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Bilionário de extrema direita boicota 600 profissionais do cinema na França e expõe fragilidade do setor

O bilionário Vincent Bolloré, um dos sócios do grupo Canal+, principal financiador privado do cinema francês, não gostou de uma tribuna publicada e assinada por centenas de profissionais do setor criticando o que é apontado como uma forma de intervencionismo do magnata do mundo da cultura. Em resposta, ele anunciou um boicote a cerca de 600 dos signatários do protesto, entre eles nomes de peso, como a atriz Juliette Binoche. O episódio expõe a relação delicada entre o cinema francês, parcialmente financiado por fundos públicos, mas cada vez mais dependente da iniciativa privada.

18 mai 2026 - 16h30
(atualizado às 16h42)
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Na tribuna, publicada no jornal Libération às vésperas da abertura do Festival de Cinema de Cannes, cerca de 600 profissionais do mundo do cinema criticam abertamente a atuação de Bolloré que, além de ser um dos donos do grupo Canal+, comprou mais de um terço das ações de uma das principais redes de salas de cinema do país.

O bilionário de extrema direita francês Vincent Bolloré é dono de um dos principais grupos de mídia do país.
O bilionário de extrema direita francês Vincent Bolloré é dono de um dos principais grupos de mídia do país.
Foto: REUTERS - Gonzalo Fuentes / RFI

"Deixando o cinema francês nas mãos de um empresário de extrema direita, não corremos apenas o risco de uma uniformização dos filmes, mas de uma tomada de controle fascista sobre o imaginário coletivo", escreveram os signatários. "Dependemos hoje, em graus diversos, tanto para nossos projetos quanto para nossos salários, do dinheiro de Vincent Bolloré, mas queremos sair juntos do silêncio imposto insidiosamente ao nosso setor", continua o texto, assinado por nomes como as atrizes Juliette Binoche, Adèle Haenel e Anna Mouglalis, bem como o fotógrafo e cineasta Raymond Depardon e o diretor Yann Gonzalez.

Em resposta, o bilionário informou, no domingo (17), por intermédio do presidente do conselho de administração da Canal+, Maxime Saada, que não deseja mais ver seu grupo financiar os projetos dos cerca de 600 signatários desse texto. A ameaça de Bolloré e do grupo que ele representa tem um peso considerável.

Com € 155 milhões injetados em 2025 na produção de longas-metragens, a Canal+ é o principal patrocinador do cinema francês. O grupo representa sozinho 40% das contribuições totais dos canais e plataformas de distribuição, muito à frente do grupo público France Télévisions (18%) e sobretudo das plataformas de streaming como Netflix, Disney+, HBO Max ou Paramount+, com apenas 5,8% dos investimentos totais.

Essa posição central se explica por um modelo tradicional: a Canal+ pré-compra os direitos de exibição dos filmes antes de seu lançamento, o que permite aos produtores completar seus planos de financiamento e iniciar as filmagens. Em troca de uma autorização para exibir os filmes pouco depois de sua estreia nos cinemas, a plataforma está sujeita a obrigações regulatórias quanto à diversidade das obras, mas também quanto aos investimentos.

A emissora se comprometeu a investir € 480 milhões em três anos, até 2027, o que corresponde a cerca de € 160 milhões por ano. "O cinema não pode prescindir de um financiador desse peso", resume Kira Kitsopanidou, professora na Universidade Sorbonne-Nouvelle e especialista em economia do cinema. "€ 480 milhões em três anos é praticamente quatro vezes mais do que a Amazon prometeu nas últimas negociações com o cinema", ela calcula.

Risco para a diversidade no cinema

O Canal+ não se limita ao financiamento dos filmes. O grupo exibe as produções em seu canal pago, atua na distribuição por meio da StudioCanal e reforça agora sua presença na gestão e exploração das salas de exibição.

Em outubro de 2025, o Canal+ entrou no capital da UGC, uma das maiores redes de salas de cinema do país, adquirindo 34% das ações da empresa, com a ambição de assumir seu controle total até 2028. Essa operação alimenta as preocupações de uma parte do setor, que teme uma concentração: da produção dos filmes à distribuição, passando pela exibição em suas próprias salas.

Essa é uma estratégia bastante comum nos grupos cinematográficos, analisa Kira Kitsopanidou. "O risco é, de fato, que Canal+ possa um dia controlar o que o espectador da UGC vai prioritariamente poder assistir. Isso levanta questões sobre a diversidade dos filmes, da criação e da produção", explica a professora.

No entanto, a especialista pondera sobre a situação. "Pessoalmente, eu acho que o modo de financiamento dos filmes, que hoje envolve a participação de vários atores, não permite que um único ator controle o conteúdo das obras. Estamos em um país que ainda tem uma grande diversidade de produtoras, mas também de telas e de exibidores, o que garante a diversidade da oferta à qual o espectador poderá ter acesso."

Presença em outros setores

Bolloré, que fez fortuna principalmente na área de logística na África, consolidou-se nos últimos 20 anos como uma figura-chave da mídia francesa. A emissora de TV CNews, um dos canais que ele dirige, é regularmente acusada de permitir a veiculação de comentários racistas.

A Hachette, a maior editora francesa, é controlada por Bolloré desde 2023. Em abril, Hachette demitiu o CEO da editora Grasset, que também pertence ao grupo, irritando funcionários e autores. Em resposta, 15 escritores romperam seus contratos com a editora, denunciando uma interferência do bilionário ultraconservador na atividade editorial.

RFI A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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