Diretor de 'Bela Noite Para Voar' diz que governo JK foi divisor
Zelito Viana é um cara das antigas. Na década de 1960, foi produtor de
Terra em Transe,
Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiroe
Cabeças Cortadas, clássicos do cineasta Glauber Rocha.
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Nos anos 1970, Zelito teve um de seus filmes mais emblemáticos, Morte e Vida Severina, proibido pelos censores da ditadura militar.
Agora, após oito anos longe das telas, o cineasta e produtor lança Bela Noite para Voar, filme que mostra 24 horas na vida do presidente Juscelino Kubitschek em uma espécie de homenagem a seu governo. "O Brasil mudou completamente quando ele assumiu a presidência. Juscelino trouxe auto-estima ao brasileiro", cita.
Confira a entrevista na íntegra:
Você tem uma ligação muito estreita com o cinema novo, que nasceu junto com o governo de Juscelino Kubitschek. Você viu em Bela Noite Para Voar um modo de fazer uma homenagem a ele? O que esse governo representou pra você, como artista?
O governo JK, pra mim, é um divisor de águas. Aos 18 anos, meu primeiro voto foi pra ele. O Brasil mudou completamente quando ele assumiu a presidência. Juscelino trouxe auto-estima ao brasileiro, o orgulho da nação nasceu dele. Antes, a gente tinha complexo de vira-lata. Qualquer coisa que você usasse, desde o tênis até o pente de cabelo, tinha que ser importado. O Brasil não fabricava nada. Por isso que eu fiz essas referências da bossa nova, do cinema novo, no meu filme. Tentei mostrar que as pessoas estavam com orgulho. Isso é uma característica muito marcante do Juscelino. O que ele fez foi realmente 50 anos em 5. Claro que tem muitas críticas a serem feitas, mas o filme não é pra isso. Quem quiser criticar, que procure outra coisa. Nada disso tem uma importância facial à mudança do inconsciente, da cabeça das pessoas.
E por que você escolheu o José de Abreu para o papel principal?
Eu estava conversando com o Dealer, um produtor de cinema famoso no Rio de Janeiro, sobre estar produzindo um filme sobre o Juscelino. Ele me disse que tinha visto uma peça de teatro do Juscelino com o José de Abreu e ele estava sensacional no papel. Como o Zé já tinha pesquisado, foi a escolha perfeita. Ele é muito bom de trabalhar.
Pelo fato de abordar com profundidade a relação de Juscelino com sua amante, você teve problemas com a família do JK?
Eles se grilaram um pouco, mas não comigo, porque eu sou o diretor do filme, não o produtor. Na verdade, não tem nada que não seja público em Bela Noite Para Voar. O filme é baseado num romance que foi publicado e lá existia um personagem chamado Princesa, a amante do presidente. E que o Juscelino tinha amante, todo mundo sabia, assim como todo mundo sabia que ele tinha rompido com a mãe e a dona Sarah, mulher dele, por um tempo. Ele morreu em busca dessa princesa. É claro que a família não gosta dessas polêmicas, mas o filme não é sobre isso. Se eles forem ver o filme, vão descobrir que ele não faz nenhuma apologia ao adultério (risos).
Por que o filme demorou tanto pra sair?
O cinema é uma coisa tão difícil de fazer, tão cara, tão demorada. Não dá pra fazer qualquer coisa. Se eu for fazer isso, vou ser gerente de banco. E não foi nem por causa de dinheiro que demorou. Foi por causa dessa burocracia que o dinheiro gera. A Universal disse: "vamos distribuir o filme". Entre ela dizer isso e o dinheiro sair, passaram-se dois anos.
Mas o filme já estava pronto desde 2005. O que vocês fizeram neste tempo?
Como ele ficou parado lá, sem dinheiro, os garotos da Casablanca ficaram brincando com o filme. Por causa disso, tem fotograma ali com 400 layers. Aquela cena de Brasília é genial, eu mesmo tomei um susto com aquilo. De repente aparece um carrinho andando no terceiro plano que é totalmente eletrônico, carregado pelo Brad Pitt (risos).
Logo depois da produção de 'Bela Noite para Voar', veio a minissérie 'JK'. Isso favoreceu ou prejudicou o lançamento?
Pra mim, o ideal seria se eu pudesse lançar antes. Isso foi um dos fatores pelos quais a família se chateou um pouco. Se eu tivesse conseguido lançar antes da minissérie, seria melhor. Mas a minissérie ajudou num certo sentido porque tornou a figura do Juscelino mais conhecida. Claro que esse programa não foi tão visto assim porque passava na calada da madrugada. Mas, no fundo, é aquele negócio: 'falem mal, mas falem de mim'. O Juscelino ficou na boca do povo. Hoje quando se diz 'vou fazer um filme sobre Juscelino', as pessoas sabem mais sobre ele do que em outros tempos.
O filme tem uma forte opinião política embutida. Você acredita que os cineastas, hoje, vão além do entretenimento, como você fez quando produziu Terra em Transe, ou acha que essa linha evolutiva acabou por conta do cinema pipoca?
O cinema cabeça, digamos assim, diminuiu. Eu pretendo que esse filme seja "pêça", ou "capoca", a junção de "cabeça com pipoca" (risos). O ideal é aquele filme que diverte e que ao mesmo tempo tenha um conteúdo. O cinema americano é rei em fazer isso. Tem vários filmes desse gênero que são importantes e ao mesmo tempo são blockbusters. Essa é a busca eterna do cinema. É como na televisão: o ideal seria um canal com o conteúdo da TV Cultura e a forma da TV Globo. Isso é muito difícil de fazer. Eu não tenho nada contra quem faz entretenimento puro, só que eu não tenho capacidade para isso. Sei que eu navego num 'fio de navalha' e uma hora vou cair
Como era gravar nas décadas de 60 e 70 em comparação a hoje?
Antigamente era muito melhor. A diferença fundamental era que, naquele tempo, você fazia as pessoas se juntarem para fazer um filme. Era uma espécie de ação entre amigos. Então, o resto era irrelevante. Hoje em dia, os custos aumentaram violentamente, assim como o número de pessoas envolvidas. O envolvimento das pessoas com a produção diminuiu muito. No último filme que fiz, tinham 110 envolvidas. Bela Noite Para Voar, eu fiz com 80. O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro, do Glauber, que ganhou Palma de Ouro em Cannes, eu fiz com 14 pessoas. Você, com 14 pessoas, improvisa, inventa, tem direito de fazer o que quiser. Hoje, com mais de 100 integrantes, não dá fazer nada disso, não tem espaço para errar. E não acerta quem não erra. A satisfação de fazer cinema está voltando graças a essa tecnologia. Você pode juntar seus amigos, pegar uma MINI DV e fazer um filme de qualidade. Eu espero que essa geração crie um "novo cinema novo".
Além de você ter produzido alguns filmes que bateram de frente com a ditadura militar, como o 'Terra em Transe', você teve alguma relação militante política depois do golpe militar?
Na época, eu dizia o seguinte: minha esquerda está em "cana". Eu cheguei a ir preso duas vezes, mas rapidamente fui solto. Eu militava politicamente, mas não na luta armada. Mas, mesmo assim, eu estava sempre correndo o risco de ser preso. Foi uma época muito ruim, sobretudo depois do AI5, que veio em 1968. Até então, pra quem mexia com cultura, não foi muito diferente. Nesta época, nasceu o 'Terra em Transe', o movimento do cinema novo, o tropicalismo explodiu. Eu sempre fiquei no "limite", trabalhando do lado oposto. Mas, quando eu fiz Morte e Vida Severina, tive um filme proibido, o que me deu um prejuízo muito grande. Uma vez me disseram: o problema da ditadura não era ser censurado e sim perder a vontade de fazer.
E você perdeu?
Não, eu arrisquei. Quando Joaquim Pedro de Andrade fez Os Inconfidentes, nós o exibimos pela primeira vez numa cabine para a imprensa. As pessoas achavam que estávamos loucos e o filme passou pela censura sem nenhum problema. A gente conseguia ter a cabeça mais censurada que os próprios censores e isso era terrível. O resultado foi que minha geração foi dizimada, tanto no cinema, quanto na televisão e no teatro. Muita gente morreu aos 40 anos de idade, até menos.
Desde a retomada do cinema brasileiro, em meados de 2000, a gente foi bombardeado com filmes que retratam o pré, durante e pós-ditadura militar. Qual a importância disso pros jovens?
Eu acho que é fundamental você conhecer essa história. A gente precisa perder a mania brasileira de que está sempre inventando a roda. Essa típica coisa que nosso presidente costuma dizer: 'nunca antes no País fizeram isso'. Ele não sabe o que fala, sempre alguém já fez. É tudo produto de uma história. Você está aí porque seu pai lhe fez num momento de prazer (risos). A gente precisa conhecer essas origens. Com a política é a mesma coisa. Um País se faz assim, o que é fundamental. O cinema é fundamental. Eu fiz um programa para a TV Cultura que se chamava Imagens da História. Nós retratávamos desde A Descoberta do Brasil, do Humberto Mauro, até Tropa de Elite, que é a história do Brasil também. Mesmo que o filme seja ruim, ele incita uma discussão. Não importa a qualidade. Quanto pior o filme, mais se discute a realidade ali mostrada.