Hairstylist que já saiu em 7 escolas no mesmo ano prepara fantasias
Mauricio Pina é um perfeito exemplo de um apaixonado pelo Carnaval. O hairstylist que já desfila há quase 30 anos em São Paulo, já defendeu diversas escolas e investe pesado em suas produções. É ele mesmo o responsável pela criação de suas fantasias, já famosas na passarela do samba. “Eu me tornei essa pessoa diferenciada no Carnaval porque não saio com a minha pessoa, sempre visto um personagem. Não é todo mundo que faz isso, as pessoas normalmente querem aparecer”, contou. Este ano Mauricio vai defender duas escolas em São Paulo e uma no Rio de Janeiro. “Já desfilei por sete escolas no mesmo Carnaval. Foi uma maratona”, revelou.
Hoje em dia o hairstylist prefere pegar mais leve, desfilando no máximo em uma escola por noite. “É muito complicado porque tem toda uma preparação de maquiagem, as minhas roupas geralmente são grandes e dão trabalho”, defendeu. Mauricio sairá como destaque do abre-alas da Rosas de Ouro, Mocidade Alegre e Salgueiro.
Depois dos convites das escolas, Mauricio passou por reuniões com os carnavalescos para o planejamento das fantasias. “Com a Rosas de Ouro eu comecei o contato em julho, daí fiz minha roupa até agosto. Setembro e outubro eu fiz Mocidade Alegre e novembro e dezembro Salgueiro. Depois que eu termino tudo, faço sessões fotográficas e os ajustes finais nas roupas. As minhas fantasias já estão todas prontas e embaladas”, disse.
Confira a entrevista completa com Mauricio Pina:
Terra: Há quanto tempo você desfila no Carnaval?
Mauricio Pina: No Carnaval de São Paulo eu desfilo há 28 anos, mas eu desfilo desde criança. Com uns 5 anos eu já saia na minha cidade, Getulina, e minha mãe fazia as fantasias para mim.
T: Qual foi sua primeira escola em São Paulo?
MP: Unidos do Peruche foi a primeira escola. Desfilei em ala por uns 5, 6 anos e depois eu descobri que queria desfilar em carro alegórico. Comecei com coisas pequenas até sair no abre-alas da escola, como principal personagem do enredo. Aí começaram a surgir convites de outras escolas para eu desfilar. Depois disso, já sai em várias, Nenê da Vila Matilde, Vai-Vai, Imperador do Ipiranga, Camisa Verde e Branco, Gaviões da Fiel, já passei por muitas escolas aqui em São Paulo. Hoje eu defendo a Rosas de Ouro e a Mocidade Alegre, serei destaque de abre-alas das duas este ano. No Rio de Janeiro vou sair na Salgueiro.
T: Quando você começou a desfilar no Rio de Janeiro?
MP: Desfilei no Rio a primeira vez há uns 15 anos, pela Caprichosos de Pilares. Na Mocidade Independente de Padre Miguel eu fiquei um período grande como destaque também e hoje defendo só a Acadêmicos do Salgueiro. Este ano a escola vai falar sobre a fama e eu venho incorporando a fama mitológica, na forma de faraó, que se eternizou e é famoso até hoje.
T: Como são suas fantasias este ano?
MP: Na sexta eu desfilo pela Rosas de Ouro como guerreiro africano. No sábado saio na Mocidade Alegre com uma fantasia que representa o poder da sedução. E no domingo na Salgueiro venho vestido de faraó.
T: Qual é seu recorde de escolas por Carnaval?
MP: Já desfilei por sete escolas no mesmo ano, em 2001. Foram quatro escolas em São Paulo e três no Rio. Foi uma maratona. Na última escola eu já pensava ‘Meu Deus, o que estou fazendo aqui?’. A sétima escola não estava nos planos, mas ganhei uma fantasia de ala de uma amiga que insistiu para eu participar. Foi legal pela brincadeira, mas foi exaustivo demais. Hoje eu desfilo no máximo uma escola por noite, acho que é o ideal. É muito complicado porque tem toda uma preparação de maquiagem, as minhas roupas geralmente são grandes e dão trabalho.
T: Você tem uma escola do coração?
MP: Eu dou o meu coração para cada escola que eu desfilo, quando estou no sambódromo e no momento que estou criando a fantasia. Então todas as escolas que eu saio, são escolhas do coração. É difícil escolher uma. Eu abraço o trabalho de corpo e alma e me dedico totalmente à escola que estou defendendo naquele momento.
T: Quando você criou sua própria fantasia a primeira vez?
MP: Acho que foi no desfile de 1992 pela Unidos do Peruche. Antes eu desfilava com roupas da escola mesmo.
T: Como funciona esse esquema de criar as próprias fantasias?
MP: Depende. Algumas escolas me dão uma liberdade maior. Discutimos qual é o tema, o enredo, qual será o meu personagem e chegamos a um denominador comum de quais serão as cores utilizadas para combinar com o carro e eu crio em cima. Este ano eu tive essa liberdade na Rosas de Ouro, com o carnavalesco Jorge Freitas, que me liberou. Já o Sidney França, da Mocidade Alegre, conversou comigo, falou mais ou menos o que gostaria de fazer e a escola fez um desenho. Mas em cima desse croqui eu pude criar. No Salgueiro o Renato Lage e da Márcia Lage escolhem qual eles acreditam que será o melhor personagem para mim, porque tenho essa capacidade de transformação, e desenham a fantasia. Só que quando eles me entregaram o desenho também falaram que eu poderia criar em cima daquilo. Eu tenho sempre uma liberdade de criação sobre a proposta dos carnavalescos.
T: Quanto tempo antes começa a acontecer o planejamento das fantasias?
MP: Com a Rosas de Ouro eu comecei o contato em julho, daí fiz em julho e agosto. Setembro e outubro eu fiz Mocidade Alegre e novembro e dezembro Salgueiro. Eu tive um tempo legal para trabalhar a fantasia de cada escola. Depois que eu termino tudo, faço sessões fotográficas e ajustes finais nas roupas. As minhas fantasias já estão todas prontas e embaladas.
T: Você vai mostrando as fantasias durante etapas de produção?
MP: Não, só mostro quando as fantasias estão prontas, quando fotografo. As vezes convido eles para o ensaio fotográfico que faço em casa. Eles já veem com a produção completa, com maquiagem e tudo. E geralmente ficam encantados com os resultados, com as roupas que eu crio sobre o sonho deles. Eu tento virar o personagem principal da história que eles querem levar para a avenida.
T: Você tem ajuda na produção das fantasias?
MP: A primeira coisa que você precisa é de um serralheiro, mas esse ano eu fiz minhas fantasias praticamente sozinho. Tive um pouco de ajuda do ateliê da Jane Goulart, do Rio de Janeiro, que fez algumas peças para mim. Daí ela me enviava e eu incrementava em cima do jeito que eu queria. E o restante fui eu mesmo que produzi.
T: Quem ajuda você a se produzir durante o Carnaval?
MP: Eu preciso de uma equipe de staff grande de produção. Eu tenho um fotógrafo, o Ronaldo Rodrigues, um maquiador, que é o Beto França. Eu converso com ele antes e a gente cria uma maquiagem para dar vida ao personagem. As fotos de antes também servem para testar o make que a gente desenvolveu. E tenho também uma equipe de apoio de três pessoas para me ajudar a montar tudo, subir, descer do carro, carregar, que têm que estar o tempo todo comigo. Além disso, preciso também de um motorista que é quem transporta as fantasias para o sambódromo e busca tudo.
T: O que você faz com as fantasias depois que o Carnaval acaba?
MP: Depois eu tenho sempre um cuidado de revisar a fantasia inteirinha. Se tiver algo faltando ou se algo cair eu reponho e deixo a roupa intacta de novo. Embalo tudo em partes no plástico bolha, porque nos anos seguintes as pessoas me procuram querendo essas fantasias para carnavais no interior e de outros lugares. Eu acabo negociando com eles. Este ano mesmo Poços de Caldas levou cinco fantasias minhas. Eu acho ótimo, por que assim elas serão mostradas em outros lugares e vão continuar tendo alma. Se você deixa a roupa guardada ela acaba ali, mas se outras pessoas vestirem o sonho continua vivo, participando de outras histórias. Eu sempre falo que não faço fantasia, eu transformo meus sonhos em realidade. Eu curto muito esse trabalho, faço sempre com muito amor.
T: Você ainda fica nervoso antes de entrar na avenida?
MP: Ainda fico nervoso, sim. Acho que o dia que essa emoção, empolgação passar é melhor parar porque o nervosismo faz parte. Eu fico apreensivo, nos dias que antecedem eu não quero nem trabalhar, fico ansioso querendo que chegue logo o Carnaval. Eu curto muito os ensaios técnicos. Desde que lançam o CD do Carnaval eu compro e fico ouvindo, na minha casa, no carro, tanto o de São Paulo quanto o do Rio. É bom porque além de ficar sabendo o samba das suas escolas fica conhecendo o das outras também. Depois que eu desfilo assisto os outros e quero aproveitar também. Gosto de ver os amigos, as fantasias. A gente que faz fantasia quer que as pessoas vejam, então assim como eu gosto que me olhem fico para observar os outros também. Depois a gente comenta, elogia. Existe um grupo de pessoas que curtem essa arte de fazer fantasias.
T: Suas fantasias são sempre muito diferentes e muitas vezes nem dá para reconhecê-lo. Não liga de não parecer você mesmo?
MP: Eu me tornei essa pessoa diferenciada no Carnaval justamente porque eu não saio com a minha pessoa, sempre visto um personagem. Não é todo mundo que faz isso, as pessoas normalmente querem aparecer. Mas eu tenho esse desprendimento da minha imagem, quero apresentar um personagem. Essa coisa de transformação é uma marca minha mesmo. Uma característica das minhas fantasias é geralmente nem mostrar muito meu rosto.
T: Como está sua expectativa para suas escolas no Carnaval deste ano?
MP: Estou com uma expectativa ótima. Eu acredito que aqui em São Paulo uma de minhas escolas será campeã e a outra vice. E também estou apostando muito neste enredo sobre a fama do Salgueiro, acho que está rumo ao título de 2013. Está incrível, estive na Cidade do Samba, as alegorias estão fantásticas, fui no ensaio técnico e está perfeito.
T: Ano passado suas escolas em São Paulo foram campeã e vice. Como fez no desfile das campeãs?
MP: E ainda fui vice no Salgueiro! Eu consegui desfilar na campeã Mocidade, mas como era uma seguida da outra eu coloquei um amigo para me representar na Rosas. No Rio também pedi para um amigo que curte ir no meu lugar, acabo cedendo, não tem jeito. Como eu desfilo bastante acho legal realizar também o sonho de outras pessoas. Uma vez um menino na Mocidade disse que era o sonho dele sair no abre-alas, então eu dei a roupa para ele sair. Eu não tenho esse apego, não há problema em doar uma roupa para alguém.
T: Você tem algum ritual antes de entrar na avenida?
MP: Eu tenho, sim. Sempre agradeço muito a Deus o dom que ele me deu de fazer essa arte do Carnaval. Isso é um dom, então sempre agradeço antes de olhar para multidão, primeiro olho para o céu e depois encaro todo mundo. Quando me elevam com o guindaste parece que estou chegando mais perto de Deus. Tenho muita fé.
Comentários
Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie.