Ellen Burstyn recebe Leão de Ouro pela carreira em Veneza e faz apelo aos EUA
Atriz americana disse esperar que seu país encontre o caminho certo
Aos 93 anos, a atriz Ellen Burstyn recebeu o Leão de Ouro pelo conjunto de sua carreira no Festival de Veneza. Ovacionada pelo público e homenageada pela cineasta Maggie Gyllenhaal, a artista relembrou os desafios dos bastidores do cinema e fez um apelo para que os Estados Unidos encontrem novos rumos. Burstyn também celebrou os avanços para as mulheres na indústria cinematográfica, embora tenha ressaltado que a plena equidade de gênero no setor ainda precisa ser alcançada.
Ellen Burstyn, uma das maiores atrizes da história do cinema americano, recebeu nesta segunda-feira (7) o Leão de Ouro pelo conjunto da carreira no Festival de Veneza e aproveitou o discurso para fazer um apelo por novos rumos nos Estados Unidos.
Diante de uma plateia de pé, a estrela de 93 anos não conteve a emoção. "Vocês me fazem chorar", disse Burstyn, elegante em um vestido amarelo longo com casaco combinando. "Percebi que um prêmio pelo conjunto da obra não é apenas um testemunho do que você realizou, mas também do que aprendeu", acrescentou.
A atriz, vencedora do Oscar por "Alice Não Mora Mais Aqui", de Martin Scorsese, contou uma anedota a respeito das gravações do longa que acabou virando lição de vida.
"Eu estava filmando uma cena de carro, e havia um grande precipício do lado direito do veículo. O problema é que eu estava com Martin Scorsese, o diretor de fotografia, o operador de câmera e o técnico de iluminação sobre o capô, e não conseguia ver a beirada da estrada; eu poderia ter derrapado e matado todos nós. Então, percebi que bastava seguir a linha branca no meio da estrada. E foi assim que consegui não matar o Scorsese", afirmou ela, sorrindo.
"Entendi que seguir aquela linha branca é um bom exercício para sair de dificuldades. E fiz isso pelo resto da vida. Espero, na verdade, rezo para que meu país encontre sua linha branca muito em breve e que vocês também encontrem a de vocês", acrescentou.
A cerimônia foi aberta com um discurso de Maggie Gyllenhaal, presidente do júri do Festival de Veneza neste ano e diretora de Burstyn no curta "Flesh Impact", exibido logo após a premiação.
No filme, a atriz interpreta uma Marilyn Monroe centenária e idealizada. "Ellen Burstyn é nossa rainha", declarou Gyllenhaal, lembrando papéis marcantes em filmes como "O Exorcista" e "Réquiem para um Sonho".
"Ellen está presente em todos aqueles personagens. Com o corpo, claro, mas também com o cérebro, o coração, a mente e a vida. Compartilhar isso conosco é um gesto de enorme coragem e afeto", disse.
Em entrevista coletiva pela manhã, Burstyn contou sobre a vez em que cruzou com Marilyn Monroe em uma boate: "Ela estava sentada não muito longe de mim, e fiquei encantada. Era uma criatura mágica. Quando nossos olhares se cruzaram, ela acenou. Guardei esse momento no coração desde então".
Sobre a evolução do papel das mulheres na indústria, ela afirmou que o cenário "mudou enormemente". "Quando comecei, não havia mulheres no set, atrás das câmeras, na equipe, em lugar nenhum, apenas nós, atrizes. Aos poucos, graças também a pessoas como Gloria Steinem, que faleceu recentemente, a mentalidade começou a mudar. Ainda não chegamos a 50/50, mas estamos perto", disse.
A atriz também refletiu sobre o contato com novas gerações de cineastas. "Descobri que diretores talentosos são mais criativos no início da carreira. Depois, passam pelo que chamo de fábrica de hambúrgueres de Hollywood e perdem parte da inocência", brincou.
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