Como os memes são usados como ferramentas de manipulação política
Engraçados, provocativos e, por vezes, de gosto duvidoso: os memes tornaram‑se parte da comunicação cotidiana e, ao mesmo tempo, uma poderosa ferramenta política, pois moldam percepções — geralmente sem percebermos.No início deste ano, um "pinguim niilista" viralizou: o pequeno vídeo mostra um pinguim que abandona sua colônia e caminha sozinho rumo ao gelo eterno — um comportamento extremamente atípico do ponto de vista biológico e, ao mesmo tempo, uma imagem tragicômica cheia de simbolismo, que convida a interpretações. As imagens originais são de um documentário do cineasta Werner Herzog, de 2007.
Hoje, os memes são parte integrante da cultura da internet e não podem mais ser dissociados da comunicação digital. Eles também passaram a ter um papel no discurso político: moldam percepções e podem influenciar a formação de opiniões. Isso é particularmente evidente nos Estados Unidos, onde as campanhas eleitorais, pelo menos desde 2016, vêm sendo acompanhadas por uma enxurrada cada vez maior de memes, que também passaram a marcar o cotidiano político.
Os memes também são parte fundamental da cultura brasileira atual, e cada novo capítulo ou evento da nossa história costuma contar com uma lista deles. Tanto é verdade, que o governo federal já entendeu que precisava surfar nessa onda, e exemplos não faltam, como a explicação da proposta de mudança do imposto de renda usando gatinhos publicada nas plataformas oficiais do governo.
O uso dos memes, no entanto, não é uma estratégia apenas do governo, mas também da oposição, que começou uma guerra online em 2024 acusando o então ministro Fernando Haddad de criar mais impostos.
Em linha gerais, porém, o uso indiscriminado de memes pode tomar um rumo perigoso, afirma o cientista da cultura Wolfgang Ullrich, autor do livro "Memokratie. Soziale Medien und autoritäre Bildpolitik" (ainda sem edição em português). Pode‑se observar que, com muita frequência, "conteúdos extremamente agressivos, muitas vezes ofensivos, nas redes sociais — e sobretudo memes — dominam o discurso político". Como consequência, haveria cada vez menos debate real entre as pessoas.
"Cada lado tenta mobilizar seus próprios apoiadores com imagens engraçadas, muitas vezes cínicas ou sarcásticas, e comentários", disse Ullrich à DW. Além disso, a própria política passa a ser moldada "em forma de meme", "isto é, ajustada para ser o mais estridente e provocadora possível, como se tudo girasse apenas em torno de punchlines [frases curtas, diretas e de impacto, usadas para provocar uma reação imediata] em vez de argumentos".
Trump e os "guerreiros dos memes"
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, domina especialmente bem o jogo da atenção. Trump segue as regras das redes sociais, onde geralmente aquilo que chama mais atenção é o que é mais extremo, mais provocador e que gera reações.
Ele conta com a ajuda de seus chamados "guerreiros dos memes": fãs e apoiadores que produzem diariamente imagens geradas por IA e memes para promover sua agenda política. "E todos naturalmente esperam que isso agrade tanto ao ídolo que ele mesmo acabe postando", diz Ullrich — como ocorreu com a imagem gerada por IA publicada por Trumpem meados de abril, após um atacas ao papa, na qual o republicano aparece como uma figura salvadora semelhante a Jesus. A publicação foi apagada pouco depois, entre outros motivos, devido a críticas vindas do próprio campo conservador.
Exatamente esse tipo de comunicação polarizadora é problemático para a democracia, afirma Ullrich. As discussões ficam emocionalmente tão carregadas "que um debate concreto acaba se tornando impossível". No entanto, a democracia se define justamente por isso: ser capaz de conduzir um conflito em torno de uma causa comum — com argumentos em vez de ofensas ou provocações.
Distinção em relação à sátira
A imagem de Donald Trump como uma figura sagrada também poderia ser entendida como uma paródia feita por um opositor, com o objetivo de retratar de forma satírica a autoexaltação do presidente. O efeito, porém, seria diferente, porque "as imagens só adquirem seu significado a partir do lugar e do contexto em que são utilizadas", explica Ullrich.
Assim como a caricatura clássica, os memes também podem servir para criticar os poderosos e questionar estruturas sociais. Mas, quando se tornam um meio central de uma potência global que os utiliza para ridicularizar adversários políticos ou rir às custas dos mais fracos, então, segundo Wolfgang Ullrich, ultrapassa‑se o campo da sátira. "Isso é, na verdade, uma perversão de tudo aquilo que a sátira e a caricatura tradicionalmente representam."
Política questionável é encoberta
Além disso, temas sérios são por vezes banalizados de maneira inadequada. Como exemplo, Ullrich cita uma publicação do Departamento de Segurança Interna dos EUA, em junho de 2025, na plataforma X. O post mostrava uma imagem gerada por IA do planejado centro de detenção para deportações chamado "Alcatraz dos Jacarés", nos pântanos dos Everglades, na Flórida. Em primeiro plano aparecem jacarés usando bonés do Serviço de Imigração e Controle de Alfândegas (ICE). A imagem vinha acompanhada da legenda "Em breve!".
"Com memes assim, desvia‑se completamente o foco do fato de que estamos falando de pessoas, de destinos humanos e também de procedimentos que são, no mínimo, juridicamente questionáveis". Embora o post tenha provocado críticas e um debate sobre se esse tipo de representação seria aceitável, o foco da discussão acabou sendo deslocado, afirma Ullrich, "e aquilo que realmente importa — as pessoas — sai de vista".
No fim das contas, a "memificação" da comunicação política acaba beneficiando aqueles com tendências autoritárias, diz Ullrich. Isso porque se cria um espaço de falta de compromisso, no qual sempre se pode alegar que tudo não passou de uma piada.
Desenvolver estratégias de defesa
A principal medida para se proteger da manipulação por meio de memes é compreender os mecanismos das redes sociais e observar a si mesmo e às próprias reações, afirma Ullrich.
"Estamos acostumados a que governantes autoritários nos imponham algo grandioso e intimidador, nos esmagando com imagens monumentais, no estilo Leni Riefenstahl [que dirigiu filmes de propaganda para os nazistas]. Os memes, porém, chegam de forma pequena e discreta".
E o fato de essa ser uma nova forma de estetização da política — profundamente manipuladora, populista e sugestiva — "precisa se tornar muito mais consciente para todos nós", conclui.
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