente se mudou para a casa da família. Esse seria o ponto de virada, conforme a filha do casal von Richthofen. “Foi um mês de liberdade total. Um sonho que eu não queria que acabasse. Era o dia inteiro de sexo, drogas e rock ’n’ roll”, contou.
‘Mudou a nossa vida’
Conforme relembra, Suzane pontua que aquele mês “mudou tudo” na vida dos dois. A ideia de matar os pais da jovem, conforme o relato, foi sendo construída, não de forma direta. “Nós não falávamos em matar meus pais. A gente dizia que seria muito bom se eles não existissem”, narrou.
Ao longo do tempo, o plano de assassinar os dois foi tomando forma. Conforme o jornal, ela tenta se afastar do planejamento do crime, mas reconhece que a centralidade da própria participação. “Eu aceitei. Eu os levei pra dentro da minha casa”, apontou. “A culpa é minha. Claro que é minha”, reconhece.
Na noite do crime, como é de conhecimento de todos que acompanharam o desdobramento do caso ao longo dos anos até o júri popular que condenou o trio de criminosos, Suzane ficou no andar de baixo, enquanto os irmãos Cravinhos espancavam Manfred e Marísia.
“Eu fiquei no sofá, com a mão no ouvido para não escutar nada”. Em um dos momentos do documentário, ela menciona que seu estado de espírito naquele momento, enquanto aguarda a ação do então namorado e do cunhado, era “dissociado”. “Eu não estava em mim. Era como um robô, sem sentimento”, equiparou. Mas refletiu que poderia ter interrompido os irmão e evitado o assassinato dos pais.
“Se eu parasse pra pensar, aquilo não aconteceria”, admitiu. “Quando tudo terminou, o impacto veio de forma imediata. Não tinha mais como voltar atrás. O que eu fiz não tem mais volta”, reforçou.
Suzane ainda tenta desmentir o relato da delegada Cíntia Tucunduva, que contou que durante as investigações do crime, uma equipe do Departamento de Homicídios e de Proteção à Pessoa (DHPP) foi até a casa onde ocorreu o crime e a encontrou em uma festa. A autoridade descreveu na época que a filha do casal estava de biquíni, com um cigarro na mão e uma lata de cerveja. Para a polícia, a jovem apresentou o imóvel como se fosse um “museu”, contando que ali tinha ocorrido o crime.
“Não tinha a menor condição de fazer uma festa naquela casa. A casa estava com cheiro de sangue”, disse ao classificar como absurda a constatação das autoridades.
Vida atual
Na obra que leva o título provisório de Suzane vai falar, é mostrada também como começou a relação de Suzane com o marido, o médico Felipe Zecchini Muniz, com quem ela teve um filho recentemente. O namoro dos dois começou após quando ele mandou uma mensagem no Instagram dela para encomendar para as três filhas, de outro relacionamento, sandálias que Suzane customizava.
O documentário também mostra momentos atuais da mandante do crime contra Manfred e Marísia. As filhas do médico também aparecem em cenas domésticas, enquanto decoram a casa para o Natal. O filho pequeno de Suzane também é exibido.
É no final que Suzane tenta estabelecer que aquela jovem do passado não existe mais, numa tentativa de romper com a própria imagem associada ao crime. “A sensação que eu tenho é que ela morreu junto com os meus pais”, refletiu, embora reconheça que não consegue se desvincular da própria história. “Você entra num lugar e parece que o ar para. Todo mundo olha. ‘Olha, a Suzane’”.
Por fim, ao falar sobre redenção, ela cita o filho como uma prova de que o passado ficou distante. “Quando eu olho para o meu filho, eu tenho a certeza de que Deus me perdoou”.