De fake news à ancestralidade: brasileiros são destaque em festival de fotografia parisiense
A 16ª edição do Festival Circulation(s), dedicada à jovem fotografia europeia, acontece no CENTQUATRE-PARIS (104) Este ano, o evento destaca o trabalho de 26 artistas de 15 nacionalidades, incluindo dois fotógrafos brasileiros que trazem reflexões profundas sobre identidade e política: Rafael Roncato e Ricardo Tokugawa. Ambos trabalham entre Brasil e Europa.
Patrícia Moribe, em Paris
Vitrine plural para a criação contemporânea, o festival acontece entre 21 de março e 17 de maio de 2026.
A curadora brasileira Iona Mello, que passou a integrar a direção artística do coletivo Fetart nesta edição, organizador do festival, é a responsável por apresentar os trabalhos de Tokugawa, do italiano Davide Degano e da irlandesa Ellen Blair. Ao explicar o que norteia a seleção dos artistas, Ioana ressalta que o festival busca uma fotografia emergente, priorizando nomes que ainda não possuam grandes exposições na França, além de focar na diversidade de olhares, temas e suportes. Segundo a curadora, o objetivo é "mostrar uma fotografia europeia de norte a sul e temáticas diferentes, mídias diferentes", garantindo também a paridade de gênero entre os participantes.
O trabalho de Ricardo Tokugawa, intitulado "Utaki" mergulha nas raízes de sua ancestralidade como descendente de imigrantes de Okinawa no Brasil. O artista utiliza a fotografia para questionar sua própria identidade em um cruzamento de culturas que nem sempre lhe oferece um lugar de pertencimento absoluto. "Por mais que o Brasil hoje em dia seja a maior comunidade japonesa fora do Japão, lá eu não sou visto como brasileiro. No Japão eu não sou visto como japonês. Então eu venho da onde? Quem sou eu?", indaga Tokugawa ao descrever as motivações de seu projeto, que utiliza imagens construídas para interrogar o que é tradição e o que é invenção.
Política da desinformação
A presença brasileira se estende ao projeto de Rafael Roncato, "Tropical Trauma Misery Tour", que contou com a curadoria de Emmanuelle Halkin. Ela descobriu o trabalho de Roncato durante o festival Foto em Pauta, em Tiradentes (MG), e percebeu como a análise do artista sobre a ascensão da extrema direita no Brasil ressoava com o cenário político francês e europeu. Ela destaca que as imagens de Roncato, marcadas por uma estética "pop" e abertamente pós-produzidas, dialogam perfeitamente com a era da pós-verdade, criando uma "cenografia alternativa e singular" que é marca registrada do Circulation(s).
Roncato define sua obra como uma instalação que disseca a propaganda digital e o caos das informações manipuladas. O artista explica que o atentado sofrido por Jair Bolsonaro em 2018 serviu como um "trampolim midiático" para a criação de um mito fundamentado em notícias falsas e polarização.
Para evitar a propagação direta da imagem do político, Roncato utilizou um ator holandês para performar gestos e roupas que remetem a figuras populistas globais. Ele destaca a ideia da ilusão e das informações falsas. "Parece que é, mas não é. E é isso", afirma o fotógrafo, que também é jornalista e busca, através do humor e do riso nervoso, uma forma de superar e refletir sobre temas sociais complexos.
Além dos brasileiros, o festival dedica um foco especial à Irlanda, apresentando séries de quatro artistas — Ellen Blair, Clodagh O'Leary, Dónal Talbot e Ruby Wallis — que exploram desde a alegria queer até memórias políticas de territórios em conflito. Outros destaques da edição incluem Marcel Top, que investiga a resistência contra algoritmos de vigilância, e Alžběta Drcmánková, que transforma imagens digitais em bordados táteis para meditar sobre a fragmentação da memória.