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Futebol feminino no Brasil tem origem nos circos

Pesquisadora da FGV revela evolução da modalidade a partir de exposições em picadeiros na década de 1930

19 nov 2018
05h11
atualizado às 11h23
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Em novembro de 1930, o jornal carioca Correio da Manhã divulgava de forma inédita o "Football Feminino" como uma das atrações do Circo Irmãos Queirolo. A apresentação era descrita como um "torneio disputado por 10 lindas e graciosas moças" e revelou que os times vestiriam os uniformes de Brasil e Uruguai. O sucesso obtido pela atração foi tão grande que, dias depois, mobilizou um novo número do "football Feminino" no espetáculo seguinte dos Queirolos. Dessa vez, no picadeiro, um Brasil x Argentina.

Uma pesquisa conduzida por Aira Bonfim, da Fundação Getúlio Vargas do Rio de Janeiro e que por sete anos trabalhou no Centro de Referência do Futebol Brasileiro no Museu do Futebol, levantou as experiências iniciais entre as mulheres e o futebol no Brasil. E, nela, o picadeiro e o futebol se misturavam, com um impacto duradouro para a imagem da modalidade.

Jogo de futebol feminino na década de 30.
Jogo de futebol feminino na década de 30.
Foto: Diário do Norte/Reprodução / Estadão Conteúdo

O circo não era apenas mais uma atração. Aira lembra que ele atingiu seu apogeu na primeira metade do século 20, tornando-se "uma das mais importantes manifestações artísticas brasileiras, com grande apelo popular - mais até que o cinema nacional - e por vezes como a única diversão que chegava até muitas regiões do Brasil".

As companhias circenses atuavam num campo ousado de originalidade e experimentação e misturava sensualidade, magia e fascínio. "O circo era um espaço privilegiado para o encontro do público com o que era considerado exótico", disse.

A "espetacularização" do futebol protagonizado por mulheres dentro de um picadeiro vai aparecer com frequência nas páginas dos jornais de diferentes Estados brasileiros nos anos seguintes. Com o desgaste do repertório clássico dos circos do século 19, novas atrações irão possibilitar a diversificação dos números, além da iniciação de novos atores e atrizes amadores. Com pouco tempo para decorar falas longas e a demanda por números sempre novos a cada temporada, os circos desse período reuniram um considerável repertório de apresentações que passaram a ficar disponíveis, como uma carta na manga, entre suas viagens pelas cidades brasileiras.

A pesquisadora conta como o caráter itinerante dos espetáculos dos circos atribuía certa exclusividade e personalização a atração "Football Feminino". Por todo local que passavam, as tais artistas vestiam as camisas das equipes do futebol local durante as apresentações. Estratégias de sedução, portanto, incluíam desde a exposição dos corpos femininos à identificação do clube local.

Num outro cartaz da época, os circos ainda anunciavam o jogo "Flamengo vc. Syrio Libanez", e ainda completavam com a constatação: "o maior sucesso do circo".

Time de futebol feminino posando para foto.
Time de futebol feminino posando para foto.
Foto: A Cigarra/Reprodução / Estadão Conteúdo

Já uma notícia de jornal coletada pela pesquisadora explicava o que era o campeonato de futebol feminino. "Ao contrário do que pode parecer a princípio, não se trata de um simples número de variedades: são dois adestrados teams de moças que se batem com vigor e decidido empenho pela victoria das cores do clube", apontou.

"É curioso saber que as primeiras décadas do século 20 marcaram a ruptura do privilégio masculino nos picadeiros nacionais. Mesmo que estigmatizadas, malvistas e à beira da prostituição, aos poucos a composição de artistas mulheres cresceu em tais companhias", constatou a pesquisadora.

Aira considera que o cenário de exposição circense da década de 30 pode ter sido um dos inauguradores da associação da imagem ainda pouco usual da mulher como jogadora de futebol.

"Tal imagem, ainda considerada 'exótica' ou estranha, trazia consigo uma posição simbólica subversiva e escandalosa para os padrões da época", disse. "Sendo assim, se o circo foi a expressão artística que maior público mobilizou nas primeiras décadas do século 20, podemos supor que a atração 'Football Feminino' contribuiu para a popularização e estigmatização da imagem das mulheres jogadoras", comentou.

Campos

Dos picadeiros, o futebol de mulheres ganhou novos espaços, como nos campos suburbanos do Rio de Janeiro entre 1939 e 1940. Mas, ainda assim, a pesquisa mostra como os eventos traziam consigo em seus anúncios palavras e termos que vinham de ações cênicas. "Moças do Mavillis voltam a ensaiar", dizia um deles. Em outro, era anunciado que "os integrantes do futebol feminino se exibirão em Santos a convite do Santos FC"; "(...) a partida da preliminar constituirá um espetáculo inédito para o público paulista". "Trata-se de um encontro de football feminino entre duas adestradas equipes cariocas", explicava outra.

Algum tempo depois, em 14 de abril de 1941, o Decreto-lei Nº 3.199 formalizaria de vez as definições sobre os esportes adequados ou não à "natureza feminina", e afastaria legalmente a promoção do futebol entre o dito "sexo frágil".

Esse impedimento, legal e simbólico, ainda foi deliberado mais uma vez, em 1965, depois de visíveis reincidentes de futebol feminino, e permaneceu em vigor até 1979, quando foi revogada a proibição. Mas a regulamento do futebol feminino no País ocorreu apenas em 1983. "Ou seja, enquanto o esporte nacional crescia e se populariza nacional e internacionalmente, segundo a Conselho Nacional de Desportos (CND), aos corpos das mulheres o futebol permanecia interditado e impróprio", apontou Aira.

Ingresso para jogo de futebol feminino.
Ingresso para jogo de futebol feminino.
Foto: Reprodução / Estadão Conteúdo

Segundo ela, a ideia de "espetacularização dos corpos femininos em campo" rendeu ainda muitos episódios. "Impossível não mencionar os jogos e preconceitos entre as vedetes que na década de 50 e 60 'ousaram' desfilar em carros abertos e pisar com seus shorts curtos nos gramados dos estádios do Maracanã e do Pacaembu", contou.

"Não muito distante, em 2001, a Federação Paulista de Futebol e a Pelé Sports & Marketing sugeriram o embelezamento das atletas do futebol como critério de seleção para o Campeonato Paulista de Futebol Feminino daquele ano, como estratégia de conquista de mais público e recrutamento de um maior número de praticantes", destacou.

Em 2015, ano da Copa do Mundo de Futebol Feminino no Canadá, o coordenador da seleção feminina na CBF, Marco Aurélio Cunha, declarou ao jornal canadense The Globe and Mail que o futebol feminino do Brasil chamaria mais a atenção, uma vez que "as jogadoras estavam mais bonitas e usando maquiagem". "Elas vão a campo elegantes. O futebol feminino costumava copiar o masculino. Até mesmo o modelo das camisas eram mais masculinizados. Costumávamos vestir as mulheres como homens. Então, faltava ao time o espírito de elegância e feminilidade. Agora, os shorts são um pouco mais curtos, e o estilo dos cabelos mais cuidadosos. Não são mais mulheres vestidas como homens."

Para a pesquisadora, trazer à tona outras narrativas sobre a memória do futebol brasileiro é reencontrar experiências "repletas de discursos que exacerbaram marcadores sexuais de suas épocas, a ponto de produzir legalmente e simbolicamente o distanciamento das brasileiras com o futebol".

Isso, em sua avaliação, "não são processos naturais, mas consequências de processos históricos, políticos e culturais, passíveis de serem superadas e rescritas nos próximos anos".?"Em 2018, mulheres ainda são obrigadas a defender a ideia de que elas não querem seduzir, mas participar mais ativamente dos espaços de visibilidade, prática e decisórios dos esportes. O desejo futuro, ao conhecermos cada vez mais a nossa própria história, é de oportunamente desmontamos os muitos picadeiros no nosso futebol", completou a pesquisadora.

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