Quer saber como é um set da Netflix? Visitamos o de Desventuras em Série (Exclusivo)
O que você faz da vida? "Ganho meu pão rasgando as cortinas da casa do Conde Olaf".
A cena era relativamente simples: No estacionamento da mansão do Tio Monty ( Aasif Mandvi), Neil Patrick Harris, caracterizado como Conde Olaf, por sua disfarçado de Stefano, ameaçava matar o bebê Sunny (supostamente dentro de uma mala no porta-malas de um carro) se Violet ( Malina Weissman) e Klaus ( Louis Hynes) se recusassem a entrar no veículo com ele.
Repetida à exaustão (o que não é nenhuma novidade em um set), o momento acontecia em um cenário de tirar o fôlego: um jardim a perder de vista, cujo intrincado trabalho de topiaria ("arte de adornar os jardins conferindo a grupos de plantas, por meio de podas e cortes, configurações diversas", de acordo com o Google) faria Edward, o mãos de tesoura corar de vergonha. Claro, nenhuma planta era real.
O pequeno grupo de jornalistas das mais variadas localidades do mundo acompanhava tudo no grandioso estúdio sentado em cadeiras personalizadas com o nome do veículo de imprensa(?!). Tudo (tu-do) no set de Desventuras em Série, que o AdoroCinema visitou em maio de 2016, em Vancouver, no Canadá, é superlativo. Não é TV. É Netflix.
A única foto disponível do dia em que visitamos o set.
O passeio, que durou em torno de dez horas, funcionou como uma visita guiada (um parque de diversões, se me permitem) por todas as etapas possíveis de criação de um seriado, onde tivemos a chance de conversar com cada responsável pelo engenho produtivo, da faxineira a Ted Sarandos do elenco (começando por Neil Patrick Harris careca logo no início da manhã) ao showrunner Barry Sonnenfeld (confira aqui nossa entrevista com ele), passando pelo designer de produção (o experiente Bo Welch, parceiro de trabalho frequente de Tim Burton), além de diretor de arte, figurinista, maquiadoras, departamento de efeitos visuais, cenografia, a produtora executiva Rose Lam.
Três das palavras mais repetidas pelos profissionais eram: Netflix, Netflix e... Netflix. A primeira impressão é a de que todos passaram por uma espécie de lavagem cerebral. Uma análise mais realista aponta para um bom media training (um tipo de treinamento de porta-vozes). No fim do dia, às favas, todos estávamos embasbacados com a qualidade de produção da série.
" A Netflix nos deu uma liberdade de criação sem intervir muito. Intervenções até podem ser boas, mas quando estúdios e companhias começam a analisar o desempenho de cada episódio conforme a série vai ao ar e passam a intervir na produção enquanto ela ainda está acontecendo, isso cria complicações. Então, o fato de que nós podemos viver nessa 'bolha gigante' aumentou nossa criatividade, nosso entusiasmo", resumiu NPH, chamando a atenção para uma marca do processo criativo da companhia: a de lançar as temporadas numa tacada só - e não picotada, semanalmente, como a audiência estava acostumada.
Sonnenfeld orienta NPH (em outro dia).
Se, de longe, o falso jardim impressionava; de perto, a desventura era ainda mais impactante. Isso porque o interior da casa do Doutor Montgomery (Tio Monty, para os íntimos), o segundo tutor das crianças Baudelaire, cientista especialista em répteis, era ainda mais rico em detalhes - construída com elementos, inclusive, imperceptíveis para as câmeras. (Descrito no livro 2 da série de Daniel Handler, o cenário pode ser visto nos episódios 3 e 4 da série).
Não fosse pelas janelas preenchidas de uma estampa verde (o chroma key), era possível jurar se tratar de um ambiente "de verdade". " Nós tivemos que construir a maior parte dos terrários para acomodar os animais, porque estamos trabalhando com animais de verdade", informou a cenógrafa, Sandy Walker (nenhum jornalista foi picado por nenhuma cobra na realização dessa matéria), que teve que construir um sistema de aquecimento especial para os bichos - e contratou uma pessoa só para "envelhecer" e rasgar as cortinas da casa do Conde Olaf (tá aí um emprego legal, não?)
Como todo estudioso que se preze, Monty tem uma vasta biblioteca recheada de livros. Mas é ficção. Então, são livros falsos, certo? " Nós não pegamos um livro qualquer e simplesmente o adaptamos para as nossas necessidades, porque esse é o tipo de projeto no qual queremos que o público saiba que tudo é real. Então, nós criamos o livro. Fazemos por volta de 20 a 25 páginas e repetimos esse conjunto para que o ator possa usar o livro em cena", explica o diretor de arte, Dean Goodine, que confessa que também recheia a obra com alguns diálogos do roteiro. " Se vocês virem alguém com um livro por aí, esse alguém com certeza está lendo alguma parte do roteiro", denuncia.
Também não vimos isso.
" Criamos muitos jornais também. Escrevemos esses jornais. Mesmo que as pessoas só tenham tempo de ver a manchete de uma dessas publicações em uma cena. Se você pausar o episódio, que é uma coisa que as pessoas fazem hoje em dia, você vai conseguir ler todo o conteúdo", desafia, enquanto faz circular entre os presentes o "braço" do Homem com Mãos de Gancho ( Usman Ally).
Dean, aliás, é a verdadeira Violet - a Baudelaire inventora - do mundo real. " Todo projeto tem um objeto que é o seu produto de merchandising", a Netflix não é boba e ele sabe disso. " O objeto dessa série é a luneta da CSC [a organização secreta dentro da série]", que pode ser vista (bom, pelo menos uma parte dela) já no primeiro episódio, quando Klaus a resgata dos escombros do incêndio que matou os pais.
" Essa luneta não funciona realmente como uma luneta, não quero que vocês se desapontem", alerta os jornalistas que espremem o olho ao manusear o objeto. " Construímos três para a série e existem 81 partes que se movimentam nesses modelos".
Nem isso...
Bom, pelo menos os cenários, uma vez construídos, poderão ser reaproveitados para as futuras temporadas, certo? Wrooong (errado), diria o Conde Olaf. No conjunto de livros que compõem a obra de Daniel Handler, os cenários nunca se repetem e, como tudo está sendo filmado na ordem, essa não é uma opção.
" É bastante desafiador, porque as crianças nunca retornam para o mesmo lugar. Elas pulam de casa em casa. O que estamos fazendo é construir esses enormes ambientes só para destrui-los quando os próximos ambientes precisarem ser construídos", adverte a produtora executiva. Duvida da rapidez? Segundo a cenógrafa, " Nós temos 22 dias para filmar cada livro. Você normalmente tem quatro meses para preparar um longa-metragem e de quatro a cinco meses para filmar para uma história", ela dimensiona. " Neste projeto, o processo tem sido tão rápido, que é a primeira vez em toda a minha carreira que eu não estou cansado dos sets que criamos", depõe o experiente Bo Welch.
E quanto custa essa brincadeira? " O custo é bem alto", se limita a dizer a produtora executiva, Rose Lam - ou US$ 56 milhões para a primeira temporada, de acordo com estimativa do site IndieWire.
Embora a Netflix não seja muito simpática em revelar números, conseguimos apurar alguns. O nariz do Cinde Olaf, por exemplo, teve cinco versões esculpidas até chegar no formato final. Ao todo foram confeccionadas entre 40 e 50 perucas (ao custo de 10 mil dólares, cada), sendo sete ou oito mini perucas (pena que a gente não podia fotografar) apenas para o bebê Sunny.
Tradução: Renato Furtado.
O AdoroCinema viajou a convite da Netflix. E, ao contrário do que possa parecer, não fomos "comprados" pela empresa. Reafirmamos, aqui, o nosso compromisso de continuar odiando The Ridiculous 6.
Nosso editor @renatoherms está no Canadá e visitou os sets de filmagens de #ASeriesOfUnfortunateEvents, série baseada em Desventuras em Série. E não podemos dizer ou mostrar mais nada. #desventurasemserie #lemonysnicket #adorocinema ❤️🎬
Uma foto publicada por AdoroCinema (@adorocinema) em Mai 27, 2016 às 6:07 PDT