Clássico de Golding e novo livro Paulliny Tort conduzem leitor à pré-história
'Os Herdeiros', do britânico, e 'Os Imortais', da brasileira, versam sobre as tensões entre neandertais e os Homo Sapiens; autora participa da Flip 2026
Ao contemplarmos os inícios da nossa espécie, vislumbramos também o término: "Que o fim do mundo é bonito, realmente", pensa uma garota ao contemplar o mar n'Os Imortais (ed. Fósforo). "Agora, além de todo esse barulho, o que pode haver aqui?" Bom, há uma série de viagens, incluindo aí a jornada imaginativa empreendida por Paulliny Tort na recriação da aurora do Homo sapiens e do crepúsculo do Homo neanderthalensis.
Um grupo de neandertais, após matar alguns sapiens e tomar a caverna onde viviam, adotam aquela que logo será a única sobrevivente. Embora ocupe boa parte da primeira parte do romance (narrada pela perspectiva do Homem, o líder dos neandertais), o assalto serve como introdução ao que de melhor o livro narrativamente traz: o crescimento da menina "estrangeira" e a luta por sobrevivência.
Diante dessa breve descrição, o leitor talvez se lembre d'Os Herdeiros (Alfaguara, trad.: Sergio Flaksman). O clássico do nobelizado William Golding postula questões fundamentais acerca do humano e de sua (pré-)história com uma premissa similar à d'Os imortais, mas invertida: ali, um grupo de neandertais é pouco a pouco dizimado pelas "pessoas novas" e tem um dos seus, ainda bebê, levado pelos sapiens. Dadas as semelhanças entre as obras, sua leitura sucessiva é um ótimo exercício.
Golding, escrevendo nos anos 1950, enseja um alargamento dos sentidos (note elaborações como os "pés de Lok enxergavam") e da comunicação possível entre os neandertais para transmitir ficcionalmente a sensação de um presente eterno, mas alquebrado, invadido pela violência inédita da nova espécie. A imediatez modulada pelas estações dá lugar ao terror modulado pelas agressões. Em meio a tudo isso, a emergência da metaforização: "Lok começou a usar a semelhança como ferramenta. (...) 'As pessoas são como um lobo esfaimado no oco de uma árvore.'" Impressiona, ainda, como Os herdeiros foi concebido: em sua maior parte, acompanhamos tudo junto a Lok, um dos neandertais; depois, temos um capítulo de passagem; por fim, as páginas finais trazem uma narração onisciente com os sapiens. Em outras palavras, a obra alude à transição evolutiva desde a sua estrutura.
A natureza é inóspita, mas nada, nem mesmo o inverno, a fome ou a erupção de um vulcão, nada é pior do que os indivíduos — no livro de Golding, os sapiens; em Tort, não importa a espécie. Óbvio que há momentos de proximidade e generosidade, mas a violência e a loucura espreitam até o final: n'Os Herdeiros, ficamos com a "criatura avermelhada", solitária; n'Os Imortais, um dos neandertais abandona o grupo, consome alucinógenos e, diante da vastidão oceânica, perde a cabeça.
Os autores engendram máquinas do tempo capazes de transportar o leitor àqueles tempos e circunstâncias ou, melhor dizendo, a recriações literárias daqueles tempos e circunstâncias. Constituindo uma curiosa espécie de paradoxo, a novidade diz respeito às formas como cada autor imagina o passado.
Em seu flerte pós-moderno com a Eneida de Virgílio ("Mu/sa, / mi/h/i_" etc.), Os imortais seria inefetivo se às descrições faltasse vivacidade: "A fome é um transe. Depois das tonturas e dos calafrios, que são até singelos, vêm a náusea, a raiva estremecedora, a violência das cólicas, o desespero, então de repente não se sente mais nada e a cabeça flutua no vazio". Os personagens veem-se em um "desterro" que "não parece o mundo, mas o antimundo". Frente à possibilidade real de extinção, o fim parece total: "Outro dia, a Velha gesticulou dizendo que, quando o último parente morrer, não (...) haverá mais nada, certa de que o mundo desaparecerá quando eles desaparecerem". A Velha é uma neandertal, mas essa concepção não deixa de ser sofisticada, ainda mais se filosófica e anacronicamente pensarmos em "mundo" não só como ambiente físico, mas como a teia de sentidos relacionais que construímos e sustentamos.
Tal compreensão se faz ainda mais presente n'Os Herdeiros, quando a chegada dos sapiens provoca uma ruptura comunicacional nos neandertais: "O outro tinha afetado os fios que o ligavam a Fa, Mal, Liku e o resto das pessoas. E esses fios não eram apenas o que conferia beleza à vida, mas sua própria substância". Antes da morte física, da extinção, o fim do "mundo".
Para concluir, uma derradeira aproximação: se o autor inglês avança em meio aos sapiens e à sua violência fratricida, ecoando talvez as ruínas então recentes das guerras mundiais e do Holocausto, a brasileira cria imagens que dizem respeito às intempéries do presente e à abreviação do futuro, cada vez mais restrito pela devastação climática. Assim, é possível dizer que, partindo da pré-história, William Golding aponta para os reflexos distorcidos da história, ao passo que Paulliny Tort começa a traçar as pinturas rupestres da pós-história.
André de Leones é autor do romance Meu passado nazista (Record), entre outros.
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