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'Não há filme como esse no Brasil': Como é 'Corrida dos Bichos', distopia nacional com grande elenco

Com direção de Fernando Meirelles, Ernesto Solis e Rodrigo Pesavento, a produção chega ao Prime Video depois de 20 anos desde sua criação com uma narrativa que explora a desigualdade social em um Rio de Janeiro futurista

9 ago 2026 - 12h07
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"Esqueçam a Grécia Antiga, odisseia mesmo é fazer filme no Brasil", afirmou Ernesto Solis durante a pré-estreia de Corrida dos Bichos, novo longa-metragem nacional do Prime Video que teve concepção do cineasta e direção dividida com Fernando Meirelles e Rodrigo Pesavento.

A frase não foi dita à toa: a produção chega ao streaming nesta sexta, 7, quase 20 anos depois de sua gênese e depois de longas batalhas para tirá-la do papel. A estreia ocorre em grande estilo, com uso de tecnologia de ponta e elenco estrelado, incluindo Rodrigo Santoro, Bruno Gagliasso, Isis Valverde, João Guilherme, Matheus Abreu, Thainá Duarte, Grazi Massafera, Seu Jorge e até Anitta.

Mas tudo começou em 2008, quando um jovem Solis trabalhava em um curta ambientado em um Rio de Janeiro futurista. A história chamou a atenção de um produtor francês, que encomendou um roteiro de longa-metragem ao cineasta. Por volta de 2011, a O2 Filmes, produtora fundada por Meirelles, Paulo Morelli e Andrea Barata Ribeiro, se interessou pelo projeto. Foram anos tentando financiá-lo, até a Amazon entrar na jogada.

"Minha motivação foi o desafio da realização", diz Meirelles. "A produtora nunca tinha feito um filme desse e não há um filme como esse no Brasil - de ação, descolado da realidade, com muitas coisas novas. É muito diferente e, ao mesmo tempo, popular. Não é um filme cabeça. As pessoas entram e mergulham nele."

Corrida dos Bichos se passa em um Rio de Janeiro distópico, décadas após uma catástrofe ambiental que secou o mar. "Eu queria fazer uma coisa futurista que não fosse uma imitação de uma temática ou de uma estética estrangeira", afirma Solis, que assina o roteiro com Rodrigo Lages, Eva Klaver e Marco Abujamra. Daí veio a ideia de colocar o jogo do bicho na trama.

Nesse contexto de devastação, ele evoluiu para uma corrida com pessoas, em que magnatas, os Jogadores, controlam os desafortunados, os Bichos, na busca brutal por um prêmio milionário. A inscrição tem um preço caro, o Seguro, uma pessoa próxima ao corredor que se tornará um escravo da elite caso ele não vença a corrida.

"São várias alegorias. Falamos de desigualdade social, espetacularização da vida e, infelizmente, da desgraça humana. A nossa mensagem é realmente essa: como isso vai bater em cada um? E que caminhos estamos levando para chegar ou não naquele lugar?", diz Matheus Abreu.

Grazi Massafera e Rodrigo Santoro em 'Corrida dos Bichos'
Grazi Massafera e Rodrigo Santoro em 'Corrida dos Bichos'
Foto: Laura Campanella/Prime Video/Divulgação / Estadão

O personagem do ator é Mano, um dos líderes do Perímetro da Morte, zona de resistência à corrida que busca interceptar os Bichos e adeptos do jogo. Tudo muda quando sua irmã, Dalva (Thainá Duarte), vira o Seguro do namorado, Jonas (João Guilherme), e Mano precisa deixar seus princípios de lado para garantir que ela não acabe nas mãos dos magnatas.

Quem orquestra e comanda esse jogo é Abu, vivido por Rodrigo Santoro, um ex-Bicho que ascendeu nessa sociedade depois de vencer a corrida e agora é uma espécie de diretor e "showman". Segundo o ator, o antagonista foi criado por Solis com inspiração em Fiódor Pavlovitch, pai dos Irmãos Karamazov, criados pelo escritor russo Fiodor Dostoievski.

"Esse é um personagem extremamente complexo, um patriarca que é repugnante, mas é muito cativante, sedutor e passional, comete arroubos. O Abu tem um pouco desses elementos. O meu desafio foi encontrar os pesos e medidas e equilibrar esses contrapontos. Ele tem muitas possibilidades nesse sentido. Pode ser extremamente cruel e depois amoroso, charmoso", explica.

Enquanto Santoro buscou referência na ficção, Bruno Gagliasso diz ter buscado inspiração na realidade. Ele interpreta Leon, um dos Jogadores que controla os Bichos e tem ambição de fazer parte da Cúpula, o grupo da elite que toma as decisões sobre as competições.

"Me inspirei em vários personagens da vida real. É isso: quem tem poder quer ter cada vez mais poder. Basta ler jornal. Ele é um escravocrata. Outro dia, vi uma mulher que foi presa escravizando uma funcionária. Acho que esse filme é muito mais atual do que nós pensamos", afirma.

Bruno Gagliasso e Isis Valverde em 'Corrida dos Bichos'
Bruno Gagliasso e Isis Valverde em 'Corrida dos Bichos'
Foto: Laura Campanella/Prime Video/Divulgação / Estadão

Para o ator, o desejo é que o espectador saia do filme se perguntando se está no caminho certo ou contribuindo para construir um futuro como aquele visto no filme. "E até onde vai o limite do entretenimento? Até onde você passa o limite do outro, o cuidado com o outro, com o planeta?", completa Isis Valverde, que vive Nadine, mulher de Leon que vira Jogadora e tem um passado misterioso.

Uma distopia brasileira

A Amazon não divulgou o orçamento de Corrida dos Bichos, mas a produção está sendo tratada como uma das mais caras do cinema nacional. Segundo a produção, foram mais de 800 profissionais trabalhando diretamente na realização do filme. Foram 41 diárias de filmagem realizadas entre maio e julho de 2024. A pós-produção, porém, durou cerca de 1 ano e 6 meses.

"Se não fosse uma fábula, o que teria acontecido no Rio de Janeiro seria o mar subir e filmaríamos em uma cidade alagada. Chegamos a pensar nisso, porque é o que deve acontecer no futuro com as mudanças climáticas", diz Meirelles. A equipe optou, porém, por criar esse universo fictício que proporciona um Rio à la Mad Max.

A cidade continua lá, agora sem suas grandes belezas naturais - uma das cenas iniciais logo mostra a Baia de Guanabara seca, tomada por um cenário desértico com navios encalhados. Os cenários foram construídos com locações na capital fluminense, com visuais depois modificados por uma grande equipe de efeitos visuais liderada por Sandro Di Segni.

Outro desafio do filme foi a grande quantidade de cenas de ação. Enquanto Solis e Meirelles dividiam a dramaturgia, Rodrigo Pesavento liderava a equipe de dublês e atores nas filmagens das corridas. "Isso envolveu a parte técnica de escolha de locações, solução dos problemas, ensaios, e fazer tudo isso caber dentro de um cronograma sem danos para os envolvidos", explica.

A atriz Thainá Duarte destaca que Corrida dos Bichos é "um marco como produção nacional" justamente por trazer a distopia com uma identidade nacional muito forte e pelo escopo da produção. "É um filme grandioso com grande investimento. Não deixe de ser um marco para que a gente saiba que é capaz de produzir obras como essa", afirma ela. João Guilherme concorda e reforça o apelo da brasilidade no projeto: "Poder ver essa junção da nossa cultura com a distopia, e principalmente essa releitura do jogo do bicho, que já é algo real aqui, isso é muito legal."

Para Solis, a distopia é um gênero que o cinema brasileiro deve se apropriar. "Nós também podemos falar do futuro, fazer grandes filmes de espetáculo, com apelo popular grande. Acho que esse filme mostra que é possível criar esse tipo de espetáculo cinematográfico aqui."

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Estadão
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