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Edgar Morin falou sobre Brasil, arte e 'catástrofe provável' em entrevistas ao 'Estadão'; relembre

Pensador humanista, um dos mais importantes do século 20, morreu aos 104 anos; leia trechos das entrevistas

29 mai 2026 - 23h21
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Edgar Morin, um dos mais importantes pensadores do século 20, veio ao Brasil várias vezes ao longo dos anos - e, em suas passagens pelo País, falou ao Estadão sobre temas variados, como o futuro da humanidade, os conflitos na Palestina e a arte.

Relembre abaixo alguns dos momentos mais marcantes das conversas com o filósofo, que morreu nesta sexta-feira, aos 104 anos:

'Catástrofe provável'

Em 2002, o filósofo falou sobre a importância de reconectar os diferentes saberes para, assim, pensar no nosso "destino planetário". "Esse é o desafio, porque temos à nossa frente uma catástrofe provável", disse.

Instigado a explicar melhor o termo, completou: "Um observador, analisando os melhores dados de que dispõe, deve concluir que se prepara para o futuro uma catástrofe ecológica. Ao mesmo tempo, multiplicam-se as armas nucleares, químicas e biológicas, num clima de aumento da tensão planetária, apontando também uma catástrofe militar. Vemos ainda os conflitos se exacerbando, e mesmo os conflitos locais (como o do Oriente Médio) preocupam todo o planeta. No Oriente Médio, opõem-se cristãos e muçulmanos, ricos e pobres, jovens e velhos, todos os microcosmos estão ali representados. Digo que há lá um câncer, cuja origem eu defino assim: num mesmo território, duas nações foram formada. Se a catástrofe é assim provável, não se deve julgá-la, no entanto, uma fatalidade."

Edgar Morin em visita ao Brasil, em 2009
Edgar Morin em visita ao Brasil, em 2009
Foto: Ernesto Rodrigues/Estadão / Estadão

'Nova perspectiva da humanidade'

Na mesma entrevista, Morin refletiu sobre o mundo pós-11 de setembro e a necessidade de encontrar novos caminhos para a humanidade.

"Se analisamos o problema do ponto de vista global, quais foram as tentativas para melhorar as relações humanas? Tentamos a moral, mas não tivemos um grande resultado. Mesmo religiões como o cristianismo e o islamismo, que têm um fundo moral belo, foram profundamente imorais em suas guerras, suas cruzadas. A educação: é verdade, é preciso renová-la, para que ela tenha um papel efetivo. A reforma das instituições: é verdade, mas mesmo a União Soviética, que eliminou toda uma classe dirigente e eliminou mesmo o capitalismo, criou uma nova sociedade de dominação e exploração. Creio que é preciso reunir todas essas e outras vias, porque elas são insuficientes de modo independente para dar uma nova perspectiva à humanidade."

'A grandeza do Brasil'

Em 2009, em nova passagem pelo Brasil, Morin discorreu sobre sua visão do País:

"Vejo a grandeza do Brasil na pluralidade étnica de Salvador e na biodiversidade da Amazônia. Acho, porém, que é importante a restituição dos territórios e o reconhecimento das culturas das populações indígenas, porque o mundo considera a Amazônia patrimônio da humanidade, mas pensa pouco na preservação dessas culturas. A noção de desenvolvimento hoje corrente pode ser devastadora para os índios - e não apenas para eles, mas para toda a humanidade, considerando que a integração dos índios à sociedade não pode significar a desintegração da cultura indígena. Isso pode trazer consequências graves, como a degradação da floresta pelo uso de pesticidas nos projetos agrícolas dos latifundiários."

Conflito Israel-Palestina

Ainda em 2009, o filósofo disse ver um momento crítico no conflito, e que o tempo da paz havia se desintegrado.

"Vale dizer, Israel passou de uma concessão sionista, socialista, de esquerda, para uma concepção nacionalista, com a religião ocupando cada vez mais o papel principal nessa história. Acho que essa desintegração impede que qualquer tipo de negociação de fato aconteça. Além disso, há o problema da Palestina, dividida em duas, sendo o Hamas outro grande obstáculo para a paz. Infelizmente, mesmo com a mudança da política americana após a saída de Bush, Obama ainda terá de enfrentar o conservadorismo de quem detém o poder em Israel. Temos a solução nas mãos, mas a política de Israel é contra ela".

A importância da arte

Em sua última conversa com o Estadão, em 2019, por ocasião de uma visita a São Paulo, Morin falou sobre o papel da arte e das relações humanas na construção dos saberes. "Um romance me oferece um conhecimento sobre a humanidade que nenhuma ciência consegue, pois apresenta relações complexas. Por isso, acredito que não é possível ensinar apenas pela ciência".

"Vivemos em um mundo em que o poder econômico tenta impor a prosa da vida", prosseguiu. Mas, felizmente podemos encontrar a solução em nós mesmos, quando nos reunimos com familiares ou amigos, ou quando assistimos a um bom filme. São formas de resistência a esse poder moderno que quer nos transformar em robôs a partir das vantagens tecnológicas."

Estadão
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