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'A Bola Preta' (ou 'O que perdemos quando nos negamos')

Longa de Javier Calvo e Javier Ambrossi (Veneno), um dos mais cotados para o Oscar 2027, passou pela 28ª edição do Festival do Rio com sessões esgotadas

12 out 2026 - 09h38
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Resumo
Dirigido por Javier Ambrossi e Javier Calvo, o filme A Bola Preta abriu a 28ª edição do Festival do Rio provocando forte catarse. Inspirada no legado de Federico García Lorca, a obra entrelaça três narrativas temporais distintas — em 1932, 1937 e 2017 — para resgatar memórias e combater o apagamento histórico da comunidade LGBTQIAPN+ sob a intolerância espanhola. Poético e de grande impacto visual, o longa reafirma o compromisso dos diretores em celebrar figuras queer esquecidas.

Experiências são extremamente individuais. Ainda que compartilhada, a experiência de entrar em uma sala de cinema e assistir a um filme é diferente de pessoa para pessoa. Porém, há raros momentos em que o individual e o coletivo se encontram e criam uma verdadeira catarse — palavra tão banalizada pela crítica para o cinema, assim como "visceral" para o teatro.

'A Bola Preta' é arte lutando contra o apagamento histórico de pessoas LGBTQIAPN+ (Divulgação)
'A Bola Preta' é arte lutando contra o apagamento histórico de pessoas LGBTQIAPN+ (Divulgação)
Foto: Rolling Stone Brasil

E esse acontecimento vai além da forma, da narrativa ou mesmo de sua qualidade. Aconteceu na última edição do Festival do Rio, nas sessões de A Voz de Hind Rajab, em que a sala de cinema inteira caiu no mais absoluto silêncio, seguido por uma profunda tristeza, ao acompanhar os desdobramentos do drama semidocumental sobre uma menina presa em um carro em uma Gaza devastada pela guerra; e e Hamnet: A Vida Antes de Hamlet, que encerrou aquele ano com o público entregue às lágrimas.

Em 2026, o gatilho dessa catarse é A Bola Preta, novo longa de Javier Ambrossi e Javier Calvo, "Los Javis", responsáveis pela prestigiada minissérie Veneno (2020), escolhido para abrir a 28ª edição do Festival do Rio, que aconteceu entre 1º e 11 de outubro.

Inspirada pela obra do poeta e dramaturgo espanhol Federico García Lorca, a produção cruza três histórias através do tempo. A primeira delas é a de Carlos (Milo Quifes), em 1932, um jovem que, a pedido do pai, tenta se tornar membro de um exclusivo clube para homens em um cassino local, mas acaba impedido por rumores sobre a sua sexualidade.

A segunda é a do jovem militar Sebastián Azcuna (Guitarricadelafuente, Natal Amargo) e a do rebelde Rafael Rodríguez Rapún (Miguel Bernardeau, Elite) que, de lados opostos da Guerra Civil Espanhola em 1937, acabam construindo um vínculo afetivo que, h

E, por fim, a de Alberto (Carlos González, Veneno), um pesquisador que, em 2017, investiga as histórias de pessoas LGBTQIAPN+ apagadas ao longo do tempo. Em meio ao trabalho, ele recebe a notícia de que o seu avô materno faleceu e lhe deixou uma herança que o conecta diretamente a um histórico de violência, vidas e amores perdidos, e marcas deixadas pela intolerância.

No prólogo de La piedra oscura, peça de Alberto Conejero, que inspira A Bola Preta, o historiador Ian Gibson afirma que, por causa de uma Espanha "desprovida de estabilidade política e social durante séculos, sempre em guerra consigo mesma e sem fé em um possível futuro melhor", histórias como a de Lorca acabaram perdidas no tempo graças à "resistência de famílias e particulares — por receio do famoso "o que vão dizer" — em abrir seus documentos íntimos aos olhos dos pesquisadores, e isso, às vezes, até muitos anos após a morte dos envolvidos".

Ainda que o espectador não saiba desse histórico, conforme as peças do quebra-cabeça de A Bola Preta vão se encaixando, fica claro do que o filme se trata: é uma tentativa de resgate da memória, uma obra que luta contra o apagamento de pessoas LGBTQIAPN+ como Rafael Rodríguez Rapún e Federico García Lorca, que não viveram tempo suficiente para vivenciar o seu amor como deveriam, recusando-se a esquecer quem veio antes de nós. "Não vou desaparecer por completo. Ninguém desaparece por completo", diz um dos personagens, em certo momento, e isso, de fato, concretiza-se.

Quase cem anos após a sua morte, Federico García Lorca é reapresentado ao mundo em uma produção que bebe de seu trabalho para criar uma obra de arte — porque é isso que A Bola Preta é.

Imageticamente, é uma das produções mais bonitas do cinema recente. Em uma de suas primeiras cenas, vemos Sebastián usar as flechas cravadas no corpo de uma estátua de São Sebastião, adotado pela comunidade queer como o seu padroeiro, e parar, por alguns poucos segundos, contemplando a morte à espreita — que não consegue alcançá-lo, como se protegido pelo santo. É uma das imagens mais belas e simbólicas do cinema — e hão de concordar comigo.

Narrativamente, A Bola Preta é pura poesia. Em uma das cenas, Rafael diz que Federico jamais conseguiria escrever algo que não houvesse poesia, então não havia como ser diferente."O coração de uma bicha é um oceano de segredos", diz uma personagem, arrancando risos da plateia. E até essa frase é carregada de significado, de sentimento, de história e, é claro, poesia.

Depois de Veneno, que recupera a história de luta do ícone da comunidade transgênero na Espanha, Cristina Ortiz Rodríguez, mais conhecida como La Veneno, Javier Calvo e Javier Ambrossi, vencedores do prêmio de Melhor Direção no Festival de Cannes deste ano, mais uma vez dedicam o seu trabalho artístico a pessoas queer que, assim como eles, merecem e devem ser celebradas.

https://youtu.be/8svqSkpiPFM?si=O88xuGl-2NjYXR85

Rolling Stone Brasil Rolling Stone Brasil
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