Script = https://s1.trrsf.com/update-1785845726/fe/zaz-ui-t360/_js/transition.min.js
PUBLICIDADE
Oferecimento Logo do patrocinador
Publicidade

'Acampamento Miasma - Adolescência, Sexo e Morte' é uma carta de amor ao terror slasher

Apesar de ser recheado de referências aos clássicos do gênero, "Acampamento Miasma" constrói uma das narrativas mais inovadoras do horror recente

11 ago 2026 - 11h28
(atualizado às 11h40)
Compartilhar
Exibir comentários

Um filme sobre um filme (dentro de um filme). Essa é a premissa metalinguística de Acampamento Miasma - Adolescência, Sexo e Morte, novo terror slasher com uma (grande) pitada de humor de Jane Schoenbrun (Eu Vi o Brilho da TV). Em seu terceiro longa-metragem, Schoenbrun entrelaça o horror, a comédia e o prazer com excelência, culminando em um dos filmes mais inovadores do gênero nos últimos tempos.

'Acampamento Miasma: Adolescência, Sexo e Morte'
'Acampamento Miasma: Adolescência, Sexo e Morte'
Foto: Reprodução/TMDB / Rolling Stone Brasil

O longa acompanha Kris (Hannah Einbinder, Hacks), diretora LGBTQ+ que é encarregada de reviver uma franquia fictícia, "Acampamento Miasma", com um novo olhar. O filme original (que ganhou diversas sequências cada vez mais fracassadas) é criticado por contemplar, como vilão, um personagem que vive metade dos seus dias como homem, metade como mulher. As grandes produtoras querem trazer a história de origem de Little Death (Jack Haven, Atypical) com um olhar mais contemporâneo e menos problemático — não exatamente porque a sociedade evoluiu tanto assim, mas, como Kris justifica, porque a "lacração" agora vende mais nas bilheterias.

Para encontrar a abordagem ideal para seu filme, Kris vai atrás de Billy Preston (Gillian Anderson, Sex Education), atriz que interpretou a "final girl" do primeiro filme. Após fazer sucesso como a protagonista, Billy se afastou dos holofotes e passou a viver em uma casa isolada, no mesmo acampamento abandonado onde o longa fictício foi gravado. Agora, perto dos 60 anos, Billy resolve finalmente se envolver com a produção de uma nova entrada da franquia — mas não exatamente da forma convencional. Billy acredita (ou faz Kris acreditar) que os filmes só poderiam ser produzidos ao, de certa forma, vivê-los.

A relação de Kris e Billy escala, ao longo da obra, de formas inimagináveis. A tensão sexual entre as personagens é palpável desde a primeira cena: o que não se espera é que elas irão viver um caos psicológico ao longo do segundo e terceiro atos do filme.

Com um estilo um pouco semelhante ao de David Lynch (Cidade dos Sonhos), apostando em cores fortes e atmosfera onírica, Schoenbrun constrói uma narrativa que embaça as linhas entre imaginação e realidade. O objetivo não é que o espectador encontre onde está essa divisão, mas embarque em uma jornada de autodescoberta e se entregue à fantasia junto com as personagens.

Ao mesmo tempo em que assistimos ao filme na tela do cinema, também assistimos ao "longa original" da "franquia Miasma". Ele é ambientado em um acampamento de verão dos anos 1980, cheio de adolescentes com os hormônios à flor da pele — e, é claro, um assassino letal à solta. (Zach Cherry, de Ruptura, e Eva Victor, de Sorry, Baby, estão entre os integrantes do acampamento e vítimas inevitáveis de Little Death.)

A linha tênue entre realidade e ficção pode ser um tema batido e muito explorado em diversos gêneros do cinema, mas a abordagem aqui é completamente inovadora. Mesclando a estética de ilustração com elementos nostálgicos e uma ótima trilha sonora, Schoenbrun imerge o público no universo dessa franquia fictícia desde a cena de abertura. Ao longo de duas horas, quase conseguimos acreditar que essa é uma história já querida por todos.

E o que não faltam são referências ao gênero slasher, como Sexta Feira 13 (1980) e O Massacre da Serra Elétrica (1974). Desde o grupo de amigos numa van que dirige até um acampamento isolado até, é claro, a misoginia presente em muitos dos clássicos mais amados.

Os comentários afiados sobre a indústria cinematográfica são um dos pontos altos de Acampamento Miasma. O ode à dimensão erótica do slasher também está presente, com uma releitura dos limites desse prazer à sua época. E, como o título original diz, é muito, muito camp.

Cineasta queer e não-binário, Schoenbrun utiliza o cinema como ferramenta para questionar as normas de gênero da sociedade — e não é diferente em Acampamento Miasma —, mas constrói tal discurso com sutileza. O absurdismo, o surrealismo e a artisticidade aqui presentes são a marca de sua autoria.

Essas linguagens já eram comuns ao seu trabalho anterior, como Eu Vi o Brilho da TV (2024) e Vamos Todos à Exposição Mundial (2021). Em Acampamento Miasma, porém, Schoenbrun se afasta do universo melancólico que construiu nesses filmes e encontra um tom fenomenal de comédia, tornando a experiência do espectador, além de introspectiva, muito divertida.

Através de personagens femininas complexas e muita auto ironia, Schoenbrun entrega um retrato sensível sobre a liberdade e o prazer. Além de todo o horror que o circunda, Acampamento Miasma também é um filme para todas as pessoas que não se sentem confortáveis em sua própria pele, e um convite à tentativa de se encontrar sem pedir desculpas.

O filme se inicia com um andamento mais lento, e pode demorar um pouco até que o espectador se conecte com a história. Mas, aos poucos, as peças vão se encaixando. O caos, o impulso, a culpa e o pecado se encontram; como o título diz, "Sexo e Morte" são vivências universais que definem todo e qualquer ser humano. Acampamento Miasma é uma fuga completa à fórmula comercial dos filmes de terror, e a coragem necessária para executá-lo até o fim é o seu maior triunfo.

As atuações fantásticas de Anderson e Einbinder (todo o humor que ela elaborou na série queridinha da HBO Max Hacks está presente aqui) amarram a narrativa. Ambas navegam pelas facetas de suas personagens, desde as mais engraçadas até seus dilemas sexuais e emocionais mais profundos, e elevam a química física e mental a outro patamar. A magia na direção de Schoenbrun e a total confiança das atrizes no processo garante uma experiência realmente imersiva ao espectador.

"A nossa relação cultural com o sexo é tão pouco saudável. Por isso, é claro que tentamos compartimentalizá-lo ou mantê-lo restrito à uma 'janela', sem nunca compartilhá-lo com outro ser humano. Não acho que isso nos faça bem enquanto sociedade", disse Einbinder em entrevista ao Letterboxd. "Acredito que a repressão é a inimiga — especialmente a do artista —, e este é um filme contra a repressão".

Após diversos lançamentos repetitivos no slasher, Acampamento Miasma é um verdadeiro refresco, e uma prova de que é possível inovar o gênero com ousadia e ainda respeitar a memória dos clássicos que o construíram. É um filme extremamente pessoal, brincalhão, mas também poético. Se você conseguir se entregar aos prazeres e aos horrores de Acampamento Miasma (como diz Billy, o horror sempre foi sobre "carne e fluidos"), poderá também encontrar essa magia eufórica.

https://www.youtube.com/watch?v=ol6BIre1lPo

📊 Fofoca Awards: vote nos seus favoritos
Rolling Stone Brasil Rolling Stone Brasil
Compartilhar

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie.

Publicidade
Meu Terra