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O futuro dos livros está na mão dos gigantes

4 abr 2022 - 01h00
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Foto: Adobe Stock

Esses dias a Companhia das Letras deu um susto nos livreiros. Começou a abandonar o sistema de consignação, em que as livrarias pegam os livros sem pagar, e só pagam os exemplares efetivamente vendidos.

Agora, quem quiser os lançamentos da Companhia, líder de mercado, vai ter que comprar, pagando. Nada de pegar na faixa, segurar o livro quanto tempo quiser, e devolver o que encalhar.

Compra firme é como funciona o mercado editorial em vários lugares do mundo. Aqui já faz muito tempo que o sistema geral é de consignação. Impulsionado, aliás, pela própria Companhia.

Neste novo esquema, as poucas e pobres livrarias brasileiras que restam teriam que se descapitalizar, pra garantir os lançamentos da Companhia. Naturalmente vai sobrar menos dinheiro para arriscar (e pagar) outros editores, menores, independentes.

Uma das razões porque eu deixei de ser editor de livros lá em 2005 é porque concluí que só ia sobrar dois tipos de editoras: as gigantes e as autorais, que muitas vezes acabam sendo quase hobbies, e não a fonte de sustento do editor.

Não se confirmou totalmente, principalmente graças ao crowdfunding. Mas quase.

"A Companhia", como todos a chamam, nasceu quando eu estava na faculdade. Li a notinha no jornal: o editor Luiz Schwarcz deixa a Editora Brasiliense e vai fundar sua própria empresa. A Brasiliense era a única editora que importava nos anos 80. Provocava os jovens e impunha as pautas culturais do país. Luiz era seu editor-chefe.

Saiu por cima e na hora certa; a Brasiliense desboroou pouco depois. Eu andava desanimado com minha futura profissão de jornalista e pensando em mudar para editoração. Meu pai falou, escreve para o Luiz! Quem sabe você não vai trabalhar com ele? Ou quem sabe ele não quer um sócio minoritário?

Nunca soube se brincou ou falou sério - meu pai, médico, ia lá botar algum dinheiro em uma editora iniciante de um cara que ele nem conhecia, só para arrumar um emprego para o filho de 21 anos indeciso com a vida? Duvide-o-dó. Mas enviei a carta. 

Recebi resposta? Não lembro, e se sim foi como se não. Pouco depois nascia a Companhia das Letras. O sócio da empresa era uma editora e gráfica de cartões (desses de Aniversário e Boas Festas), da própria família Schwarcz. 

Comprei como todo mundo “Rumo a Estação Finlândia”, de Edmund Wilson, primeiro livro da editora, e como a maioria não cheguei ao final. Cadê os beatniks, o rock'n'roll, os primeiros passos, as cantadas, a ousadia? Bye-bye. A Companhia apostou no prestígio. No pop, só depois, e comedidamente, tênis com paletó. 

Um ano depois fiz teste para tradutor na Companhia. Peguei um livro de John D. McDonald, mais um da série estrelada pelo investigador Travis McGee. Eu já tinha lido uns 15 McGees até então. Não passei. Hoje entendo - estava traduzindo muito duro, muito literal. Na época fiquei uma vara.

Mais um ano, arrumei meu primeiro emprego, de jornalista. Seria eu mesmo editor de livros depois, na Conrad, mas estratégico, sem meter a mão na massa. Tenho vocação para catálogo e negociação, nenhum para a ourivesaria do acabamento, ou para relacionamento com autores.

Trinta e cinco anos depois da minha cartinha, a Companhia tem mais de três mil livros lançados, prestígio junto aos leitores e formadores de opinião, amor (até excessivo e condescendente) da imprensa especializada. Onde entrou, fez bonito ou não fez feio, da literatura estrangeira e nacional a livros de bolso, infantis e quadrinhos. 

Hoje qualquer um pode publicar seu livro digitalmente, vender ou doar ao mundo, divulgar de graça nas redes sociais. O custo caiu para zero ou perto disso. As editoras são crescentemente desnecessárias, como estão percebendo rapida e dramaticamente. Facílimo ser autor, dificílimo ganhar dinheiro com livro, que a oferta é infinita - quem tem tempo para ao menos saber tudo que existe para ler?

Quando você quer vender seu livro, está concorrendo com todos os livros de graça do planeta Terra, com os piratas, e com a Amazon, o Google, o Facebook e a Apple. Encrenca indigesta. 

Com tudo isso, pelo porte e profissionalismo, a Companhia das Letras tem boa chance de estar viva daqui a outros 35 anos. Espero que as editoras, gigantes e principalmente independentes, tenham futuro, mas minha colaboração para isso é muito eventual. 

Leio muito e compro muito livro. Mas o que preciso ler já, por razões profissionais, vem via internet, em formato digital, grátis ou muito barato. O que quero ler para mim, posso esperar. 

É raro eu comprar lançamentos. Meu principal consumo de livro é em sebo físico ou virtual. Não tenho pressa para ler o que acabou de sair. 

Eu tinha pressa era de deixar de publicar livros, o que fiz na hora certa. Pressentia o dia em que nem a mais importante editora brasileira teria sua sobrevivência garantida. Imagine minha editorinha independente. 

Em 2020, a gigante alemã Bertelsmann, faturamento anual na casa dos 19 bilhões de euros, completou sua aquisição da Penguin Random House. Hoje controla a Companhia. Editoras 2022: autorais ou gigantes - gigantes além da imaginação.

O dia chegou.

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