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Ator de ‘Verdades’ defende diálogo e critica “desgoverno”

Felipe Hintze ressalta importância da arte contra preconceitos, condena exploração sexual e lamenta morte do avô por covid

22 out 2021 10h55
| atualizado às 10h55
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Felipe Hintze afirma ser um homem sensível e liberto do machismo
Felipe Hintze afirma ser um homem sensível e liberto do machismo
Foto: João Fenerich / Divulgação

A reprise de Verdades Secretas na faixa nobre da Globo fez o telespectador rememorar o tímido e rejeitado Eziel, amigo da protagonista Angel (Camila Queiroz), por quem ele nutre uma paixão platônica e propõe pagar por uma transa. O trabalho tornou famoso o ator Felipe Hintze.

Seu personagem não está em Verdades Secretas 2, que estreou no Globoplay. No momento, o artista grava a próxima novela das 19h, Quanto Mais Vida, Melhor, com estreia prevista para 22 de novembro.

Seu currículo inclui atuações em Dupla Identidade, Supermax, Malhação: Viva a Diferença, O Sétimo Guardião e Bugados. Hintze conversou com o blog sobre TV, o papel social de seu personagem, o impacto da pandemia e o governo Bolsonaro.

Seis anos após a exibição original de ‘Verdades Secretas’, como avalia sua interpretação do Eziel e a influência daquele trabalho?

O impacto na minha vida e na minha carreira é imensurável. Esse trabalho foi muito profundo e intenso. Há desdobramentos dele até hoje. Sou muito feliz e orgulhoso por ter vivido essa experiência. Vejo a gente no início da carreira fazendo cenas com altíssimo nível de qualidade artística. Éramos bem aparados por uma direção fantástica. ‘Verdades’ é icônica.

Como tem sido a reação de quem assiste à reprise?

Reação sempre positiva, muitas pessoas novas estão acompanhando a novela. Uma geração que era criança na época, e os pais não deixavam assistir, tem a oportunidade de ver agora. O Twitter é o lugar ideal pra ver a reação das pessoas. Gosto quando me escrevem falando que me adoram, mas odeiam a personagem, significa que o trabalho deu certo.

Eziel representa o jovem fora dos padrões e vítima de gordofobia, ou seja, milhões de pessoas anônimas. Qual a importância social da personagem?

Só de ocupar esse espaço já é um grande avanço. Dar voz às minorias, colocar em papéis de destaque em novelas como ‘Verdades’, é um serviço à sociedade. (O autor) Walcyr Carrasco aborda com genialidade os temas. Quanto mais a gente expõe esses problemas na dramaturgia, menos a gente vai sofrer na vida. Combatemos essas questões na arte. Na época, eu me lembro de ser parado na rua e terem me falado que eu era instrumento de inspiração, pois quando me viam na televisão sentiam que também poderiam ocupar espaço. Isso é de extrema importância. Nós vivemos em uma sociedade repleta de preconceitos, a gordofobia é um deles, infelizmente. Já sofri. A minha luta contra o preconceito é diária!

Hintze como Eziel: “Precisamos dar voz às minorias na TV”
Hintze como Eziel: “Precisamos dar voz às minorias na TV”
Foto: TV Globo / Reprodução

Em cena que surpreendeu o público, Eziel tenta pagar por sexo com Angel. O que acha desse mercado? Já pagou por prazer?

Eu nunca paguei ou pensei em pagar por sexo. Cada pessoa faz o que quiser com o seu corpo. Não julgo nem coloco crenças conservadoras na profissão de cada um. Até porque acho o conservadorismo um retrocesso. Temos que respeitar a escolha de cada um, mesmo se isso seja contra nossas ideologias. A questão é que o mercado da prostituição existe, não dá pra simplesmente ignorar esse fato, e muitas pessoas acabam em condições de exploração sexual, não conseguindo sair dessa vida. Eu acho que as pessoas deveriam conquistar direitos para exercer o que querem com segurança e dignidade.

Ficou chateado de não estar em ‘Verdades Secretas 2’? Mantém contato com outros atores do elenco?

Jamais! Muitos personagens não voltaram na sequência. ‘Verdades 2’ é uma história totalmente diferente da primeira. As personagens que continuam na história estão em outro momento da vida, se relacionando com outras pessoas. Mantenho contato com colegas do elenco. Eu sou padrinho de casamento da Camila (Queiroz, casada com o ator Klebber Toledo), muito próximo da Agatha (Moreira, a Giovanna). Temos um carinho muito grande por todos que participaram desse projeto.

Recentemente, você foi elogiado no Instagram por fazer uma surpresa à sua namorada pelos 5 anos de relacionamento. É um romântico à moda antiga?

Eu sou uma pessoa que acredita e vibra muito no amor. Eu gosto de transbordar carinho e gentileza. Gosto do arquétipo de ser cavalheiro. Sou romântico, mas não perpetuo ações desse “homem romântico à moda antiga” que é enraizado no machismo e na misoginia, sou zero careta e tenho muito tesão quando recebo esse carinho em troca. Acho ultrapassado escutar coisas do tipo “isso é coisa do homem fazer”.

O ator diz que a arte o transformou em uma pessoa melhor
O ator diz que a arte o transformou em uma pessoa melhor
Foto: João Fenerich / Divulgação

Em ‘Quanto Mais Vida, Melhor’ você terá um personagem cômico. O que pode contar sobre ele?

Não posso contar muito, pois ele entra depois do segundo mês de novela, então bastante coisa acontece antes. Posso falar que é recheado de comédia. Um delegado interino que chega na história. Eu me inspirei no personagem do Evan Peters (o detetive Colin Zabel) em ‘Mare Of Easttown’ (minissérie da HBO), que, aliás, acabou de ganhar o Emmy (de Melhor Ator Coadjuvante) pela performance. Mas é só uma das inspirações, pois o humor na novela é bem mais presente do que na minissérie.

A pandemia o afetou?

Meu avô, Milton Flaitt, faleceu por covid e isso me abalou muito. Foi tudo rápido e triste. Ele vivia isolado na sua chácara com minha avó e, mesmo assim, contraiu o vírus. É uma doença estranha. Como alguém pode pegar e não sentir nada e outra pessoa pode pegar e ser fatal? Eu mesmo peguei covid muito tempo depois, ainda antes de vacinar, e não tive nenhum sintoma. Não acredito que a humanidade consiga sair melhor depois de tudo o que passamos. Creio que a pandemia despertou o melhor e o pior de cada pessoa. Um número expressivo de mortes poderia ter sido evitado se tivéssemos uma política eficaz de combate à pandemia. Uma tristeza que ficará marcada na nossa história.

Mudou seu olhar sobre a vida e a relação com as pessoas queridas?

Meu olhar sobre a vida se aprofundou. Eu me aprofundei na busca do autoconhecimento fazendo terapia e busquei outras vertentes para compreender todas as minhas questões. Intensifiquei meus estudos nas artes, me aproximei mais ainda das conexões fortes que eu já tinha e me afastei da superficialidade de relações que não me traziam benefícios. Acredito que amadureci nesse processo, mas ainda tenho muito a trabalhar. Tudo isso é fundamental para a minha expansão pessoal e profissional. A arte salva. Tenho certeza de que a minha profissão me faz uma pessoa melhor.

No seu Instagram há um post com a mensagem ‘Fora Bolsonaro’, na qual chama o presidente de “assassino” e “genocida”. Acha que todo artista tem a obrigação de se manifestar politicamente?

Na minha visão pessoal, acredito ser importante me posicionar nesse período caótico que vivemos. Através do meu trabalho artístico posso influenciar e representar pessoas. Eu tenho muita responsabilidade pelas minhas falas e posicionamentos. Não cobro essa mesma atitude de outras pessoas e artistas, pois acredito na democracia e cada um tem direito de emitir a sua opinião. Mas não vou me calar se alguém põe em xeque o estado democrático. Vejo sinais disso no atual presidente, por isso me posiciono totalmente contra esse desgoverno. É muito triste ver uma pessoa tão despreparada ocupando o cargo de maior importância política do nosso País.

Sofreu alguma hostilidade por aquela manifestação?

A maioria dos meus seguidores, felizmente, pensa parecido comigo. Quando eu me posiciono contra o governo, recebo muitas mensagens concordando com a minha visão. Poucas vezes recebi mensagens de apoiadores desse governo e, todas as vezes que isso aconteceu, eu tentei estabelecer um diálogo. Acredito que precisamos tentar entender e debater as visões opostas, desde que essas opiniões não firam a nossa Constituição nem proliferem o inaceitável, como os preconceitos.

Qual seu conselho a um jovem que sonha com a carreira de ator e o vê como exemplo a ser seguido?

Faça teatro. Seja autêntico. Se produza. Não escute atores frustrados. Tenha muito prazer no seu ofício.

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