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'A Morte de Robin Hood' transforma lenda em homem assombrado pelo passado

Longa estrelado por Hugh Jackman reimagina os últimos dias de Robin Hood em uma história marcada por violência, arrependimento e busca por redenção

13 ago 2026 - 10h13
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A lenda de Robin Hood já foi contada e recontada tantas vezes no cinema que uma nova adaptação poderia facilmente parecer apenas mais uma repetição. Afinal, o personagem já ganhou versões como a de Kevin Costner em Robin Hood: O Príncipe dos Ladrões (1991), a de Russell Crowe em Robin Hood (2010) e até uma releitura mais recente em formato de série, exibida no Brasil pelo MGM+.

'A Morte de Robin Hood' transforma lenda em homem assombrado pelo próprio passado (Divulgação)
'A Morte de Robin Hood' transforma lenda em homem assombrado pelo próprio passado (Divulgação)
Foto: Rolling Stone Brasil

O imaginário do fora da lei que rouba dos ricos para dar aos pobres está tão estabelecido que parece difícil encontrar algo novo nesse mito. É justamente por isso que A Morte de Robin Hood se torna interessante: em vez de tentar reafirmar a lenda de forma épica, o filme de Michael Sarnoski (Pig) decide desconstruí-la em um retrato bastante intimista.

Aqui, Robin Hood não é exatamente o herói que aprendemos a conhecer. Interpretado por Hugh Jackman (O Rei do Show), ele é um homem envelhecido, isolado e consumido pelos fantasmas de uma vida marcada pela violência. Mais do que isso, é alguém perseguido pelas consequências de seus próprios atos: entre os que o caçam estão familiares de pessoas que ele matou.

Se Robin Hood existiu como um homem de carne e osso, e não apenas como uma figura romantizada, quantas das pessoas que ficaram pelo caminho teriam histórias diferentes para contar sobre ele? Sarnoski parte justamente dessa pergunta para desmontar a imagem do herói benevolente e transformá-lo em algo muito mais desconfortável: um homem tentando conviver com aquilo que fez.

Ter Hugh Jackman no papel é um dos grandes acertos do filme. É praticamente impossível não lembrar de Logan ao vê-lo como um guerreiro envelhecido, machucado e cansado da própria violência. As semelhanças, porém, param por aí. Enquanto o personagem da Marvel carregava a sensação de ser o último sobrevivente de um mundo ao qual já não pertencia, Robin Hood precisa encarar algo ainda mais incômodo: a possibilidade de que ele próprio tenha sido responsável por parte da destruição ao seu redor.

Jackman entende muito bem esse registro e, ao mesmo tempo, consegue se apropriar do filme. Há uma presença física enorme em cena, mesmo quando o personagem está silencioso ou praticamente imóvel. É um protagonista que rouba a cena e enche a tela, sustentando boa parte do longa apenas com o olhar, o corpo castigado e a sensação de exaustão.

Essa abordagem também explica a escolha de Sarnoski para conduzir a história. O diretor já havia demonstrado em Pig, estrelado por Nicolas Cage, interesse por personagens violentos ou endurecidos que, em determinado momento, são obrigados a confrontar outras formas de existência. Em A Morte de Robin Hood, ele leva essa ideia para um universo medieval. O filme começa de maneira brutal, quase como se quisesse arrancar do espectador qualquer possibilidade de romantizar aquele homem.

Flechas atravessam corpos, ferimentos são mostrados de maneira crua e a violência parece ter peso e textura. É um mundo em que sobreviver já é uma espécie de condenação. Depois, quando Robin é gravemente ferido e levado para um priorado isolado, o filme muda completamente de registro. O homem acostumado à batalha encontra um espaço de silêncio, cuidado e, principalmente, possibilidade de reflexão.

É nessa segunda metade que A Morte de Robin Hood encontra sua melhor ideia. Robin deixa de ser uma máquina de guerra e passa a conviver com pessoas que não precisam dele como guerreiro. A Irmã Brigid, vivida por Jodie Comer (O Último Duelo), funciona como uma espécie de contraponto ao protagonista, enquanto a pequena comunidade ao redor dele cria um espaço onde a violência não é necessariamente a resposta para tudo. A relação entre os personagens permite que o filme questione algo mais interessante do que simplesmente quem foi o verdadeiro Robin Hood: é possível encontrar a paz depois de uma vida inteira fazendo escolhas terríveis?

Como é de se esperar de uma produção da A24, a estética do filme também chama atenção. Sarnoski e o diretor de fotografia Pat Scola utilizam película, locações reais e efeitos práticos para construir um universo natural, e não criado digitalmente. A primeira parte é mais soturna, fria e escura, acompanhando a brutalidade da vida de Robin. Quando ele chega ao priorado, a luz muda e até o enquadramento se torna mais íntimo. É uma mudança visual que acompanha o estado emocional do personagem sem precisar explicá-lo. O cuidado com o design também é evidente nos figurinos, nas próteses, nas armas e nos cenários. Existe uma preocupação quase artesanal em fazer com que aquele mundo pareça físico, vivido e imperfeito.

No fim, A Morte de Robin Hood funciona justamente porque entende que não havia muito sentido em contar novamente a história do herói que todos já conhecem. Sarnoski prefere olhar para o que acontece depois que a lenda termina — ou quando ela começa a desmoronar. E é nessa desconstrução, sustentada por um Hugh Jackman contundente e por uma direção que sabe quando trocar a brutalidade pelo silêncio, que o filme encontra sua identidade: reinventar Robin Hood sabendo que, antes de ser uma lenda, ele era um homem — e que homens também precisam responder pelos fantasmas que deixam para trás.

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