'Eles Vão Te Matar' é filme conforto para quem curte banho de sangue e violência
Longa do russo Kirill Sokolov chega aos cinemas nesta quinta-feira (26) emulando Tarantino e com Zazie Beetz como protagonista
Faz parte de uma prática cinéfila bastante legítima dar play em algo que não exige muito do cérebro e que, por 90 minutos, irá te fazer rir e se divertir com pessoas sendo apunhaladas, membros sendo decepados e lutas sangrentas. É exatamente esse o caso de Eles Vão Te Matar, um longa que abraça o exagero e transforma sua brutalidade em entretenimento puro.
A premissa da novidade, que entra em cartaz nos cinemas brasileiros a partir desta quinta-feira (26), é simples e eficiente: uma mulher (Zazie Beetz, Coringa) aceita um trabalho misterioso como governanta no Virgil, um prédio sombrio em Nova York, apenas para descobrir que o prédio guarda décadas de desaparecimentos e possíveis ligações com um culto satânico.
O longa marca a chegada do diretor russo Kirill Sokolov a Hollywood. Essa espécie de "Tarantino russo" é apadrinhado pelos irmãos Andy Muschietti e Barbara Muschietti, dupla responsável pelo reboot da franquia It nos cinemas. Ainda pouco conhecido no Brasil, Sokolov estreou em 2018 com Por Que Você Não Morre? e lançou, em 2021, Quem Vai Ficar com Masha?. Agora, cinco anos depois de seu último trabalho, ele chega aos cinemas sem abrir mão daquilo que o define: um cinema irreverente, que empolga na ação, com sua câmera sempre orgânica às coreografias e embates.
E, sim, o que move Sokolov é estilo. Seu cinema é uma colagem assumida de referências — de Sergio Leone (Três Homens em Conflito) a Edgar Wright (Todo Mundo Quase Morto), passando principalmente por Quentin Tarantino (Kill Bill), seu maior farol. Estão ali os closes nos olhares, a violência estilizada, o sangue em jorros quase cartunescos, os cortes secos e o fetiche por armas (e pés).
É um terreno perigoso, em que muitos diretores se perdem ao, sem identidade, tentar imitar. Sokolov, porém, escapa dessa armadilha porque entende o essencial: ir direto ao ponto. Seu filme é enxuto, não se alonga em explicações e constrói personagens e cenário com o mínimo necessário para que a ação funcione e envolva o espectador.
No centro disso tudo está Zazie Beetz como Asia Reaves, uma protagonista que passa longe de qualquer ideal de intocabilidade — e que tem tudo para se firmar como uma nova final girl do gênero. Como as sobreviventes de Você é o Próximo (2011) e Casamento Sangrento (2019), ela é empurrada a um limite onde resistir significa, inevitavelmente, revidar com a mesma violência.
Há algo de John Wick nessa construção: Asia apanha, sangra, cai — e sempre levanta. O filme parece testar continuamente até onde seu corpo aguenta, extraindo daí um prazer quase perverso, que ecoa a brutalidade já explorada pelo diretor em Por Que Você Não Morre?.
Também é importante destacar Beetz, uma mulher negra, liderando um terror de estúdio — algo que, por si só, já é simbólico dentro do gênero. O roteiro até pincela um comentário social ao revisitar o passado do Virgil e suas vítimas, figuras tratadas como párias em uma espécie de "limpeza" violenta. Mas essa camada nunca se impõe de fato. Para Kirill, ela funciona mais como breve citação do que como motor dramático — uma provocação que existe, mas que o roteiro prefere não aprofundar, mantendo o foco no espetáculo físico e imediato da sobrevivência.
O palco desse espetáculo, o Virgil e seus andares, funcionam como um jogo de videogame, com cada andar representando um novo "nível". À medida que Asia sobe, os desafios aumentam, os inimigos ficam mais brutais e a violência escala junto até chegar ao confronto final: um "chefão" que sintetiza o espírito do filme e entrega um clímax à altura da insanidade proposta.
O elenco de apoio embarca nessa brincadeira insana, e é divertido ver atores que não estão habituados ao terror se arriscando em um projeto como esse. Patricia Arquette (Boyhood: Da Infância à Juventude) surge como a anfitriã e líder de culto, Tom Felton (Planeta dos Macacos: A Origem) finalmente encontra o que merece desde os filmes de Harry Potter, e Heather Graham (Mata-me de Prazer) se joga de cabeça como uma das capangas dessa seita.
Em suma, Eles Vão Te Matar entende perfeitamente o tipo de prazer que oferece ao espectador. Dentro da lógica que propõe, é um balé brutal de corpos em colisão, coreografado com precisão e plena consciência do próprio excesso. Um filme que encontra seu lugar nesse conforto paradoxal de quem enxerga, na violência estilizada, não um problema, mas uma forma de escape e conforto.