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Carla Madeira revela detalhes de seu novo e mais ambicioso livro: 'Quando escrevo, entro intensa'

Autora de 'Tudo é Rio' lança 'Quando', um romance polifônico; leia entrevista completa e um trecho da obra

17 ago 2026 - 18h06
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Viridiana costura. Costura roupas, ressentimentos, medos, lembranças, mágoas, culpas e perdão. Ela está para morrer e espera pela chegada do filho que não vê há 20 anos, desde que o denunciou à polícia. Viridiana é uma personagem importante na trama de Quando, o novo livro da escritora Carla Madeira, que começa a chegar às livrarias nesta sexta, 14. O olhar para a maternidade continua presente, mas a obra vai muito além, mapeando outras vozes e muitas esperas que se misturam em vários tempos na história de violência, de homofobia e do poder dos afetos, revelando como certas vivências deixam marcas profundas no corpo e na memória.

Com mais de um milhão de exemplares vendidos das obras Tudo é Rio, A Natureza da Mordida e Véspera, o esperado lançamento tem todos os elementos para continuar a trajetória de sucesso da autora. Com orelha assinada por Rita von Hunty, a obra tem ritmo, bons protagonistas e a tensão de acontecimentos que mantêm o interesse até o final da trama. Não há respostas fáceis, nem certo ou errado nos encontros e desencontros de uma família vivendo no Brasil da década de 80.

Quando é o encontro do passado, presente e futuro entre personagens tão contraditórios como a vida. Carla ainda não tem projeto definido para o quinto livro, mas sabe que ele virá no tempo certo. Confira a entrevista.

'Quando', novo romance de Carla Madeira, traz várias vozes e se passa em diferentes tempos
'Quando', novo romance de Carla Madeira, traz várias vozes e se passa em diferentes tempos
Foto: Marcia Charnizon/Divulgação / Estadão

Esse foi o seu livro mais trabalhoso?

Eu fiquei quatro anos escrevendo esse livro, entre o fôlego e a falta de ar, mas ele realmente foi um processo diferente dos outros. Eu ainda não queria começar a escrever um livro, achava que precisava ler e estudar mais. Quando você começa um livro, é um processo intenso, você tem que estar disponível o tempo todo. Eu estava vivendo lutos muito fortes. Perdi em sequência minha mãe, meu psicanalista e a minha sócia, que teve um diagnóstico de câncer de pâncreas, oito meses de tratamento e uma morte dolorosa. Um dia fui visitá-la e saí arrasada. Cheguei em casa, abri o computador e comecei a escrever na força que veio, uma coisa muito caótica, muitas vozes diferentes, de crianças, de policiais.

Escrever ajudou?

Muito. Eu nunca começo a escrever um livro sabendo a história que eu vou contar, vou encontrando no caminho. Com a minha vida virada de cabeça para baixo e o peso de tocar sozinha a agência, tudo ficou muito pesado. Eu ficava 10, 12 horas no trabalho. Quando eu chegava em casa, escrever me sustentava. A linguagem foi como um recurso para lidar com o real. Era um momento em que estava me enlouquecendo e fui entrando no espaço criativo inteira. A linguagem ajuda a reorganizar o corpo.

Nessa obra há uma preocupação maior com a forma?

Nos meus livros eu sempre busco um desafio para me interessar pela história que eu quero contar. No Tudo é Rio foi uma linguagem poética, sem contenção nenhuma. Eu queria mudar na Natureza da Mordida e fui pesquisar a voz de uma psicanalista e o desafio foram os narradores oniscientes. Em Véspera, eu fiz uma imersão na Bíblia e no mito de Caim e Abel. Em Quando há um certo deleite e uma polifonia, e o desafio foi entrar com a minha lógica matemática para ter clareza. Minha intenção era não deixar a história confusa para o leitor e acho que consegui realizar isso.

Alguma coisa te surpreendeu ao escrever esse livro?

Sim, eram tantas vozes, era pretérito, era presente, era alguém contando do passado num presente, mas contando do passado no pretérito ou era o futuro chegando e anunciando uma coisa que ainda não tinha sido dita. Eu, enquanto escrevo, não mostro para ninguém. A primeira versão ficou pronta em setembro do ano passado. Depois, fiz muitas escutas, com pessoas em quem eu confio e me acompanham. Acho que estava com dificuldade de entregar emocionalmente. Foi o encerramento de um ciclo desses lutos todos. O livro tem um eixo da espera e não é à toa que não há pontos, só em um momento especial, quando Viridiana está observando seu Barros na horta.

Essa cena é muito bonita, como foi escrever?

Eu amo essa cena, é uma das melhores que eu escrevi. Senti felicidade quando a escrevi, como senti na cena em que Teresa encontra o pai no livro A Natureza da Mordida. Como foi bom e delicado chegar nesse trecho. Eu gostei tanto do personagem do seu Barros... Ele ficou muito querido para mim e tive a sensação de querer dar mais espaço para ele, mas não era preciso.

Você costuma falar sobre os repeniques para deixar a história mais interessante. Quais foram os repeniques desse livro?

Acho que primeiro foi colocar crianças como narradores. Eu fiz rodas de conversas com crianças de 8 a 12 anos em uma escola privada, e esse recorte foi essencial para construir os personagens do Fran e do Nino. A troca de vozes o tempo inteiro também é.

Foram muitas pesquisas?

Foi uma estrutura muito elaborada para chegar nessa narrativa, inclusive estudando autores que usaram a polifonia em seus textos. Para o personagem do policial Ferola, pesquisei programas policiais de rádio da época e encontrei fatos terríveis. Foi preciso compreender o tempo em que tudo acontecia... 1986... a truculência policial, o País saindo da ditadura, as Diretas Já. Essa herança foi um marco para alargar a consciência para questões ligadas a gênero, a racismo.

Você se considera uma buscadora de palavras?

Para esse livro eu fiquei três anos atrás de uma palavra para o que eu queria dizer, um acontecimento tão forte, mais forte do que memória ou lembrança para uma situação boa ou ruim, mas que deixa marcas profundas. Quando eu achei a palavra engrama, era exatamente o que eu queria dizer para contar essa história.

Quando escreve, você pensa no leitor?

Quando eu escrevo, entro intensa, na medida do possível sem me preocupar com isso, mas me preocupando com a dinâmica de uma história que está sendo contada. Durante a Flip, o escritor Valter Hugo Mãe leu Quando e foi muito generoso: disse que para ele era o meu melhor livro. Ele e outras pessoas também falaram que eu consegui deixar o leitor em estado de espera. É esse leitor imaginário que precisa ser incluído na história. Um livro é a experiência do leitor com a sua subjetividade.

Publicitária, Carla Madeira ganhou fama com 'Tudo é Rio'. Autora ainda de 'A Natureza da Mordida' e de 'Véspera', ela lança agora 'Quando'
Publicitária, Carla Madeira ganhou fama com 'Tudo é Rio'. Autora ainda de 'A Natureza da Mordida' e de 'Véspera', ela lança agora 'Quando'
Foto: Marcia Charnizon/Divulgação / Estadão

Você disse que todo escritor tem suas fragilidades. Descobriu as suas?

Cada livro me coloca num desejo de aprendizado e eu venho aprendendo ao longo desse tempo. Na minha maturidade, eu já consigo entender o que Mia Couto me disse uma vez: que todo autor precisa aprender uma certa contenção. Não vejo uma fragilidade específica, eu lido com o que todo autor lida no cotidiano.

A maternidade é muito presente em sua obra, não?

Eu até agora não consegui escapar desse assunto. A maternidade é o encontro com uma intensidade indescritível para o bem e para o mal, sem querer romantizar. É o medo, a exaustão, a rejeição, está tudo lá.

Como você define a Viridiana, a mãe que denuncia o filho à polícia?

Ela é uma mulher no constante ir atrás dos seus desejos. Ela faz uma grande virada na vida, está em um casamento difícil e, de repente, descobre a própria potência de ser independente financeiramente, de viajar, de conhecer outras mulheres, de conhecer arte. Ela amplia o conhecimento dela a partir da capacidade de fazer costuras, agregando relacionamentos no alargamento de seu mundo, mas ainda ficou presa em um casamento limitado, fazendo coisas que não queria e experimentando sentimentos difíceis. Ela abre o olhar, mas sem saber como sair do mundo anterior, de muitos anos, como tantas de nós.

Quem é a Carla agora, depois de tanto sucesso e de ser considerada a escritora contemporânea mais lida no País?

Mudou um crescimento de assuntos, de estudos, mas principalmente a clareza na confirmação de que eu preciso da linguagem ou da música ou da pintura ou da escrita. O meu desejo é estar na linguagem como um projeto de saúde mesmo.

Quando

  • Autora: Carla Madeira
  • Editora: Record (280 págs.; R$ 69,90; R$ 49,90 o e-book)
'Quando', de Carla Madeira, é um lançamento da editora Record
'Quando', de Carla Madeira, é um lançamento da editora Record
Foto: Editora Record/Divulgação / Estadão

Leia trecho inicial de 'Quando', de Carla Madeira

A manga na ponta do galho não parava de olhar para Tito. Passou a persegui-lo de uma tal maneira que, estivesse ele onde estivesse, ela o atiçava. Aquela manga carnuda, mama nua nas alturas, estava tentando o menino, seu caldo escorreria pelo canto da boca morna e o lambuzaria. Tito imaginou o gosto concentrado e antecipou uma saliva abundante; foi apanhá-la. O tronco escorregadio, lavado pela chuva, não o desanimou. Arranhou a pele lisa na casca grossa da árvore, o sangue porejou ardido, mas incapaz de sabotar seus planos, impulsionou o corpo para cima, pulsava dentro dele a iminência da saciedade, a quase alegria. Segurou no galho acima da cabeça, os pés se ajeitando nas saliências e forquilhas, escalou. Já nas grimpas, andou de lado com um leve balanço sob os pés e, com as mãos agarradas em galhos trêmulos que percorriam uma ligeira folga antes de sustentar seu peso, chegou. Lá estava ela, carnuda. Esticou o braço, alcançou a fruta e a puxou com a força de possuí-la de uma só vez, o galho veio junto e, antes de encontrar alguma resistência, Tito se espatifou no chão. Caiu de costas.

Valquíria viu a queda e, depois dela, a imobilidade de Tito, gritou a morte do irmão com o desespero de perdê-lo — Mãe, Tito caiu do pé de manga! Corre, mãe! — Margarida, a irmã mais velha, chegou sem dissipar energia com os costumeiros rebolados, arrancada a contragosto das fantasias românticas pelo barulho da queda e os gritos de Valquíria. Com os olhos vidrados no corpo esticado no chão, engrossou o coro — Mãe, mãe, Tito caiu do pé de manga!

Viridiana saiu de casa com uma velocidade desconhecida nas veias — Tito, meu filho, o que foi isso? Val, chama o seu Barros, rápido, filha. Vá com ela, Margarida, pede para chamar uma ambulância.

Tito estava colado no chão, os olhos abertos embaçados, vozes distantes girando palavras no ar e a sensação do corpo inutilizado. O socorro chegou. Contaram até três e puseram Tito na maca. Viridiana foi junto na ambulância, mãos dadas com o filho — Tito, meu menino, o que foi isso, Tito? Aguente firme, filho. A sirene ligada por todo o trajeto. O mundo desfocado, sumindo, sumindo, sumindo.

Chegaram ao hospital. A inesquecível sensação da cama com rodinhas fazendo manobras apertadas no corredor. As luzes indo e voltando como se Tito flutuasse, subindo e descendo ondas tempestuosas, avistando e perdendo de vista a terra firme. Viridiana correu ao lado para acompanhar a urgência, mãos agarradas no corpo do filho, segurando a vida dele nas unhas. O perigo era a coluna, disseram, a medula... não sentir as pernas é um mau sinal — Não sentir? Como assim, não sentir as pernas?

Muitos anos antes, Ozório Saldanha Leite, ainda bebê de colo, pegou uma infecção bacteriana que provocou uma diarreia furiosa. Tinha cerca de um ano de idade, usava fraldas, e a única palavra que sabia rascunhar era um arremedo de mamãe. A desidratação minou seu corpo, a língua colou no céu da boca, os olhos afundaram dois poços em sua face e, embora ele chorasse, não havia matéria líquida para escorrer lágrimas. Praticamente desenganado, Ozório, internado havia quatro dias no Hospital das Clínicas de Belo Horizonte, lutava contra o tempo, uma vez que a cultura nas fezes, para descobrir exatamente qual bactéria estava acabando com ele, não podia ser apressada. Só um diagnóstico preciso acertaria na veia o antibiótico capaz de virar o jogo; no entanto, o problema eram justamente as veias, que, com um calibre de bebê, estouravam a cada gota de esperança, sendo preciso pegar dolorosamente uma nova veia, e outra, e mais outra num calvário sem fim. Na hora de furar o bebê, era a mãe que o segurava. As enfermeiras compadecidas ofereciam-se para conter o menino, tentavam convencê-la a sair do quarto, mas ela não concebia deixar o filho enfrentando aquilo sozinho. Ozório olhava para ela e, encontrando uma longínqua força em seu estado hipotônico, balbuciava — Mamã, mamã —, e neste som coagulava o mais profundo significado de súplica. Por um segundo, confiava na mãe, e sua expressão de bebê se abria a uma breve e nítida esperança de que aqueles olhos amorosos diante dele o livrariam de seu sofrimento, mas, ao contrário, sua mãe o segurava firme enquanto eles enfiavam a agulha uma, duas, sete vezes em seu corpinho, àquela altura um campo completamente minado de explosões arroxeadas. Quando, lá pras tantas, decidiram fazer um acesso profundo a uma veia de maior calibre, eliminando a necessidade de ficar espetando Ozório a todo momento, alternativa que evitaram ao máximo pelo risco de uma nova infecção que lhe seria fatal, o resultado da cultura ficou pronto e foi espantosa a velocidade com que derrotaram as bactérias. Ozório escapou. Cresceu. Esqueceu. E casou-se. Teve uma filha a quem deu o nome de sua mãe: Viridiana. A quem seria capaz de segurar com firmeza, se necessário, mesmo que a dor lhe fosse insuportável. A quem legou a única herança que ele mesmo recebera, a de um amor que não se desvia de suas obrigações.

— Como não sentir as pernas? Ah, vai sentir as pernas sim, senhor! — Viridiana pega uma tala larga de carne na coxa do filho e torce, torce, torce disposta a arrancar um pedaço dele. Tito grita de dor e depois chora. Viridiana sorri.

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