Culto que prometia iluminação à supermodelos vira série documental da HBO
O diretor Chris Smith e o ex-membro do Eternal Values, Hoyt Richards, discutem sua nova série 'Os Escolhidos da Beleza' e o líder carismático que mantinha as pessoas sob seu controle
No verão de 1978, Hoyt Richards visitou Nantucket com sua família. Um de seis filhos, o garoto com então 16 anos adorava a viagem anual à ilha de Massachusetts, um paraíso repleto de águas cristalinas, jet skis e sol abundante. Mas quando ele estava sentado na praia com um amigo, um homem estendeu sua toalha, sentou-se ao lado de Richards e começou a conversar. "Eu tinha ouvido falar dele por meio do meu amigo, um cara de Nova York que se interessava por astrologia e religiões antigas", lembra Richards. "Lembro-me dele dizendo: 'Ah, você é muito inteligente, então vai entender isso.'"
O homem se apresentava como Frederick von Mierers, e os dois rapidamente iniciaram uma amizade que acompanhou Richards até a faculdade em Princeton e, posteriormente, durante sua vida como um dos primeiros supermodelos masculinos do mundo. Mas o que Richards pensava ser um coletivo com um profundo amor pelo misticismo, espiritualidade e crescimento pessoal rapidamente se transformou em uma seita controladora denominada "Eternal Values" (ou "Valores Eternos"), com Mierers em uma posição de poder absoluto. Richards pensava que eles eram uma família. Agora, ele chama isso de outra coisa: um culto.
A nova série documental da HBO, Os Escolhidos da Beleza (Bring Me the Beauties) explora as origens do misterioso grupo Eternal Values, dos anos 80, e das belas modelos que, em sua maioria, compunham suas fileiras. Dirigida por Chris Smith (Onda de 100 Pés), a série em três partes também investiga os ensinamentos e exigências de Mierers, além de sua verdadeira história, que ele tentou esconder por trás de alegações de poder sobrenatural. O próprio título vem de uma exigência comum que Mierers fazia a seus seguidores, baseada em seu desejo de se cercar das pessoas mais atraentes que conseguisse encontrar: "Tragam-me as beldades".
"A esperança e a promessa do grupo era uma exploração muito altruísta da autorrealização e a tentativa de ajudar as pessoas a se tornarem as melhores versões de si mesmas. Era isso que as pessoas esperavam alcançar ao se inscreverem", disse Smith à Rolling Stone. "Assim que começamos a investigar, tudo começou a se desdobrar e se expandir de uma forma para a qual eu acho que não estávamos totalmente preparados."
A promessa dos Valores Eternos
Mierers atraía seguidores com discussões sobre iluminação e clareza mental, frequentemente girando em torno de dieta, exercícios, celibato e a disposição de abrir mão de bens materiais. Mas, uma vez que as pessoas estavam completamente cativadas — muitas se mudando para um apartamento em Manhattan com ele — ele revelava sua verdadeira mensagem. Mierers acreditava ser um "walk-in", um alienígena que havia assumido um corpo humano na Terra. Ele ensinava que sua terra natal era uma estrela chamada Arcturus, o centro espiritual do universo, e que somente ele poderia salvar seus seguidores de uma catástrofe iminente que destruiria grande parte do mundo. Se seguissem seus ensinamentos, que incluíam a compra de cristais de cura, seriam resgatados durante as tribulações da Terra e trazidos de volta quando tudo terminasse para liderar a nova era.
"Você pode olhar para uma história como essa de fora e pensar: 'Eu jamais me envolveria com algo assim'", diz Smith. "Mas muitas pessoas têm relacionamentos com cultos em suas vidas dos quais talvez nem se deem conta, sejam eles afiliações a partidos políticos ou religiões."
Mierers conseguiu levar uma vida luxuosa graças aos fundos arrecadados por seus seguidores. Enquanto estudava em Princeton, Richards foi descoberto pela agência de modelos Ford e rapidamente se tornou um modelo masculino muito bem pago. Após a formatura, mudou-se para Nova York, onde doou quase todo o seu dinheiro diretamente para a Eternal Values. "Minha carreira estava decolando, e eu achava que era porque eu estava envolvido com esse grupo e tinha feito uma escolha consciente de me dedicar a Deus e a viver uma vida espiritual", disse à Rolling Stone. Em certo momento, ele ganhava quase US$ 90.000 (cerca de R$ 450 mil, na cotação atual) por mês — e Mierers ficava com praticamente tudo.
"Ignorei sinais e oportunidades simplesmente porque queria acreditar no cenário que Freddie apresentou, nessa oportunidade de me juntar a esse grupo e movimento que ajudaria o mundo", lembra Richards. "Agarrei-me a isso com tanta força que, mesmo quando surgiam informações claramente contraditórias, eu simplesmente as bloqueava e me autocensurava, porque queria muito manter aquela narrativa inicial. Você se torna seu próprio pior inimigo."
Tensão crescente
O grupo acreditava estar alcançando a iluminação espiritual ao ouvir Mierers e deixar para trás o conforto, muitas vezes dormindo em quartos luxuosamente decorados, amontoados no chão. Mas Mierers colocava os membros uns contra os outros, incentivava a vigilância e começava os "slammings", críticas inesperadas sobre todos os aspectos dos membros, desde a aparência até as ações.
Paul Hinton, ex-membro da Eternal Values, também afirma no documentário que os ensinamentos de Mierers davam a entender que ele estava acima dos desejos sexuais, mas o líder mantinha relações sexuais secretas com profissionais do sexo masculinos. Hinton acredita que esse comportamento acabou expondo Mierers ao HIV/AIDS.
A série documental inclui imagens de arquivo inéditas e entrevistas presenciais com ex-integrantes do Eternal Values, muitos dos quais levaram anos para se recuperar de seus relacionamentos com Mierers. Uma ex-integrante foi a supermodelo Jacki Adams, que se juntou ao grupo depois de ler sobre Mierers no livro de 1985, Aliens Among Us, da jornalista Ruth Montgomery.
Durante o tempo em que Adams esteve no grupo, ela conheceu John Andreadis, membro da Eternal Values. Mierers acreditava que Andreadis também era um "infiltrado", destinado a ser o próximo líder do grupo. Mas quando Andreadis e Adams se apaixonaram e se casaram, Mierers considerou o relacionamento uma traição e se voltou contra eles. Convencida de que o grupo não era mais confiável, Adams concedeu uma entrevista reveladora a um repórter da Vanity Fair, chamando a Eternal Values de "seita" e expondo a prática de Mierers de cobrar milhares de dólares dos membros por pedras preciosas e cristais baratos.
Mas, em 1990, Mierers morreu de complicações da AIDS, deixando um vácuo de poder que dividiu o grupo em duas facções. O artigo da Vanity Fair foi publicado pouco depois, ostracizando ainda mais Adams de seus antigos amigos e fazendo com que os membros restantes se isolassem ainda mais.
"Não sei se teríamos conseguido fazer esta [série documental] sem Hoyt ou Jackie. A ascensão de Hoyt no mundo da moda também foi um catalisador para o grupo, mas Jackie foi realmente o catalisador da queda", diz Smith. "Foi ela que percebeu que este [grupo] não era o que parecia e não era um ambiente saudável. A saída dela foi realmente o começo do fim."
Uma lição importante
Após a morte de Mierers, Richards afirma que o grupo se tornou ainda mais abusivo, frequentemente restringindo sua alimentação, cometendo agressões verbais e, certa vez, até raspando sua cabeça para dificultar que ele conseguisse trabalhos como modelo. Sua família tentou pelo menos uma intervenção sem sucesso, e Richards precisou de duas tentativas para deixar o grupo. Depois de anos ganhando milhões, ele tinha apenas US$ 3.000 no bolso. Ele fugiu e foi morar com seu amigo íntimo Fabio Lanzoni — um favor que, segundo ele, salvou sua vida.
"Eu estava tão traumatizado e apavorado, passando por um transtorno de estresse pós-traumático complexo", diz Richards. "O Fabio teve a sensibilidade de dizer: 'OK, algo realmente aconteceu com meu amigo. Ele está como uma sombra do cara que eu conhecia, mas se eu der a ele um espaço seguro e normalizar as coisas, quando ele estiver pronto, ele virá conversar.' Foi isso que realmente me deu o tempo necessário para começar a processar toda essa experiência."
Agora com 64 anos, Richards afirma que participou de Os Escolhidos da Beleza não apenas para alcançar uma catarse pessoal, mas também para mostrar às pessoas como é fácil se deixar influenciar por uma pessoa carismática.
"Descrevo minha experiência como um relacionamento de 20 anos com um grupo, como se fosse um culto. Acredito que relacionamentos sectários fazem parte da condição humana. São relacionamentos em que, inconscientemente, entregamos nosso poder a outra pessoa e, depois, sofremos por isso", diz Richards. "As pessoas se sentem atraídas por esse tipo de história porque, inconscientemente, já vivenciaram algo semelhante, muito mais sutil, mas com a mesma dinâmica em jogo. Isso é realmente universal." Assista o trailer a seguir:
https://www.youtube.com/watch?v=wEecc5JvWbs
Comentários
Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie.