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"Beyoncé do Samba", Bianca Monteiro pisou pela 1ª vez na Portela aos 13 anos até ser coroada rainha

À frente da bateria da escola com mais títulos do Rio de Janeiro, ela vai para oitavo desfile no posto

9 fev 2024 - 05h00
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Rainha da Portela está no posto há 8 anos
Rainha da Portela está no posto há 8 anos
Foto: Daniel Pinheiro/AGNews

O maior sonho de uma passista de escola de samba é ser rainha de bateria. Na Portela, isso parecia distante. Por muito tempo, as meninas de Madureira viam a coroa passar entre famosas, como Sheron Menezzes e Luiza Brunet. Até o reinado voltar para uma portelense ‘raiz’. Criada na agremiação, Bianca Monteiro desfila pela oitava vez como destaque da azul e branca no carnaval do Rio de Janeiro. 

Hoje aos 35 anos, a rainha-águia da Portela lembra que começou a frequentar a escola ainda adolescente, com 13 anos. No posto de passista, ela sempre quis ocupar o lugar de destaque na Tabajara do samba. No entanto, nem nos seus maiores sonhos esperava que, no seu ano de estreia, a agremiação de Madureira quebraria um jejum de 33 anos. 

Em 2017, quando desfilou pela primeira vez como rainha de bateria, a portelense Bianca Monteiro experimentou um frio na barriga que garante não ter perdido até hoje. Naquele ano, a agremiação levou seu 22º título com o samba-enredo Quem nunca sentiu o corpo arrepiar ao ver esse rio passar.

Oito anos depois de atravessar a Marquês de Sapucaí como rainha estreante, Bianca falou ao Terra sobre sua história com o samba e cobrou a participação de ex-rainhas e musas no dia a dia da comunidade portelense. Ela ainda detalhou a rotina puxada pré-carnaval e deu opinião sobre o que é ser uma rainha de bateria de verdade.   

Rainha de bateria raiz

A história de Bianca Monteiro com a Portela é igual a de muitas meninas com as suas escolas de samba do coração. É um amor passado de geração em geração de famílias que vivem o carnaval o ano inteiro. No caso da rainha portelense, o responsável por sua conexão com a agremiação foi o pai, Paulo Monteiro. 

Ele levou a filha aos 13 anos para brilhar na ala de passistas e ela nunca mais parou. Mais do que uma rotina recheada de treinos de samba e novos amigos, Bianca conta que ganhou um novo destino. “Sou filha da Portela, nasci e me criei lá. Tudo que eu tenho e tudo que eu sei hoje foi a Portela e o samba que me deram”, declarou. 

Rainha da Portela espera inspirar meninas da comunidade
Rainha da Portela espera inspirar meninas da comunidade
Foto: Daniel Pinheiro/AGNews

Depois de anos como passista, Bianca foi coroada como princesa do carnaval em 2015 e 2016. Conhecida como a "Beyoncé do Samba", ela brilhou tanto no posto que foi convidada pelo então presidente da agremiação, Luís Carlos Magalhães, para assumir o reinado. “Eles já queriam colocar alguma menina da comunidade e eu fui a escolhida”, relembrou.

Bianca acredita que ter uma pessoa da comunidade assumindo um cargo tão admirado é muito representativo e faz com que outras meninas criadas na quadra da escola acreditem que é possível chegar lá. “Sou cria de Madureira e acho muito importante isso. Estamos falando da realização de um sonho, de ser reconhecida no nosso ofício. O samba, para a menina da comunidade, é o que ela é”, explicou. 

Por isso, a rainha da Portela leva a responsabilidade como um privilégio e não como um fardo. “Quando você ganha o privilégio de representar a sua história nessa posição de rainha, você não representa só o seu samba, mas sim toda a história de toda uma comunidade”, destacou.

Para Bianca, o seu ‘reinado’ não é só seu e seu samba no pé leva junto o molejo de muitas pessoas que já passaram e que ainda estão na comunidade. “Represento os sambas de todas essas mulheres que passaram por ali e que sonharam, assim como eu, um dia ser rainha de bateria”, afirmou.

A rainha também revelou se preocupar em como passará a coroa adiante: “Tenho uma responsabilidade muito grande não só com a minha carreira, mas em como eu vou passar isso. Hoje, é muito bom poder ser essa referência para que elas possam ter seus sonhos realizados, assim como estou tendo o meu”. 

Corpo e espírito equilibrados na avenida 

Poucas pessoas experimentam o peso de representar a bateria e toda uma escola de samba durante o desfile na Marquês de Sapucaí. Como rainha, Bianca Monteiro é uma delas. Mesmo segura do amor pela Portela e do samba no pé treinado exaustivamente em Madureira, ela garante que fica tensa a cada carnaval.

“Não tem como não ficar nervosa e emocionada. Não tem como não ter medo! É uma apreensão para que dê tudo certo não só no meu trabalho, mas no de toda a escola”, explica. 

A preocupação é um reflexo do respeito que tem pela comunidade portelense e a vontade de ser campeã em uma liga tão competitiva como o grupo especial do Rio, onde o vencedor é decidido por décimos. Com todos os holofotes voltados para a Sapucaí, a tensão é certa mesmo quando se tem experiência. 

Bianca Monteiro diz que continua nervosa para desfiles na Sapucaí
Bianca Monteiro diz que continua nervosa para desfiles na Sapucaí
Foto: Webert Belecio/AGNews

“Esse ‘friozinho’ na barriga não muda com o tempo. Acho que a hora que esse nervosismo passa é quando já não dá mais para ficar ali. Já não tem mais aquela expectativa, a entrega”, opina. 

Nada prepara uma rainha de bateria para a emoção que é pisar na avenida a cada fevereiro. No entanto, uma rotina especial durante os meses que antecedem a folia pode ser uma boa pedida para acalmar os ânimos. Bianca conta que a programação é puxada e cansativa, mas necessária. 

“É um trabalho diário e constante para chegar na avenida com o corpo que a gente deseja. Porque cada uma molda seu corpo e trabalha em cima disso, né? Faço atividade física todos os dias, cuido da estética e treino samba todos os dias também”, relata.

Fora o cuidado com a estética, a rainha portelense garante a necessidade de olhar com carinho para a saúde mental e espiritual. Iniciada no candomblé, Bianca compartilhou sua preparação: “Cuido sempre do orí, para que ele possa estar sempre tranquilo e bem encaminhado para que possamos fazer bem o nosso trabalho”. 

Ausência de ex-rainhas famosas

A lista de celebridades que ocuparam o cargo de Bianca Monteiro na Portela é longa. Luma de Oliveira, Luiza Brunet, a ex-globeleza Valéria Valenssa e Adriane Galisteu são algumas delas. Pelo histórico da escola de Madureira com famosas à frente da Tabajara do samba, Bianca acredita que enfrentou certa resistência por ser "anônima". 

Bianca Monteiro foi criada na Portela
Bianca Monteiro foi criada na Portela
Foto: Thiago Valladares/Rio Carnaval

"As pessoas têm um preconceito muito grande, né? ‘ah, se não é famoso eu não sei quem é’. E quando dão a oportunidade para essa galera da comunidade, que vive aquilo ali, outras pessoas se veem em você", comenta. 

Mesmo defendendo que a coroa deve ser passada entre as meninas da comunidade, Bianca faz questão de reverenciar as ex-soberanas. "É um cargo que grandes mulheres como Sheron Menezzes, Adriana Bombom e outras mulheres pretas ocuparam. Representar isso agora é muita responsabilidade, porque a ideia é que outras meninas, assim como eu, tenham a sua oportunidade", pontua. 

No ano passado, o destaque da Portela recebeu quatro ex-rainhas de bateria no desfile em que se comemorava o centenário da escola de Madureira. Na Sapucaí, Bianca brilhou ao lado de Adriane Galisteu, Sheron Menezzes, Luiza Brunet e Edcleia das Neves

Apesar do momento bonito de comunhão entre rainhas, ela afirma que nunca chegou a receber conselhos e cobra uma presença maior das famosas na comunidade. "A galera, quando sai desse lugar, acaba não convivendo com a escola, não fazendo parte da rotina. Sinto falta das ex-rainhas estarem mais presentes, falarem mais da sua história no samba", reclama. 

Bianca continuou: "Precisamos dessa movimentação, dessa bandeira, não só no período de carnaval. O samba é o ano todo. É uma fábrica de sonhos, de vidas, onde várias pessoas são empregadas. As pessoas precisam ter um olhar um pouquinho mais carinhoso sob esse trabalho que é feito o ano todo". 

Conheça as rainhas de bateria das escolas de samba do Rio de Janeiro Conheça as rainhas de bateria das escolas de samba do Rio de Janeiro

Mesmo sentindo falta dos conselhos e do apoio das ex-rainhas, Bianca conta que o amor dos potelenses foi essencial desde o início e que isso é o bastante para ela. "Recebi muito carinho de toda a comunidade. Essa é a energia que eu preciso, a minha comunidade me abençoando sempre!", exalta. 

O que é que a rainha tem?

Praticamente criada para ser uma rainha de bateria desde os seus 13 anos, Bianca Monteiro define dois pré-requisitos para quem quer ocupar o cargo: empatia e muito amor. Com a história da comunidade, com o povo, com o barracão e com cada pessoa que pega uma condução para ir a um ensaio na quadra.

"Não existe esse lugar de rainha absoluta, só ela olhando para ela, para o corpo dela, para a vaidade dela. Isso não cabe mais", opinou Bianca. De acordo com a soberana da Portela, as rainhas de bateria são as mensageiras das escolas e devem se empoderar desse papel, independente de ter sido criada ou não na comunidade. 

"A rainha tem a obrigação de levar o nome da escola e aquele trabalho em todos os lugares. Se ela é famosa e tem a mídia a favor dela, deve levar isso para a mídia. Se é blogueira, leve nas redes sociais. Mas ela tem a obrigação de falar, não só por ela, mas por toda uma comunidade que se dedica muito para fazer o carnaval", desabafou Bianca Monteiro. 

A Portela desfila na segunda-feira de carnaval, 12, na Marquês de Sapucaí. Neste ano, a azul e branca vai defender o enredo Um defeito de cor, sobre o livro homônimo de Ana Maria Gonçalves. 

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Fonte: Redação Terra
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